Crítica: Frozen – Uma Aventura Congelante

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A Disney vem se habituando muito bem ao novo mercado de animação. Depois de passar por uma fase negra durante a metade da década passada, o estúdio começou a apostar nas animações CGI. Sofreu alguns deslizes, mas em 2010 conseguiu o seu primeiro grande sucesso no novo formato, com o mesmo se repetindo no ano que passou. “Frozen – Uma Aventura Congelante” (Frozen), que está programado para chegar no início de 2014, retorna com uma adaptação de contos de fada musical – um reflexo dos “tempos dourados” do estúdio do Mickey nos dias de hoje, porém, para infelicidade de alguns, sem ser em uma animação em 2D.

A história é centrada nas princesas irmãs Elsa (Idina Menzel) e Anna (voz de Kristen Bell). A primeira nasceu com poderes gélidos, os quais ela mesma não controla. Durante sua coroação, Elsa acaba condenando todo o reino de Arendelle a um inverno eterno e se vê obrigada a fugir para conter as represarias da população. Somente Anna confia na inocência da irmã, iniciando uma jornada além das terras de Arendelle para encontra-la.

Animações de contos de fada já não chamam mais a atenção do grande público como antigamente. Por isto mesmo a roteirista (e também co-diretora) Jennifer Lee resolve dar um enfoque diferente a história e traz algumas reviravoltas. Não se trata mais de um romance entre um príncipe e uma princesa – ainda que não se tenha desistido completamente de formar casais em seus filmes – mas sim de uma trama sobre a fraternidade e as relações entre irmãs.

Notável também perceber que Elsa é a versão oposta da maioria das vilãs dos contos de fada: ela é uma feiticeira sim, que põem em perigo um grupo de pessoas e até mesmo a protagonista, porém, ela não é má, fazendo o possível para evitar machucar as pessoas com o seu irreprimível poder. Do modo semelhante, Anna também não é uma princesa comum, sendo mais cômica que o estereótipo imaginado para esse tipo de personagem, e agindo de forma mais natural que demonstra que até uma heroína tem defeitos – em uma das primeiras cenas em que ela aparece como adulta, ela está com os cabelos todos desarrumados, e logo em seguida, enquanto canta, faz uma piada com gases.

A qualidade da animação está exuberante. Incrível ver as cenas de gelo e neve, que flutuam pela sala do cinema com o 3D. Tudo fica muito belo, e as sequências em que Elsa constrói seu castelo de gelo e a do início do filme são as melhores nesse quesito. Deve-se dizer também que os diretores souberam utilizar muito bem a câmera no longa: ela voa pela tela em planos abertos, se aproxima de coisas nos momentos necessários e deixa que o espectador veja tudo o que se desenrola nitidamente – sem aqueles borrões acidentais que se vê em algumas produções e que chegam a incomodar a visão.

Os números musicais também são ótimos. Mesmo que algumas pessoas reclamem, eles são parte da Disney, e a mesma parece não estar disposta a se esquecer deles – os fãs agradecem a isso. A adaptação dessas mesmas músicas para o português também está boa. Há um probleminha aqui e ali, com frases que parecem que ficaram inacabadas, mas no geral está tudo muito bom. Pode-se dizer o mesmo da dublagem, que conta ainda com Fábio Porchat no papel de Olaf, o boneco de neve, típico personagem cômico de animação – em um dos poucos casos em que um famoso dubla uma animação sem ficar estranho.

O filme só peca por reciclar referências de outra animação da Disney: “Enrolados”. Percebe-se que toda a parte visual de “Frozen” é bem semelhante ao do longa de 2010 (como os cenários e o design dos personagens) que tinha o quadro “O Balanço” de Jean-Honoré Fragonard como referência estilística. Mas o estúdio e os diretores do filme parecem não ligar para isso. Tanto que o quadro citado aparece em grande destaque durante uma cena. Outra semelhança está no fato de tanto a rena deste filme, quanto o cavalo de “Enrolados” agirem como cachorros. Isso pode ser uma espécie de marca registrada para animais quadrupedes em animação, mas é difícil não fazer a associação quando se usa tal artificio em dois filmes em menos de cinco anos. Pelo menos, no que se trata do psicológico, a rena Sven é bem mais bem humorada e carinhosa que o cavalo que a antecedeu, e por vezes age como consciência de Kristoff, principal personagem masculino da trama.

Com a capacidade de se tornar um dos maiores sucessos do estúdio, superando os seus antecessores dessa década, “Frozen” tem uma história bem contada – ainda que no típico estilo Disney – ótimas piadas e personagens carismáticos. Provavelmente, daqui alguns anos, seja comum ver algumas pessoas referenciarem este como mais um “clássico da Disney”.

Por fim, uma breve nota sobre o curta “Hora de Viajar” (Get a Horse) que antecede “Frozen”: o curta é divertido, com aquele humor pastelão característico das animações antigas, e usufrui muito bem do 2D que se alterna com o CGI, criando momento divertidos. A história é simples, mas ainda assim deve agradar adultos e crianças.

