Crítica: Rio 2

rio 2

É normal a qualquer brasileiro se admirar em ver o seu país e sua cultura sendo bem retratado em um filme de alcance mundial, como aconteceu com o primeiro “Rio”.  Dando ênfase na Cidade Maravilhosa e no carnaval, e com uma trilha sonora divertida e cheia de samba, a animação conseguiu agradar muito bem o público do Brasil.

“Rio 2” continua com essa mesma proposta, mas agora abrangendo as belezas da Amazônia, e mostrando rapidamente alguns pontos turísticos do Brasil durante uma divertida cena. Porém, ao contrário de seu predecessor, a nova aventura de Blu e Jade acaba por perde sua vivacidade em uma história cheia de excessos.

Tudo começa quando indícios de novas araras azuis são encontrados pelo ornitólogo Tulio e sua esposa Linda na Amazônia. Após os verem dando uma entrevista na televisão, Jade e Blu decidem deixar o Rio de Janeiro junto de seus três filhos para ir até Manaus investigar o caso. Claro, não demora muito para eles encontrarem a tribo de Araras Azuis na qual Jade nasceu. Ela volta então a se enturmar com antigos conhecidos, como seu pai Eduardo e seu ex-namorado Roberto, enquanto Blu sofre para se adaptar na floresta brasileira e tentar conseguir a aprovação das outras araras – em especial o pai de Jade.

A história do marido que tenta agradar ao sogro e se mostrar superior ao “ex” da esposa já é batida, e aqui não se encontrar nenhum traço de criatividade que faça com que o público se afeiçoe às situações do personagem. Além disto, há pouco espaço para o desenvolvimento da dinâmica entre Blu e Eduardo, e menos ainda para se conhecer a história de Roberto. Isso acontece principalmente graças à grande quantidade de personagens e subtramas do filme, que não se encaixam na narrativa principal, lhe dando um ritmo lento – por mais que o filme tenha apenas uma hora e meia.

O principal exemplo desse efeito é a volta (desnecessária) de Nigel, o vilão do primeiro filme. Primeiramente ele perde o papel de antagonista – que fica a cargo do líder de um grupo de madeireiros que pouco convence – mas ainda assim continua com planos de vingança contra Blu. Entretanto, nenhuma de suas ideias da certo, e quando a projeção termina, ele não interferiu de forma relevante em momento algum. Mesmo aparecendo acompanhado de dois novos personagens divertidos, uma rã tóxica apaixonada e um tamanduá esfomeado, é frustrante vê-lo em cena, pois se sabe que nada do que ele faça trará consequência alguma a Blu ou qualquer outro personagem.

As belíssimas canções que embalam a animação sofrem do mesmo problema. A música sempre foi vista como elemento essencial do país e ela continua a ser bem tratada pelo músico Carlinhos Brown e o diretor Carlos Saldanha. Isso olhando pelo ponto de vista das músicas fora da narrativa, pois elas não se encaixam no roteiro, e assim não o fazem andar.  Estão lá apenas como enfeite, uma acessório a mais, que se fosse retirado, pouco interferiria no produto como um todo. É como se “Rio 2” não fosse pensado como um musical, mas como um filme do se deve inserir músicas para chamar mais a atenção.

Mas apesar dos problemas na história que vão se acumulando (a tal ponto que no clímax todos eles são resolvidos de forma forçada), o filme encontra na parte visual seu aspecto mais positivo. Todos os cenários são realmente muito lindos e quase reais, assim como os personagens bem coloridos. Um verdadeiro deleite para os olhos, que parece só ser superado pela floresta amazônica real. Também há ótimas sequências visuais, como o momento em que as araras azuis dançam para Jade como em uma ritual indígena, ou na cena do jogo de futebol entre araras.

É louvável a preocupação do filme com o problema do desmatamento na floresta amazônica, mas como acaba por ser abordada de forma demasiadamente infantil, chega a lembrar uma dessas cartilhas distribuídas em escolas, com historinhas de pessoas que se preocupam com o meio-ambiente. Se o longa tivesse maior profundidade, poderia ter o mesmo impacto que “Avatar” teve em relação ao tema – a final, é inegável que o filme fará sucesso, tendo em vista o anterior.

