Crítica: Entre Nós

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Provavelmente o maior mérito de “Entre Nós” está no fato do diretor Paulo Morelli e seu filho Pedro Morelli (que atuou como co-diretor), terem conseguido estruturar bem uma trama com dois momentos da vida comum de uma pessoa: um primeiro que envolve o desenvolvimento da maturidade e as escolhas para o futuro, e outro que se situa nas consequências trazidas por essas escolhas.

Sem se tornar ingênuo ou forçado, Morelli mostra a vida de um grupo de amigos que escreve cartas para eles mesmos, tendo em vista abri-las somente dez anos depois. Porém, no mesmo dia um acidente acontece e coloca a amizade deles em risco.

Embora uma parcela do filme foque em Felipe (Caio Blat), que acaba por manter uma relação conflitante com Lucia (Carolina Dieckmann) e Silvana (Maria Ribeiro), o longa dá espaço para todos os envolvidos, cada um com um problema pessoal: temos a mulher frustrada por não ter um filho, o cara que não se deu bem em nada que fez na vida, entre outros, com todas essas tramas paralelas ligadas uma a uma. Isso acaba fortalecendo a ideia de “ação e consequência” que permeia todo o filme. Tudo o que alguém faz acaba interferindo de alguma forma na vida do outro.

Há um belo trabalho feito com a fotografia, com uma câmera livre – muitas vezes se é utilizado da câmera na mão – que fluí pelo cenário e favorece a imersão do espectador no filme. Os planos, alguns poucos usuais e que vão desde manter os atores em uma sincronia diante da tela, até em sobrepor camadas com objetos que interferem rapidamente na visão do espectador, elucidam a subjetividade dos indivíduos. Há pouca diferenciação na iluminação do dia e da noite, deixando todos os elementos bem nítidos e favorecendo as atuações. Esse último detalhe é um dos pontos fortes do filme. O elenco bem escolhido mantém uma ótima interação entre si, trazendo maior credibilidade aos seus personagens.

Essa boa relação se deve, talvez, ao tempo em que os atores passaram juntos. Foram quatro semanas de filmagem (sem contar o tempo de ensaio) no mesmo local: uma casa de campo isolada do mundo. A escolha de um só lugar para situar o filme inteiro também faz com que ele se torne uma espécie de personagem onipresente no filme. Assim como os amigos da história vão se desenvolvendo durante a projeção, o mesmo acontece com a casa de campo e tudo ao seu redor. No começo ela se mostra como um local de felicidade e descontração, enquanto no final a mesma se transforma em uma lembrança da tristeza e de como as ações erradas influenciam o futuro.

Mesmo que esteja longe de ser um filme leve, há cenas que quebram a tensão da história a fazem o público rir um pouco – pode não ser intencional, pois tais sequências chegam a ser angustiantes quando observadas pelo ponto de vista dos personagens, mas isso acontece.

Não há exatamente uma conclusão em “Entre Nós”. O conflito principal se resolve, mas assim como uma metáfora da vida que o filme se mostra, os problemas ainda continuam.

Com estreia marcada para março de 2014, “Entre Nós” está em exibição na 37ª Mostra Internacional de São Paulo.

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Crítica: O Conselheiro do Crime

Texto originalmente escrito em 24 de outubro de 2013

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A ideia comum no cinema é a de que um o roteiro deve explicar detalhadamente as situações e problemas expostos e enfrentados pelos personagens de um filme. Isso acarreta em um comodismo por parte do espectador, que não precisa fazer muita coisa além de ficar em sua cadeira assistindo a um longa, sem realmente se importar em pensar para entender o que vê na tela.

O novo trabalho de Ridley Scott, intitulado “O Conselheiro do Crime”, é uma grande exceção a essa regra, sendo um desses filmes que busca justamente contar uma história sem grandes explicações, deixando para o público a tarefa de ligar os acontecimentos de forma lógica. Porém, a verdade é que por causa de uma extrema ausência de esclarecimentos, o longa acaba ficando sem nexo em sua maior parte.

