Crítica: Cães Errantes

cães errantes

No meio de tantas produções de montagens rápidas e genéricas, o longa “Cães Errantes” (Jiao You) do diretor Tsai Ming-Liang, que venceu o Prêmio do Júri do último Festival de Veneza, é um conforto para olhar. Embora, de certo modo, o roteiro mostre a vida de um homem que vive com seus dois filhos em um prédio abandonado, o filme não tem a pretensão de contar uma história. Muito pelo contrário, ele busca enunciar a força contida na imagem cinematográfica, a partir de planos que duram minutos, e quase sempre não possuem um movimento de câmera.

São planos abertos que demostram a solidão e a vida daqueles personagens, que poderiam ser qualquer pessoa, uma vez que o longa não os nomeia (se ouve algumas vezes o nome de um deles ser citado, mas nunca se sabe exatamente quem é). Essas pessoas são como animais, os “cães errantes” do título, pois aparecem sempre agindo de forma a satisfazer seus instintos mais naturais: comer, urinar e dormir.

Com seus planos longos, o diretor obrigado o espectador mais do que simplesmente ver a vida daqueles personagens, ele a deve presenciar e a contemplar, assim como se contempla uma pintura num museu ou a imagem do cinema na tela. Essa última metáfora é trazida pelo filme a partir da sequência em que uma das personagens aparece admirando um desenho em uma parede – ação que irá ser repetida por outras duas pessoas ao longo do filme. Infelizmente a bela cena perde sua força a partir do momento em que a personagem começa a urinar no chão.

Essa perca da dramaticidade dos planos é algo que acontece (não intencionalmente) ao longo do filme, pois, por mais que a produção tente demonstrar a ideia do ser humano exposto a uma realidade que o coloque numa situação similar a de um animal, algumas passagens chegam a beirar o ridículo de tão estranhas. O caso mais visível disso é o momento em que o pai “ataca” um repolho que sua filha utilizava como brinquedo, tentando primeiramente sufoca-lo, para depois começar a comê-lo. Mesmo que a cena demonstrem visualmente o aspecto emocional do personagem e remeta a problemas de seu passado, ela destoa demais do resto do filme.

Embora os personagens sejam caracterizados principalmente por suas ações, algumas sequências tornam possível se ter contato com seu psicológico. A cena citada do repolho é uma delas, mas os mais emblemáticos são os poucos planos próximos utilizados pelo diretor. Um close aqui, atrelado à boa atuação dos atores, traz para a tela os conflitos internos vividos por aquelas pessoas. O prédio em que eles moram funciona de forma análoga, uma vez que o cenário é um reflexo do interior dos personagens.

A falta de uma trilha sonora e de uma temporalidade definida – depois de um momento não se sabe se o que se vê na tela é presente ou passado – salienta a concepção do filme de não contar uma história. A fotografia é incrivelmente bela, mas as imagens são tão nítidas que faz falta um uso maior de outras ferramentas da linguagem fílmica, como o desfoque, pouco visto no filme como um todo.

Não é um filme fácil de assistir, tanto pelos seus longos planos, tanto pela ausência de uma linha narrativa. Desse modo, alguns podem preferir não se aventurar em ir ver “Cães Errantes” no cinema, mas aqueles que o fizerem com certeza não se arrependerão – principalmente se buscam algo que destoe totalmente da maioria das produções atuais.

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Crítica: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

hoje eu quero voltar sozinho

Em 2010, o diretor Daniel Ribeiro dirigiu o curta “Eu não quero voltar sozinho”, que, ao fazer sucesso, primeiro caiu na internet para logo depois ser disponibilizado por seus realizadores em um canal do Youtube. O vídeo do curta já soma mais de 3 milhões de visualizações. Com tamanho sucesso, em 2012 um longa baseado no curta foi oficializado. Intitulado “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, o filme estreou nos cinemas brasileiros na última quinta, logo após ser lançado com grande sucesso no Festival de Berlim, onde arrecadou dois prêmios: o da Federação da Crítica Internacional, e o Teddy Award, prêmio para filme com temática LGBT.

Assim como no curta, o roteiro segue a história de Leonardo (Guilherme Lobo), um garoto cego que se descobre apaixonado por Gabriel (Fabio Audi), um novo colega de sua sala de aula, ao mesmo tempo em que lida com o ciúme de sua melhor amiga (Tess Amorim). Porém, o longa vai mais além, e mostra Léo em busca de sua independência perante seus pais superprotetores.

Desse modo, a produção se mostra não somente como uma história de descoberta sexual, mas também como uma crônica da vida de qualquer adolescente que almeja a liberdade. É fácil se afeiçoar a Léo e a seus amigos, pois muitas pessoas passaram ou passam por situações similares às deles. E o fato do protagonista ser cego possibilita ao filme a chance mostrar uma visão crítica das pessoas com deficiência visual na sociedade. São em pequenos detalhes (como quando ele vai a uma agência de intercâmbio, e a mulher com que ele fala diz que nunca viu um cego fazer intercâmbio) que percebemos como o mundo ao nosso redor ainda não está totalmente adaptado para os cegos.