Afinal, “Rio 2” parece só estar preocupado em mostrar as belezas brasileiras e os problemas ecológicos enfrentadas pelo país (e nesse ponto se aproxima bastante de seu antecessor), e não em trazer um conteúdo bem elaborado. É um daqueles filmes que poderão agradar as crianças menores, tendo em vista seu visual chamativo e bonito e suas divertidas canções capazes de prender a atenção, mas os adultos ficarão incomodados com sua lentidão, e apenas desejarão retomar as boas lembranças do primeiro filme.

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Crítica: 300 – A Ascensão do Império

300 ascensão

Embora se diga baseado na (ainda não lançada) graphic novel “Xerxes” de Frank Miller, que narra acontecimentos anteriores a “Os 300 de Esparta”, o novo “300: A Ascensão do Império” (300: Rise of an Empire) pouco tem prelúdio e quase nada do rei persa vivido por Rodrigo Santoro e que dá título à história em quadrinhos. Na verdade, a narrativa mostra uma trama paralela ao longa original, deixando de lado Leonidas e seus 300 homens, para focar no empenho do grego Temístocles (Sullivan Stapleton) em reunir as forças gregas para combater a invasão persa.

Misturando elementos históricos e fictícios – o embate entre os persas e os gregos do filme ficou conhecido nos livros como “A Batalha de Salamina” – a aventura pretende focar mais nas batalhas aquáticas, do que nas lutas em terra firme. E isso é uma alegria para aqueles que gostam de ação, pois o filme tem muito mais disso a mostrar do que história para contar.

São várias e várias sequências de brigas envolvendo espadas, arcos e flechas, e cheias de performances em slow-motion, que trazem certa sensação de dramaticidade pouco eficaz. É tanta luta que chega a cansar, e embora bem coordenadas, não é difícil se perder no meio dessas cenas, pois uma hora ou outra, todos os envolvidos parecem ser a mesma pessoa, já que possuem tipo físico idêntico e as mesmas roupas, sem nenhum elemento que os diferenciem no meio da matança.

É um filme muito carregado de efeitos visuais. Todos os cenários são construídos assim, o que acaba tornando tudo extremamente artificial, mesmo que bem acabado. A iluminação muito forte e irritante também não ajuda. É o reino absoluto do CGI e do excesso de poeira – porque parece que poeira falsa flutuando na tela em praticamente todas as cenas vai fazer o cenário parecer mais real – cheio de sangue inverossímil em computação gráfica que voa na direção do espectador por causa do 3D.

Enquanto as lutas chamam bastante atenção, a história em si não tem nada de maravilhoso. Nem um dos personagens tem profundidade ou são realmente marcantes, sendo que o roteiro chega até mesmo esquecer-se de alguns deles conforme a narrativa progride – como a trama do pai e do filho, que fica sem uma conclusão real. Quem se salva são o protagonista Temístocles e a vilã Artemísia (Eva Green), que aliás estão muito bem interpretados. Detalhe para a essa última personagem que chama bastante a atenção por se mostrar como uma mulher que consegue manter o comando diante de vários homens. Embora o filme tenha Lena Hedley reprisando o papel de Rainha Gorgo, é mesmo a personagem de Green quem domina o filme. Ela é de longe a mais carismática – apesar de protagonizar algumas cenas constrangedoras, como quando beija uma cabeça decepada – além de um alívio feminino em meio a um universo cheio de testosterona.

Se o filme peca pela narrativa, ele pelos menos entrega aquilo do qual se propôs a fazer: entretenimento barato em forma de ação sem limites, com um 3D eficaz na hora de fazer sangue, cabeças e outros membros saírem para fora da tela. Basicamente o tipo de filme que muitos irão odiar, mas que vai encontrar seu público, uma vez que ainda há quem esteja mais interessado em pancadaria ao invés de uma produção que consiga mesclar uma boa história com os elementos de ação.

