Crítica: As Aventuras de Peabody e Sherman

peabody e sherman

Trazer um desenho animado educativo (mesmo que com alguns toques de humor), dos anos 60 e pouco conhecido para o contexto dos dias atuais e transformá-lo em um blockbuster familiar, à primeira vista parece ser um desafio e tanto. Porém a Dreamworks, confiante nas possibilidades trazidas pelo desenho “Peabody’s Improbable History”, se arriscou e deu origem ao filme “As Aventuras de Peabody e Sherman” (Mr. Peabody and Sherman).

O design dos personagens é praticamente o mesmo do programa de televisão, com algumas adaptações minúsculas aqui e ali, para se adequar aos padrões do século XXI – como o notável cabelo dos protagonistas, que ganharam topetes modernos. O enredo segue Sherman, um garoto inteligente, porém desastrado, e seu pai adotivo, o Sr. Peabody, o cão mais inteligente do mundo e criador de uma máquina do tempo denominada “Volta Atrás” (“WABAC” em inglês, que faz trocadilho com “Way Back”).

É a partir das viagens do tempo que todos os problemas do filme serão retirados, assim como também a maior parte das piadas da animação, desde daquelas já vistas e repetidas várias vezes em outros produtos audiovisuais – a referência à torre di Pisa que nem sempre foi inclinada, ou a esfinge que perde o nariz – até os trocadilhos feitos pelo cachorro protagonista, que são uma espécie de marca do personagem. É um humor que, entretanto, vai variando muito do realmente cômico, até o embaraçoso.

Como utilizar somente os dois personagens masculinos principais parece não fazer com que a aventura consiga engatar, e também para atrair mais a atenção do público feminino mais jovem, uma garotinha chamada Penny é criada para o longa. Ela é importante para dar sentido ao primeiro ponto de virada do roteiro, mas após isto, se torna uma personagem passiva e que realmente pouco importa para o resto da trama. Outro detalhe é o modo como ela e Sherman se relacionam, inicialmente focado na rivalidade, para logo depois virar um amor juvenil. É algo que não só é batido – desenhos como “Jimmy Neutron” e outros já fizeram isso – como mal resolvido – Sherman a odeia em uma cena, e poucos minutos depois começa a sentir ciúmes por ela. Se fosse mais natural, seria aceitável, mas a forma como essa amizade é colocada no filme faz tudo parecer um “déjà vu” e a torna forçada.

Um pouco melhor é o desenvolvimento do conflito passado por Peabody e Sherman.  Não há nada de novo no modo como o pai tenta impor sua autoridade perante o filho, a não ser o fato de que aqui se tem um cachorro assumindo a posição do primeiro, mas é possível sentir mais afinidade entre os dois do que no casalzinho de crianças. Ainda assim é notável como o diretor Rob Minkoff – conhecido por ter dirigido “O Rei Leão”, filme no qual também se utilizou da relação pai/filho – que volta após quase duas décadas filmando live-actions para o campo da animação, não consegue exprimir toda a emoção proposta pelo longa a partir dos seus protagonistas do mesmo modo como um dia fez com os dois leões do longa de 1994 (e acredite, ele tenta).

Mas se o filme parece um repetição de clichês e situações, ele tem a sorte de possuir uma trama que prende atenção do espectador, além de usufruir de uma animação de qualidade que flui rápida no que se diz respeito os movimentos dos personagens e os cortes das cenas. É basicamente o tipo de técnica utilizada para fazer com que o telespectador não perca seu interesse no filme, uma vez que está sempre em contato com uma impressão visual nova.

A versão brasileira se beneficia de um bom trabalho de tradução e dublagem. A voz do ator Alexandre Borges cai como uma luva para o personagem de Peabody, e ele se sai muito bem, parecendo de fato um dublador de veterano.

Esse é o tipo de filme que agradará as crianças e como elas podem entrar em contato com diversos fatos históricos importantes como a Revolução Francesa e A Guerra de Tróia, vários pais deverão ficar felizes. Ainda assim os “grandinhos” podem se incomodar de verem situações repetidas, algo que o filme poderia ter evitado buscando novos caminhos a fim de se tornar algo realmente inspirador, ao invés de se colocar num patamar mais simples.

Crítica: Namoro ou Liberdade?

namoro ou liberdade

Enquanto a maioria das comédias românticas foca no público feminino, “Namoro ou Liberdade?” (That Awkward Moment, ou Are We Officially Dating? que é como o título aparece em alguns países, inclusive na versão brasileira) toma o caminho oposto e busca entreter principalmente os homens.

A história gira em torno de três amigos: Jason (Zac Efron), Mikey (Michael B. Jordan) e Daniel (Miles Teller). Após a esposa de Mikey pedir o divórcio, os três resolvem fazer um acordo de que ficarão o maior tempo possível sem um relacionamento sério e irão aproveitar sua amizade. Logicamente não demora muito para que cada um comece a se envolver com um garota, o que coloca o acordo dos três, junto de suas percepções da vida, em cheque.