Com um maior tempo de duração, o diretor consegue aproveitar a câmera para executar algumas experimentações na hora de filmar e de editar. Um exemplo é a bela sequência do sonho (ou pesadelo) de Léo, filmada como uma luz forte na qual nós mal conseguimos enxergar detalhes dos personagens, e que traz para ao nosso mundo visual os pensamentos de uma pessoa cega.

O longa reutiliza algumas passagens e falas do curta, de modo que se torna muito mais divertido assisti-lo já tendo visto “Eu não quero voltar sozinho”, e podendo assim relembrar esses acontecimentos. Mesmo assim, quem ainda não viu o curta não terá problema em aproveitar ao máximo o filme.

Apesar do tema juvenil, este é um filme para adultos também, que de uma forma ou de outra podem se identificar com a história, mas principalmente, é um filme para a sociedade LGBT brasileira. Ele surge quase como um respiro romântico no meio de produções que parecem que necessitam apelar para o sexo – mesmo que muitas delas transformem o ato sexual em um elemento de romance. Aqui surge uma história sobre inocência, sobre como o amor pode surgir das mais diferentes formas, nas mais distintas pessoas. Há certa tensão sexual entre os dois personagens, mas não é esse o foco. O foco é o romance juvenil e puro, em sua mais bela forma.

Essa forma de amor é demonstrada em várias sequências do filme, mas principalmente no seu final, quando é difícil segurar as lágrimas e sair do cinema sem um gostinho de quero mais.

Crítica: Amante a Domicílio

amantes a domicilio

Tendo como ponto de partida a história de um homem que se torna gigolô, “Amante a Domicílio” (Fading Gigolo) pode enganar aqueles que acreditam que este se trate de um desses filmes que misturam erotismo e comédia. Dirigido e estrelado por John Turturro, o longa narra o que acontece após Murray (Woody Allen, em uma de suas poucas atuações fora de um filme de sua própria direção) convencer seu amigo Fioravante (Turturro) a se tornar um gigolô e sair com algumas mulheres que ele lhe arranja, para que assim os dois ganhem um bom dinheiro com isso.

Embora uma boa parte do início da narrativa se concentre em Fioravante ganhando popularidade de ótimo amante entre suas clientes, a história só ganha fôlego mesmo quando o protagonista começa a se envolver com Avigal (Vanessa Paradis), uma judia viúva que possui problemas para superar o luto. A partir daí o longa deixa de lado uma boa parte da comédia e começa a se tornar um romance, enquanto flui com maior veracidade.

É um filme bem leve, apesar do tema tratado. As cenas de sexo não tentam provocar o choque que algumas produções atuais buscam – de forma que o máximo que se vê é mulheres com lingeries sensuais – e são filmadas de forma tão ágil e cortadas por momentos cômicos, que ganham um ar de romance juvenil – isso quando essas cenas são mostradas, já que o emprego da elipse é corriqueiro. Deste modo, vale a comparação feita pela personagem de Sharon Stone ao se encontrar com Fioravante pela primeira vez, dizendo que tudo aquilo lhe lembra a época de colegial, pois de fato, mesmo o sexo sendo tratado de forma madura, as sequências em que ele aparece podem ganhar um ar quase “pueril” ao serem comparadas com tudo o que vem sendo feito com o tema no cinema atual.

Mas elas se encaixam bem no clima do filme, que se em algum momento fica mais intenso, é por causa do relacionamento de Fioravante com Avigal, e do fato da moça sofrer com as pressões impostas por sua religião. Vale dizer que Paradis e Turturro possuem uma boa química, o que dá uma maior vivacidade aos dois personagens. O ator também demonstrar ter ótima dinâmica com seu companheiro Woody Allen, que por sua vez acaba servindo de alívio cômico ao incorporar com naturalidade um homem neurótico com a situação ao seu redor, ou seja, basicamente o personagem que Allen interpreta (ou dá vida a partir de outros atores) nos filmes que dirige.

Entretanto, o filme tem um grande problema com o modo como trata algumas “minorias”, como os negros e os judeus, que parecem estereotipados e pouco naturais. Salvam-se as mulheres, já que todas elas estão à procura de uma coisa: liberdade. As mulheres aqui querem ser livres para ir e vir, e esta busca pode bater de frente com alguns objetivos mais “imaturos”, como o prazer sexual, ou com maneiras de quebrar com certas regras da sociedade – novamente é colocado em evidência o caso de Avigal, que desafia os costumes impostos pelo seu povo.

O desfecho da narrativa pode ser um pouco inverossímil e forçado, mas Turturro consegue trazer um filme agradável de se ver, principalmente para aqueles que buscam apenas um romance despretensioso.