A narrativa aqui segue um advogado (Michael Fassbender) que, por mais que pareça e seja um homem correto na maior parte do tempo, se envolve com um traficante de drogas. Após o problema do desaparecimento de um carregamento da mercadoria, ele percebe que o mundo do crime, liderado por pessoas gananciosas, é mais perigoso do que imaginava.

Atores de peso estão na produção. Brad Pitt, Penélope Cruz e Javier Bardem fazem bem o seu papel. Mas quem chama a atenção mesmo é Cameron Diaz, que aqui se distância da imagem de atriz de comédias românticas guardada na memória de muitos.

Ela interpreta a melhor personagem do filme, uma misteriosa mulher chamada Malkina. Basicamente ela é tudo aquilo que os homens do filme – em especial, os personagens de Fassbender e Bardem – imaginam que uma mulher possa ser: uma interesseira em busca de sexo e dinheiro. Mas ao mesmo tempo é mais do que isso, se mostrando extremamente inteligente e sedutora, uma verdadeira femme fatale, com Diaz conseguindo entrar nessa personagem e passar tal imagem de forma exemplar.

Já Fassbender, o protagonista do filme, e que conseguiu arrancar elogios da crítica em seu último trabalho com Scott pelo filme “Prometheus” no ano passado, aqui não chama a atenção. Na verdade ele faz bem tudo aqui que lhe é proposto a fazer, mas seu personagem sem carisma e pouco ativo na história acaba deixando-o apagado, algo que também acontece em partes por causa da já citada narrativa confusa.

O roteiro de Cormac McCarthy parece tão bagunçado, que os acontecimentos vistos em tela só vão fazer sentido lá pela metade da projeção. E nesse meio tempo, o protagonista fica inerte, totalmente sem ação, enquanto as coisas vão não param de acontecer – embora seja fato que, mesmo depois da história já ter engatilhado, tal personagem continue quase inativo.

A montagem pouco ajuda a resolver essa confusão. É verdade que ela consegue deixar algumas coisas implícitas a partir de analogias formadas pelos planos, mas há ainda uma boa parte da trama que permanece envolvida por uma sensação de caos.

O sexo é muito referenciado na película, mas tais alusões parecem estar lá apenas para dar um tom cômico ao longa, sem realmente acrescentar nada. O mesmo acontece com vários diálogos filosóficos, que seriam muito bons, mas no contexto exposto ficam parecendo didáticos demais para tal filme, que final acaba ficando com uma mensagem rasa de lição de aceitação do mundo ao seu redor.

Crítica: O Mordomo da Casa Branca

Texto originalmente escrito em 15 de outubro de 2013

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O filme “O Mordomo da Casa Branca” (The Butler) anda sendo vendido como o filme que fez o presidente Barack Obama chorar. Não é por menos, já que o diretor Lee Daniels cria um clima de leve melancolia e tensão durante toda a projeção à partir de uma história que trata da busca do povo negro norte-americano pelos seus direitos.

Inspirado em uma história real, o filme segue a trajetória de Cecil Gaines (Forest Whitaker), um negro que trabalhou durante anos como mordomo na casa branca, conhecendo vários presidentes, como Kennedy, Nixon, entre outros. Embora a trama comece nos anos 20, a maior parte se passa durante os anos 60, época de lutas do povo negro pela busca dos seus direitos cívis nos Estados Unidos.

Para isso, se mostra a relação de Cecil com seu filho mais velho, Louis (David Oyelowo), que esteve envolvido em vários protestos e grupos de negros durante o período. Essa essencial relação de pai e filho se une à montagem, de forma que o diretor consegue dividir o filme, hora mostrando Cecil em seu trabalho na casa branca, lugar de grande luxo, para depois focar em Louis, que passa por diversas situações no decorrer da narrativa.