Logo de início percebe-se que o roteiro vai apelar para piadas e situações um tanto quanto machistas – como quando Jason e Daniel, que trabalham produzindo capas de livro, acreditam que mulheres irão comprar um livro só porque há uma imagem com sapatos – ou apelativas, das quais é preferível não exemplificar, e que nada tem de engraçado.

Para atrair a atenção das garotas, só mesmo a presença do galã Zac Efron, que vem cada vez mais se destacando como ator, e que aqui, se não consegue fazer rir – seu personagem, assim como o de B. Jordan, está focado demais no drama – pelo menos não faz feio em frente às câmeras. Entretanto, quem chama a atenção é Miles Teller, que está bem desenvolto e tem os melhores momentos e frases do filme.

Porém, mesmo o elenco expressivo não é o suficiente para salvar o filme. O fator piadas fracas estão longe de ser o maior problema. A trama pode até ser envolvente no começo, mas conforme a história progride, não só vai caindo em clichês – justamente aqueles dos quais o filme parece tentar fugir – como também desenvolve mal seus personagens, que são obrigados a agir de forma tão forçada que o roteiro não convence. Vale refletir também sobre os problemas técnicos, como a constante falta de foco da câmera, um erro um tanto quanto amador.

Como já foi dito, o filme apresenta um visão machista das mulheres, mas não só delas. Os homens também sofrem por terem que ser expostos a estereótipos, que trazem a impressão de que todo homem é apenas um bobalhão em busca de sexo e nenhum compromisso ou relacionamento sério e que, quando consegue se estabilizar, é necessário tomar cuidado com o que os amigos vão pensar, pois o namoro deve ser evitado pelo gênero masculino.

Por mais que seus bons atores tentem trazer algum charme ao filme, “Namoro ou Liberdade?” não possui brilho, e apresenta uma visão tão pouco original de ambos os sexos e das relações afetivas, que fica realmente difícil se afeiçoar ao longa.

Crítica: Tudo por Justiça

tudo por justiça

Há filmes que, por mais que possuam um roteiro cansativo e fraco, acabam por ter a sorte de atrair um bom elenco no qual se apoiar e se tornarem algo maior do que aquilo que lhes poderia ser previsto, como é o caso de “Tudo por Justiça” (Out of the Furnace), segundo filme do diretor Scott Cooper.

A história gira em torno de dois irmãos. Russel (Christian Bale) é um cara trabalhador, possui uma namorada, cuida do pai e por mais que não viva bem, sempre procura ajudar o irmão Rodney (Casey Affleck) com seus problemas financeiros. Rodney por sua vez é mais rebelde e busca outras maneiras de levar a vida.

Um dia Russel vai preso após um acidente, e assim que deixa a cadeia, descobre que o irmão está envolvido com lutas ilegais. Quando Rodney misteriosamente morre após uma luta, Russel decide ir atrás do assassino e fazer justiça com suas próprias mãos.

O desenvolvimento é lento, o que faz com que o longa fique enfadonho. Para ter uma ideia, a morte de Rodney, ponto chave do roteiro do filme, que teoricamente seria o ponto de virado do início da história, demora mais da metade da projeção para se concretizar, e para não dizer que a trama não sai do lugar, ela começa a desenvolver a relação de Russel e Rodney com outros personagens.

Acontece, entretanto, que algumas dessas passagens acabam por serem dispensáveis ao enredo principal. É o que acontece com o romance entre Russel e Lena (Zoe Saldana). Tudo que há entre os dois acaba assim que Russel vai para a cadeia, mas o roteiro insiste em tentar dar alguma importância a esse relacionamento morto e inconsistente. Não há nem mesmo uma rivalidade entre Russel e Wesley (Forest Whitaker), o novo namorado de Lena.

A direção também não ajuda no andamento. São vários planos dos personagens sem fala e sem ação, e que por sua vez pouco acrescentam à trama. Há tomadas interessantes na montagem da imagem, mas que se repetem tantas vezes que perdem sua faísca de criatividade.

O que acaba por chamar a atenção mesmo é a força vinda das atuações. Bale faz um Russel duro, que evidentemente passou por um inferno em vida e sabe valoriza-la. Casey Affleck, mesmo preso a um papel sem brilho, traz alguma vivacidade ao seu personagem e é apoiado pelos veteranos Woody Harrelson e Williem Dafoe, com quem contracena na maioria de suas cenas, e que mesmo em papéis coadjuvantes, não deixam de chamar a atenção.

O filme não chega a ser uma perda de tempo, na verdade, até se pode dizer que o longa é uma boa experiência, mas ainda assim fica a sensação de que ele poderia ser bem melhor se a trama não se perdesse tanto e soubesse utilizar melhor os atores premiados que tem em mãos.