Crítica: Tinker Bell – Fadas e Piratas

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Na busca de se aproveitar da grande variedade de personagens famosos que possui, a Disney já criou inúmeras franquias das quais as mais conhecidas são as com princesas, com vilões e a com as fadas. Esta última protagonizada pela personagem Tinker Bell, ou Sininho, que possui uma série de filmes produzidos pela Disneytoon Studios – um estúdio de animação que cuida de produções menores e spin-offs, enquanto o Walt Disney Animation fica com os grandes lançamentos.

Antes previsto só quatro longas relacionados às estações do ano, as aventuras da fadinha na Terra do Nunca agora chegam a sua quinta produção intitulada “Tinker Bell: Fadas e Piratas” (The Pirate Fairy). Se você não viu os filmes anteriores, não tem problema, há varias referências às tramas predecessoras, feita de forma didática para o espectador não familiarizado com as heroínas do Refúgio das Fadas.

Nesse novo capítulo, a história se inicia mostrando a vida da jovem fada Zarina, uma guardiã do “pozinho mágico”, destemida e cheia de curiosidade. Certo dia ela comete um erro e é “despedida” de seu cargo, decidindo deixar o Refúgio das fadas em seguida. Tempos mais tarde ela retorna e rouba o poderoso “pozinho azul” e põe todas as fadas para dormir, com exceção de Tinker Bell e seu grupo, que agora tem de encontrar Zarina e recuperar o “pozinho azul”.

A partir daqui o filme toca em um ponto que está no cerne da mitologia das fadas: os dons de cada uma delas. Em certo momento, “Tink” e suas amigas têm seus dons trocados e cada uma deve aprender com lidar com o seu novo tipo de “poder”, algo semelhante ao que acontece no primeiro filme da franquia, que é todo focado na ideia de Tinker Bell procurando seu dom.

Mas não é só de reciclar as ideias antigas que o filme sobrevive, já que Zarina está aqui justamente para dar um novo gás à trama. Junto dela surgem os piratas, que trazem ao filme a oportunidade de inserir uma figura já conhecida dos livros do Peter Pan: o Capitão Gancho, marcando a segunda vez em que essa série, tida como prelúdio do filme de 1953, traz um personagem já visto pelo público – a primeira foi com a rápida aparição de Wendy no longa original.

Junto com Gancho, várias outras referências ao clássico da Disney vão surgindo, e é justamente em procurar essas referências que os adultos vão se divertir, pois “Tinker Bell” ainda é um filme voltado muito mais para o público infantil, do que para a família toda. É uma história simples, mas agradável, sem muitas reviravoltas – nada que o público não espere – e que tem um teor educativo, com mensagens de amizade, como todos os outros quatros filmes.

É também um filme bem mais “feminino”, pois enquanto a W.D.A. faz “Frozen” e “Detona Ralph”, e com eles consegue encaixar elementos rotulados como “de menina” e “de menino” em um contexto que quebra tais conceitos, a Disneytoon parece focada na ideia de produzir algo que agrade um só gênero de cada vez. Dessa forma se tem uma animação com um visual todo colorido e cheio de brilho, o que deve fazer com que uma parcela do público evite o longa só de ver o pôster. Mas vale ressalta que isso traz uma estética bonita para a animação, que também é bem acabada.

A dose de humor no filme é baixa. Não que tenham poucas tentativas, mas só mesmo a personagem Rosetta com seu jeito vaidoso de ser, consegue tirar umas risadas tanto das crianças, quanto dos mais velhos. Nem mesmo os piratas são tão engraçados assim.

O grande trunfo está na trilha sonora. Assim como nas outras aventuras, a música e as canções são bem cuidadas no filme, e até mesmo ficam na cabeça do espectador tempos depois dele sair do cinema.

“Fadas e Piratas” pode não ser uma das animações mais inspiradoras já feitas, mas é um dos melhores filmes protagonizados por Tinker Bell, mesmo que isso signifique que ele seja apenas um filme bom. Fica assim a sensação de que há muito mais que possa ser explorado na mitologia das fadas, e que as coisas podem sair do trivial já mostrado para o público, e se tornar algo grandioso – então quem sabe o sexto filme, que está em produção, supere seus antecessores.