A luta da população negra é muito bem representada na tela, e as ótimas atuações só reforçam o tom realista. Whitaker está magnífico no papel de Cecil.  Ele não se perde em nenhum momento e mantém uma ótima química com Oyelowo e com Oprah Winfrey, que interpreta Glória, a esposa de Cecil. Destaque para a cena do jantar em que Cecil briga com Louis e Glória entra no meio. O modo como os três a realizam é impecável, trazendo toda aquela emoção para o público. Os únicos que se perdem aqui são alguns atores coadjuvantes – não todos – mas que possuem papéis tão pequenos que não são capazes de apagar o brilho do filme.

Há uma crítica ao modo que os americanos brancos enxergam os negros, e como isso é retrato em toda a cultura do país. Nada mais justo, já que eles passaram por tanta coisa, poucas vezes tiveram a chance de serem ouvidos e atualmente se veem presos a estereótipos.

Dessa forma, Daniels quebra estes estereótipos e mostra os negros como eles realmente são: mais um povo que sofreu opressão daqueles que se julgam superiores. E ao fazer isso, ele consegue sim arrancar lágrimas de todo o publico.

Crítica: Rota de Fuga

Texto originalmente escrito em 7 de outubro de 2013

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De início, “Rota de Fuga” (Escape Plan) parece apenas um filme de ação que se utiliza da popularidade de seus astros Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger para arrancar dinheiro do público vidrado pelo gênero. Não que o filme não tenha essa intenção, mas claro, só de ter esses duas estrelas seria o suficiente para alcançar tal objetivo, sem a necessidade de se preocupar com uma boa história. Felizmente, não é esse o caso que se vê na tela.

O filme se inicia com Ray Breslin (Stallone) preso em uma penitenciária com um forte esquema de segurança. Poucos minutos depois, Breslin já conseguiu escapar do local, pois o mesmo na verdade é contrato para ir preso e fugir de locais de segurança máxima. Tal ação serve para revelar os problemas de segurança de alguns complexos. Porém, quando Breslin aceita um novo trabalho ele acaba caindo em um golpe. Preso em um local desconhecido, sem saber quem armou para ele, Breslin se junta a Roottmayer (Schwarzenegger) para que juntos eles bolem um plano de fuga daquela que é a prisão mais segura até então construída.

Há certa claustrofobia que permeia o filme assim que Breslin vai parar na sua nova prisão. Esse clima poderia ter sido mais bem aproveitado pelo diretor Mikael Hafstrom, que mesmo acertando na maior parte do longa, acaba por optar por planos abertos e panorâmicas que quebram tal efeito. Desse modo, a produção ganha ar de uma obra grandiosa, que é totalmente desnecessária.

O roteiro é bem desenvolvido. De início, porém, o espectador pode achar toda a história meio confusa e pensar que a mesma se baseia em uma série de coincidências e ações sem nenhuma explicação. Os fatos, entretanto, acabam por se resolver sozinho e até o filme da projeção a maior parte das dúvidas já foram resolvidas.

A prisão de segurança máxima é bem construída e parece sair de uma trama de ficção científica. Logo no começo se consegue ter uma ideia da alta tecnologia da mesma e da periculosidade que é tentar fugir daquele lugar, que é atrelado aos vilões bem característicos de filmes desse gênero que povoam o local.

No quesito atuação, Schwarzenegger acaba por superar Stallone. Mesmo tendo menos tempo de tela e não fazer nada demais, ele possui mais carisma que seu parceiro que parece utilizar a mesma expressão séria em todas as cenas, com poucas alterações nos momentos de maior sofrimento de seu personagem.

Não há um alívio cômico na história, mas a mesma nem precisa. Seu grande forte está na tensão que prende o espectador do início ao fim e que tornam “Rota de Fuga” uma boa trama para se assistir no cinema.

