Crítica: O Menino e o Mundo

o menino e o mundo

Uma das vantagens da animação é que a mesma pode-se utilizar de recursos visuais sofisticados de maneira muita mais fácil e com um resultado mais natural do que em um filme live-action. Criar uma profusão de imagens coloridas ou trabalhar com colagens são técnicas cabíveis à animação, mas que pouco se vê sendo utilizadas nas produções voltadas para o grande público. Por isso, fica ao cargo de longas-metragens do circuito alternativo testar tais técnicas e inseri-las em uma história coesa, como é o caso do filme brasileiro “O Menino e o Mundo”.

Aqui se utiliza um artifício que simula aqueles desenhos simples feitos por crianças – mas que de simples não tem nada, pois é tudo muito primoroso e impecável. Tal escolha estética bate bem de frente com a proposta do filme: contar uma história pela ótica de um garotinho. No caso, o menino do título que, após ver o pai ir embora buscar um bom emprego, foge de sua casa e encontra um mundo totalmente diferente daquele com o qual era acostumado.

De início, parece um roteiro ingênuo, mas que vai ganhando força conforme a trama avança. O espectador é levado de uma paisagem bucólica e colorida, para o universo das grandes cidades, visualmente poluídas e cinzentas. E isso é feito aos poucos, graças à evolução da história que também utiliza de uma estratégia narrativa que, embora não cause grande surpresa, é bem trabalhada – para manter a integridade da história, não posso revelar do que se trata.

Tudo se une a uma crítica ácida sobre a sociedade moderna e os problemas de emprego sofridos por aqueles que trabalham nas indústrias do Brasil. Tendo a produção têxtil como cenário, o protagonista vai entendendo o modo de vida duro do trabalhador brasileiro e como o mesmo vem rapidamente sendo substituído por maquinários modernos, que fazem a suas tarefas com maior agilidade.

Como forma de escape e símbolo de esperança para o protagonista e para a população está a cultura e as manifestações populares, as quais aqui são representadas pela música. É a música que desde o início guia o filme com a trilha sonora, composta por uma bela composição, e que ganha vida em reproduções imagéticas coloridas, algumas concretas e outras totalmente abstratas.

As falas estão ausentes no filme. Tudo que um personagem diz para o outro é traduzido em um português invertido, de maneira que nunca se sabe o que está sendo dito. Isso acontece porque as ações são mais relevantes que a fala – embora o som mantenha o mesmo grau de importância que a imagem a partir da música.

Desse modo, o espectador deve sempre estar atento ao seu olhar, uma vez que nada será simplesmente explicado para ele. Uma reflexão é necessária para entender todo o contexto em que o filme se passa, assim como prestar atenção em pequenos detalhes como os olhos e as cores fazem grande diferença. Trata-se de um exercício bem fácil na verdade e que é pouco incomodo, pois se tem um filme realmente envolvente, capaz de deixar qualquer um vislumbrado não só pela sua trama, mas pela beleza de suas imagens.

Advertisements