Crítica: Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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Existem várias histórias que circulam a figura de Walt Disney. Mesmo sendo adorado como uma das mentes mais criativas de seu tempo, ele passou por diversos desafios antes e depois de fundar seu estúdio – como quando resolveu produzir “Branca de Neve e os Sete Anões”, o primeiro longa-metragem animado colorido. Era só uma questão de tempo até que a Disney resolvesse utilizar uma dessas histórias em um filme. Porém, chega a ser curioso que justamente quando o criador do Mickey ganha nova vida nas telas, o foco não está nele.

Não se deixe enganar pelo título nacional de “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”, o original “Saving Mr. Banks” faz muito mais sentido, pois, como já foi dito, o produtor interpretado por Tom Hanks não é o protagonista da trama, e sim P.L. Travers (Emma Thompson), autora dos livros que deram origem à personagem Mary Poppins. Tudo gira em torno dela, que após 20 anos protegendo sua obra do insistente desejo de Disney de transformá-la em um filme, decide de uma vez por todas (ou quase é forçada a isso) ir até Los Angeles, e assinar o contrato que dará direito a Disney de produzir o longa.

Em uma narrativa que vai e volta no passado, conhecemos melhor a figura de Travers. No início, ela se apresenta como uma mulher exigente e sem papas na língua. Embora isso cause transtorno a Walt Disney e sua equipe, é por causa dela que surgem várias cenas divertidíssimas para o espectador, pois a Disney acaba se aproveitando dessa figura um tanto quanto independente da autora e cria sequências em que o estúdio ri de si mesmo – como o momento em que Travers chega a seu apartamento em L.A. e, ao encontrar o lugar lotado de bichinhos de pelúcia, demonstra todo o seu “desprezo” pelas animações da empresa. É uma auto referência da Disney feita de forma bem humorada e que vai agradar tanto aqueles que são fãs, como aqueles que não são.

Conforme a história progride, entendemos melhor as motivações e pesares que circulam o interior da autora de Mary Poppins. Isso se deve ao seu relacionamento com seu pai, muito bem construído por meio de flashbacks que se refletem no atual momento da vida da personagem, trançando um paralelo entre as duas linhas temporais expostas pelo filme. Chega a ser impossível não se afeiçoar à escritora, tanto pela sua história, tanto porquê Travers é magnificamente interpretada por Thompson. A atriz esbanja carisma no papel e conduz o filme com maestria a partir da sua atuação. Mesmo tendo Hanks no elenco, é ela quem faz o espectador rir e chorar em diferentes momentos do filme – infelizmente não posso detalhar quando ela faz isto, pois temo entregar detalhes cruciais da narrativa.

A maquiagem e o figurino aqui também são importantes, pois estão impecáveis na hora de caracterizar os atores como as pessoas que interpretam. Eles se assemelham muito as suas respectivas contrapartes da vida real. É verdade que num todo, a produção do filme está muito boa e a direção trás um clima mais intimista ao longa, com uma câmera que está sempre próxima à Travers em seus momentos mais importantes e auxilia a interpretação de Thompson. Detalhe para bela trilha sonora que embala a história. Embora seja em sua maior parte uma trilha original, é difícil não perceber aqui e ali referências às músicas da Disney, como o clássico tema “Heigh-Ho” cantado pelos sete anões.

Apesar de tudo, o filme não chega ser perfeito. Se a narrativa consegue colocar bem a relação de Travers com o pai, ela peca quanto à de outros personagens que foram importantes para a escritora. Afinal, por que mesmo que Mary Poppins parece ter sido inspirada na tia de Travers? Vale dizer que a relação dela com a mãe foi pouco aproveitada da maneira como foi explorada. São detalhes mínimos presentes na trama que aguçam a curiosidade de quem a vê, mas que ficam mal resolvidos – ainda que isso não a estrague como um todo.

É um belo filme e que talvez seja um dos maiores injustiçados do Oscar desse ano, pois aborda de forma divertida uma figura pouco conhecida, mas que também sabe se aproveitar de diversos elementos referenciais de maneira bem organizada com grandes atuações e uma direção competente.