Crítica: Aposta Máxima

Texto originalmente escrito em 30 de setembro de 2013

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Um bom elenco pode não salvar um filme, mas poder ajudar – e muito – algumas produções medianas. É mais ou menos esse o caso de “Aposta Máxima” (Runner Runner), filme que tem Justin Timberlake e Ben Affleck, respectivamente como protagonista e antagonista.

Cheio de clichês, o roteiro de Brian Koppelman e David Levien não traz nenhuma novidade no gênero suspense de ação. O começo acaba por dar uma sensação de ter uma história que não anda justamente por isso, uma vez que quem já viu outros thrillers está acostumado com esse tipo de trama – e com uma narrativa mais ágil.

A história segue o jovem Richie Furst (Timberlake), que ao fazer apostas em um site na internet, descobre que o mesmo vem cometendo várias fraudes. Ele vai de encontro com Ivan Block (Affleck), um rico empresário dono do site que o contrata como empregado. As coisas, porém, ficam perigosas quando Richie vai descobrindo mais e mais podres do patrão, ao mesmo tempo em que ele começa ter uma relação com Rebecca (Gemma Arterton), ajudante de Block.

É fato que Timberlake ainda não chega o nível dos melhores atores da indústria cinematográfica, mas ele se esforça, e pelo menos aqui, consegue trazer bastante verdade em sua atuação, superando até mesmo Affleck. A química com Arterton, por sua vez, também é boa, embora a relação dos personagens dos dois pareça um pouco superficial no começo.

A direção e a fotografia não falha na hora da montagem e traz alguns planos bem interessantes durante a projeção. Infelizmente, nem isso é o suficiente para segurar o filme, mesmo que a narrativa vá melhorando.

De fato, quando o suspense finalmente toma conta total do filme, tudo fica mais interessante, e mesmo que não seja difícil prever os próximos passos que Richie irá tomar para se livrar seu seus problemas, já se tem certa afeição pelo personagem.

A imagem que se passa sobre o submundo das apostas pouco se diferencia daquilo que já foi mostrado no cinema. Na verdade, muita coisa do que aparece aqui lembra o filme “Cassino” de 1995.

Não se deve esperar grande coisa de “Aposta Máxima”. Talvez, para aqueles que são fãs ou estão curiosos em ver a atuação de Timberlake, o filme seja um tanto quanto interessante. Espera-se, porém, que o ator invista cadê vez mais em uma diversidade de filmes, mostrando todo o seu potencial – que ele já mostrou ter e que agora está na hora de aprimorar com tramas mais complexas.

Crítica: Dragon Ball Z – A Batalha dos Deuses

Texto originalmente escrito em 27 de setembro de 2013

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Inegável sucesso e com uma legião de fãs em todo mundo: Esse é o caso do anime e mangá “Dragon Ball” junto de sua continuação “Dragon Ball Z”, ambos criados pelo mangaká Akira Toriyama, que mesmo após 17 anos da exibição do último episódio da série na televisão japonesa, ainda permanece na mente de muitas pessoas, seja como lembrança de uma parte boa da infância e da adolescência, seja porque os fãs ainda não se desapegaram dos personagens – já que a Toei, dona da marca Dragon Ball, continua a lançar produtos licenciados da série, ano após ano.

Como um presente para os adoradores da obra, Toriyama marcou para 2013 o lançamento de um novo longa-metragem de Dragon Ball Z intitulado “Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses” (Dragon Ball Z: Battle of Gods). O enredo é basicamente o mesmo de qualquer temporada da série Z: Um vilão aparece ameaçando destruir a Terra e Son Goku, junto de seus aliados, decidem impedir o malfeitor. O vilão no caso é Birus (Bills na dublagem brasileira), uma divindade da destruição que procura um inimigo a sua altura.

A história está cheia de referências a fatos e personagens marcantes de Dragon Ball. É algo que alegrará os fãs, já que se trata de um filme para eles e dificilmente alguém que nunca teve contato com a obra se deslocará até o cinema. Também se procura dar espaço para cada personagem importante na trama do mangá/anime, mesmo que se trate de coadjuvantes. Porém, no meio de todas essas referências e personagens a história se perde, chegando a se arrastar na metade da projeção.