Crítica: O Hobbit – A Desolação de Smaug

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Bilbo, Gandalf e os anões estão de volta aos cinemas em “O Hobbit: A Desolação de Smaug” (The Hobbit: The Desolation of Smaug), segunda parte da adaptação da obra de Tolkien idealizada por Peter Jackson. Aqui o grupo liderado por Thorin continua sua jornada até Erebor, antigo lar dos anões que está atualmente sendo habitado pelo dragão Smaug.

Se o primeiro filme era um pouco arrastado, essa continuação tem como principal ponto positivo a agilidade no desenvolvimento da trama principal. Porém, isto não quer dizer que sub-tramas desnecessárias e maçantes tenham sido deixadas de lado. Estre elas está a história do triângulo amoroso formado por Legolas, Tauriel e Kili. Não há justificativa para esse romance, uma vez que nem mesmo Tauriel chega a ser uma personagem criada por Tolkien. Ela foi criada para o filme possuir uma presença feminina forte, entretanto, se era mesmo essa intenção dos roteiristas, a elfa poderia muito bem apenas ser a forte capitã da guarda dos elfos da floresta. Acaba que, permitindo-me fazer uma comparação, a relação dela com o anão Kili beira o superficial e sem química quando nos lembramos do modo como foi construído o relacionamento de Aragorn e Arwen em “O Senhor dos Anéis”.

Do mesmo modo, a história de Bard (um dos habitantes da Cidade do Lago e personagem importante para o desenvolvimento da narrativa) que tem uma rixa com o líder do local, poderia ter sido mais diluída – mesmo no livro, ela não chega a ser aprofundada. Mas claro, os produtores optaram por dividir o livro em três filmes (não é preciso nem dizer que foram por motivos financeiros), então cada vez mais elementos têm de ser inseridos no roteiro.

Por sorte, nada disso apaga o brilho do filme, que está cheio de acertos. A começar pelas cenas de ação magistralmente dirigidas por Jackson. O diretor se aproveita das mais sofisticadas ferramentas de efeitos visuais e de todas as possibilidades que a câmera tem de se locomover – filmando em cima, em baixo, de todos os lados e com planos-sequência – para criar seguimentos charmosos e de tirar o fôlego. Pode-se citar vários exemplos nesse quesito: a luta de Bilbo com as aranhas, a fuga dos anões dentro dos barris, e principalmente o clímax. De fato, alguns deles chegam a serem longos demais, mas nada muito enfadonho.

O uso do 3D aqui é justificado pela forma como Jackson trabalha a construção da imagem: são planos mais abertos – principalmente por ter uma variedade imensa de paisagens – e com objetos que “voam” fora da tela, sem que tudo pareça forçado como na maioria dos filmes.

Há uma maior tensão neste longa se comparado com o primeiro, o que prende o olhar do espectador em todos os momentos do filme. Justamente por isso, quando o diretor tenta dar um toque mais cômico ou uma leveza a narrativa, as coisas não caem muito bem – a exceção fica por conta do divertido Bombur, que infelizmente aparece pouco.

Superior ao seu antecessor, “O Hobbit: A Desolação de Smaug” tem os elementos essenciais para agradar a legião de fãs de Tolkien. Além disso, ele tem um colossal Smaug, e acreditem, ele é tão grande que somente Bilbo consegue expressar bem o tamanho da tal criatura quando diz que as histórias contadas a ele não faziam jus à grandiosidade do dragão.

Resta apenas agora esperar pela terceira e última parte de “O Hobbit”, que promete ser épica.

Crítica: Um Time Show de Bola

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Alguns diretores conseguem se destacar fazendo os mais diversos gêneros de filmes. O argentino Juan José Campanella é um desses. Ele já se aventurou por muitos estilos, tendo inclusive dirigido alguns episódios de séries de tv americanas bem famosas, como “30 Rock” e “House”, e agora faz sua estreia na animação com “Um Time Show de Bola” (Metegol), que conta a história de Amadeo, um jovem apaixonado pelo seu jogo de pebolim.

Um dia a cidade de Amadeo é tomada por Colosso, um antigo rival do rapaz, restando como sua única saída, enfrentar o vilão em uma partida de futebol. Para isso, ele vai contar com a ajuda de Capi e todos os jogadores do tabuleiro de pebolim, que ganham vida quando Amadeo está com problemas.

Para a criação do filme, Campanella contou com um grupo de animadores que incluíam até mesmo pessoas mais experientes que trabalharam na Pixar. O resultado é uma animação bem fluída e visualmente bonita, embora ainda não tenha chegado ao nível técnico das animações norte-americanas, principalmente no que se trata de pequenos detalhes como roupas ou cabelos.

Não que isso seja um grande problema, na verdade, muitas animações atuais não possuem a qualidade técnica desse filme. Campanella sabe utilizar das técnicas da animação, criando planos sequências incríveis durante os jogos de pebolim – e que ficam ainda mais divertidos com o 3Dm – e ótimas piadas que só poderiam ser executadas em um filme como este. O diretor só fica um pouco preso na hora de utilizar simples passagens de campo e contra-campo, que lembram os de um filme live-action desnecessariamente, uma vez que o CGI poderia resolver isto de outra forma.