O tom de humor que marcava a série animada aqui encontra espaço nas ações dos personagens antagonistas como Birus e Uis, que possuem uma paixão especial pela culinária terráquea – de fato, será o problema da falta de pudim que desencadeará a irá de Birus sobre os heróis da história. Pilaf, vilão atrapalhado da série original, também aparece, mas a necessidade de sua participação na história é questionável.

A evolução do traço da animação é notável, e com a ferramenta do CGI a direção pode ousar mais em cenas de batalhas aéreas. Mesmo assim, a estética não se compara a de outras animações, sejam elas japonesas ou não. E falando em cenas de batalhas – o que talvez é a grande atração da série Z, e que faz com que boa parte do público, principalmente o masculino, tenha tamanha adoração por Dragon Ball – aqui elas são bem escassas, com boa parte do filme sendo focado na comédia, decepcionando alguns fãs.

A versão brasileira conta ainda com a volta de boa parte do dubladores da série original. Dessa forma, ninguém poderá reclamar nesse quesito, já que as vozes marcantes de Goku, Vegeta e outros, continuam as mesmas. Acontece, porém, que a tradução deixa um pouco a desejar, fazendo com que algumas falas pareçam meio desconexas.

Complexidade nunca foi o forte na trama do anime, e o mesmo acontece no filme, mas o final da história pode surpreender, de um modo positivo ou não, fazendo com que assim, o filme como um todo traga discussões por parte dos fãs: alguns vão odiar, e outros vão adorar. Mas de qualquer forma, dificilmente o filme não será um sucesso pela popularidade que a obra tem aqui no Brasil.

Crítica: A Família

Texto originalmente escrito em 20 de setembro de 2013

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Como diretor de filmes de ação, Luc Besson sabe na maioria das vezes “jogar” com as marcas do gênero e atrela-las a outros estilos de filmes. Em “A Família” (The Family), ele usa da já conhecida fórmula de “ação + comédia” junto de uma história digna de um longa de Martin Scorsese (e não digo isso por pura coincidência, pois na verdade Scorsese é um dos produtores).

A família do título é composta pelo pai Giovanni (Robert DeNiro), a mãe Maggie (Michelle Pfeiffer), a filha mais velha Belle (Diana Agron), o filho caçula Warren (John D’Leo) e o cachorro Malevita (que dá nome ao filme em outras línguas). Eles acabaram de se mudar para uma cidadezinha no interior da Normandia e não parecem ser muito diferentes de qualquer outra família de americanos que vai para habitar o país, a não ser por um detalhe: Giovanni é um ex-mafioso que está sobre a proteção do FBI após ter dedurado seus comparsas para o Estado.

Com um temperamento curto, Giovanni não deixa de arranjar problemas, assim como sua família. Cada um vai mostrando, ao longo do filme, como são capazes de agir por impulso ou por vingança. Maggie, logo que chega a cidade, explode um supermercado, enquanto Belle esbofeteia um garoto que a importunava e logo depois, uma menina que lhe roubou o estojo. Warren é mais cuidadoso, e vai traçando um plano para se vingar de um bully.

Com isso, o filme vai ganhando características de humor negro, seu principal ponto positivo. O longa não tenta ser puritano e mostrar uma redenção dos personagens: é uma família de pessoas violentas, e elas serão assim para sempre, e justamente por isso é fácil rir com suas ações.

O filme também brinca com sua semelhança com outros filmes sobre máfia. A trama por si só já parece uma continuação de “Os Bons Companheiros” (The Goodfellas) de Scorsese, filme referenciado em uma das melhores cenas do longa, e que também tem DeNiro no elenco. Na verdade, o próprio livro do qual o filme se baseia traz essa noção (ele se chama Badfellas).

Acontece, porém, que nem tudo são risadas. Giovanni é procura por toda a máfia italiana, que dá 20 mil dólares para quem conseguir mata-lo. Essa subtrama, que vai se desenrolar no clímax de uma maneira um tanto quanto surreal, é chata e previsível. Para a alegria do filme, entretanto, isso não estraga em nada a trama como um todo.

É um filme feito muito mais para a diversão, do que para ação. O drama familiar também não é o forte, e o roteiro não deixa de cair em alguns clichês, mas nada demais e tudo tende a terminar de forma agradável (pelo menos para o público).

Crítica: Lovelace

Texto originalmente escrito em 13 de setembro de 2013

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Quando se trata do cinema pornô, o filme “Garganta Profunda” é o grande marco. Ele não só transformou os filmes pornográficos em um meio de entretenimento comum, como também abriu espaço para o uso do sexo no cinema e trouxe fama à sua atriz protagonista: Linda Lovelace.

Em “Lovelace”, filme que leva às telas a história da atriz – aqui interpretada pela excelente Amanda Seyfried – e toda a sua trajetória por trás das câmeras, tem-se uma visão mais profunda da vida dessa personagem, que demonstra que nem sempre a fama traz consigo felicidade.

A trama mostra desde quando Linda ainda era uma jovem de 21 anos, que se casou com o repressivo Chuck Traynor (Peter Sarsgaard), até o momento em que a mesma abandona para sempre a indústria pornográfica, através de um roteiro  bem equilibrado que vai e volta no tempo. Inicialmente há uma a visão mais “romântica” da vida de Linda, fazendo tudo lembrar muito mais uma comédia do que um drama, para depois se conhecer melhor seus problemas pessoais e, a partir daí, entrar numa história muito mais densa.

Se Linda, em sua época, era mostrada como o símbolo de uma revolução sexual para os membros dos dois sexos, aqui ela é uma mulher real, e que sofre dos mesmos abusos que várias outras mulheres sofreram e ainda sofrem nas mãos dos seus companheiros.

Porém, nada aqui é muito ousado. As cenas de violência sexual e as de se sexo procuram esconder tudo aquilo que há de mais pesado, o que deixa o filme menos impactante. Os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman parecem não querer se arriscar, mas não percebem que, no cinema atual, para se conseguir trazer uma mensagem de choque, é justamente disse que se precisa, uma vez que os filmes atuais estão acostumados com um teor de violência e sexo maior do que alguns anos atrás.

Mas o filme entrega uma boa narrativa e um elenco de ponta, com ênfase na atuação de Sharon Stone no papel da mãe de Linda, que mesmo com um papel de pouco destaque, rouba a cena sempre que aparece.

“Lovelace” é um filme para se entender o desenvolvimento do mercado pornográfico e a vida da protagonista, que é de fato digna de um longa-metragem.

Crítica: As Bem Armadas

Texto originalmente escrito em 12 de setembro de 2013

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O diretor Paul Feig sabe como guiar uma história de comédia, principalmente se ela for protagonizada por uma mulher. Ele demonstra isso desde época que trabalhava na TV, em séries como “Weeds” e “Nurse Jackie”, e com “Missão Madrinha de Casamento”, lançado em 2011, não foi diferente. Em seu novo trabalho nos cinemas, Feig utiliza de dois grandes talentos como atrizes principais: a carismática Sandra Bullock e a divertidíssima Melissa McCarthy, com quem já havia trabalhado antes.

O filme em questão é “As Bem Armadas” (The Heat), que busca comicidade numa trama de suspense-policial focada em Ashburn (Bullock) e Mullins (McCarthy), respectivamente, uma agente do FBI e uma policial de Boston, que se vêem obrigadas a trabalhar juntas para conseguir prender um misterioso chefe do tráfico.