Já a história possui seus altos e baixos. O protagonista Amadeo chega a perder espaço quando os jogadores do pebolim despertam. Eles dominam boa parte do filme com o seu carisma e suas boas piadas que referenciam gêneros de sucesso norte-americanos – como o western, no momento em que Beto, um dos jogadores, monta em cima de uma ratazana – jogando os personagens “humanos” para escanteio na narrativa. De certa forma, quando o filme volta a centrar em Amadeo e seus amigos, eles parecem sem vida e sem determinação quando comparados aos divertidos homenzinhos de metal.

Além disso, é notável a falta de propósito do próprio Amadeo. Ele não tem um sentido na vida a não ser bancar o herói perto de Laura, seu interesse romântico. Não que isso seja de todo ruim, no início é até aceitável, porém, parece que Amadeo não possui um amor próprio, com todo o seu afeto voltado para uma única pessoa de forma obsessiva, já que ao mesmo tempo em que ama Laura, ele não aceita de que ela quer crescer ao sair da cidade. É como se ele evoluísse muito pouco com a história. E Laura também não é o melhor exemplo de personagem: ela parece estar lá apenas para servir de objetivo de desejo do protagonista e do vilão. Esse foco no romance é desnecessário, principalmente tendo em vista e mensagem que o filme passa. É daí que Capi e seus companheiros de pebolim tiram a maior parte de sua força, já que estão competindo a atenção do público com um grupo desinteressante.

Mas isso não impede que essa seja uma ótima animação. Além disso, o desfecho da trama é muito bom e plausível, fugindo dos clichês mais comuns das animações e trazem uma bela lição às crianças e aos adultos. Um verdadeiro gol por parte de Campanella.

Crítica: Última Viagem a Vegas

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É difícil assistir a “Última Viagem a Vegas” (Last Vegas) e não se lembrar do primeiro “Se Beber Não Case”. O enredo de início é praticamente o mesmo do filme de 2009: um grupo de quatro amigos vai até Las Vegas comemorar a despedida de solteiro de um deles, com a diferença de que aqui os protagonistas já chegaram à melhor idade.

Robert De Niro, Morgan Freeman e Kevin Kline interpretam respectivamente Paddy, Archie e Sam, amigos desde a infância de Billy, papel de Michael Douglas, o noivo da trama. Durante a despedida de Billy, eles tentam provar para si mesmos que ainda podem aproveitar a vida, e ao mesmo tempo reconstruir o laço de amizade que os unia tempos atrás e que se perdeu pelos anos.

Apesar de serem grandes nomes da indústria, a química entre os quatro atores está bem mista. Freeman e Kline estão ótimos, se unindo para formar uma boa dupla e conseguindo roubar a cena com as melhores saídas cômicas. Já Douglas e De Niro, apesar de todos os seus esforços, acabam não convencendo o espectador, pois eles se entregam a personagens de pouco carisma e se colocam em situações um tanto quanto constrangedoras e nem um pouco divertidas – como esquecer a sequência em que um homem de sunga fica se esfregando em De Niro?

Isso se dá em partes porque os personagens de ambos possuem tramas à parte que se embrulham em uma série de clichês e não trazem nenhuma surpresa. Não que o mesmo não ocorra com Freeman e Kline, mas acontece que com esses dois as coisas ficam mais naturais, enquanto De Niro e Douglas estão presos em um enredo altamente circular e sem graça. Aqui o filme sai muito prejudicado, pois é justamente o fato de um se apaixonar pela mulher do outro o ponto principalmente para o desenvolvimento da trama de amizade.

Detalhe que o roteiro, é claro, não deixa de fazer piadas com a terceira idade e seus problemas. Isso fica até legal, principalmente no início, quando o timing das tais piadas está muito bom (ele se perde do meio para o final, se confundido com as sequências mais dramáticas), mas estereotipa um pouco o público alvo do filme com seus exageros, de forma que algumas passagens poderiam ser evitadas.

Mas em partes, chega a ser um pouco duvidoso quem é realmente o público alvo desse filme. Trata-se de uma história com aparente apelo aos mais velhos, porém, o que se vê são várias referências à cultura pop atual, que se misturam um momento ou outro com músicas e celebridades da década de 80 – o que não faz sentido, pois os protagonistas teoricamente passaram pela sua juventude na década de 50, e seria muito mais concreto se o filme trouxesse muito mais elementos dessa época para a tela. Tem se assim há uma falha que pode fazer com que o longa não agrade nenhuma das duas partes: os mais velhos se sentirão incomodados, enquanto os mais jovens poderão não se interessar pela trama.

Acontece, entretanto, que “Última Viagem a Vegas” não é de todo mau. Ele tem suas falhas sim, mas pode ser uma comédia relaxante para aqueles que procuram algo mais despretensioso.