Logo de início percebe-se as diferenças marcantes entre as duas personagens: Ashburn é toda certinha, enquanto Mullins tem problemas para se controlar no momento da investigação. Embora pareça totalmente impossível que essa dupla consiga manter uma parceria, o filme consegue envolver os problemas pessoais de cada uma de forma que fica perfeitamente crível na relação de amizade entre as duas – mesmo que isso acarrete em variadas piadas ao longo do filme, que tirarão algumas boas risadas do público – impossível não rir com o momento em que Mullins tenta fazer com que Ashburn consiga dar em cima de um suspeito para grampear o telefone do mesmo.

E comédia é realmente o forte do filme. Embora tenha um título que pareça se referir a um filme de ação, não é nesse elemento que o filme encontra seu trunfo. Os momentos com perseguições ou explosões passam rápido, a fim de favorecer a comicidade, e não há um grande esforço da direção em procurar causar aquela sensação de adrenalina com planos rápidos vistas em filme deste tipo, trazendo uma montagem com planos mais lentos – no nível do possível para uma produção como esta – que se preocupada em exibir detalhes importantes para público

Mesmo assim, é louvável da parte de Feig apostar em uma dupla de mulheres para comandar esse tipo de filme, demonstrando que as atrizes tem total capacidade de fazer algo no caminho do humor que foge das já taxadas comédias românticas, e “As Bem Armadas” ainda tem a capacidade de fazer com que o espectador se prenda mais à história conforme o filme vai passando, tornando essa experiência divertida ainda melhor.

Crítica: Os Estagiários

Texto originalmente escrito em 20 de agosto de 2013

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Piadas sobre estagiários são comuns, principalmente na internet, onde elas ganharam tanta força, que praticamente criaram um estilo próprio. Mas se o leitor pensa que o filme “Os Estagiários” (The Internship) iria levar para a tela do cinema essas piadas, está enganado. A trama na verdade foca na relação entre uma dupla de estagiários acima dos 30 anos com os mais jovens de 21, deixando de lado as situações e problemas sofridos por um estagiário durante o seu período de permanência em uma empresa.

Aqui, Vince Vaughn (que também é um dos roteiristas) e Owen Wilson interpretam Billy e Nick, respectivamente, dois vendedores de relógios que acabaram de perder seu emprego. Billy então encontra uma oportunidade de estágio no Google – ele pesquisa Google no próprio Google – e chama Nick para juntos fazerem uma entrevista e conseguirem a oportunidade de se tornarem empregados do famoso site de busca.

Como o filme parece não ver a possibilidade de conseguir conduzir uma história focada apenas nos dois estagiários, ele cria uma espécie de competição à la “Jogos Vorazes” – na opinião dos próprios personagens – o que faz com que Billy e Nick tenham que interagir com uma grupo mais jovem. É ai que abre-se espaço para uma misto de piadas sobre a cultura nerd atual – por parte dos jovens – e filmes dos anos 80 – essa feitas por Billy e Nick, numa tentativa de tentar agradar um público mais novo – aqueles que provavelmente são os verdadeiros estagiários que irão ao cinema – e um mais velho. Tal estratégia acaba por fazer o filme se perde, já que o mesmo não sabe se é uma comédia para adultos ou um longa para os jovens geeks.

Não que isso estrague a diversão, mas acaba tornando tudo um pouco forçado, assim como a necessidade de haver dois protagonistas na história. Billy e Nick são como um só, sofrem praticamente das mesmas dificuldades – e mesmo seus problemas pessoais poderiam ser condensados em apenas um personagem. Seria muito melhor para o filme se fosse apenas um estagiário mais velho, pois, desse modo, o mesmo poderia trabalhar melhor sua relação com os mais novos – que acaba ficando bem fraca.

A história de “Os Estagiários” acaba por não se sustentar sozinha, fazendo com que, os momentos sem piadas, e que deveriam ser usados para a evolução dos personagens, não agradem nem prendam a atenção. Há felizmente os carismáticos Vaughn e Wilson, mas só eles não fazem com que o filme fique menos cansativo. Ainda assim, pode ser agradável para aqueles que não esperam nada de genial.