Crítica: Malévola

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O FILME QUE A DISNEY PRECISAVA, MAS QUE MALÉVOLA NÃO MERECIA

Primeiramente um comentário pessoal: quando eu era criança e vi pela primeira vez o animado “A Bela Adormecida” da Disney, lembro-me de ter ficado espantado com a aparição da vilã Malévola no batizado da princesa.  Aquela personagem me chamou muito a atenção, e eu adorava todas as cenas em que ela aparecia com seu humor irônico, além da sequência climática em que ela se tornava um dragão. Malévola é minha vilã favorita, motivo pelo qual venho aguardando com grande ansiedade a chegada do filme “Malévola” (Maleficent), desde que o mesmo foi anunciado no começo de 2010. Justamente por adorar o fato dela ser tão má e cruel, é difícil para mim aceitar as diversas mudanças feitas na personagem pela Disney neste novo longa – mas sou obrigado a lembrar que toda adaptação tem liberdade para modificar, da forma que lhe for convir, o  seu produto de origem.

E como se trata de uma adaptação, logo no início a Disney já mostra que irá apresentar uma história bem diferente do conto que conhecemos. Assim, o público conhece uma fada Malévola (Angelina Jolie) que possui asas e é boazinha, além de ser a protetora do reino dos Moors. Ela se apaixona por Stefan (Sharlton Copley), um humano pobre, mas que ambiciona mudar de vida. Porém, o romance dura pouco e após Stefan trair a fada para poder se tornar rei, Malévola busca vingança rogando um feitiço sobre a filha do seu antigo amado, a princesa Aurora (Elle Fanning).

Assim que a história começa, chama a atenção o fato do roteiro de Linda Woolverton (que também roteirizou “O Rei Leão” e “A Bela e a Fera”) não se preocupar em explicar o porquê do nome da personagem ser Malévola (afinal, ela é boa no começo do filme), ou os detalhes da mesma possuir chifres e grandes asas, se diferenciando assim do restante das fadas. Do mesmo modo, conforme a narrativa progride, não há uma menção sequer aos falecidos pais de Malévola e Stefan (o fato de ambos serem órfãos é um dos motivos utilizados pelo roteiro para que eles se tornem tão próximos). Mas se esses detalhes são ignorados, deixa-los de lado pelo menos traz a Woolverton a oportunidade de desenvolver bem a trágica história da fada traída, realçando como a personagem pode ser mais complexa do que parece. Falha, porém, em utilizar demasiadamente da narração em “voice over”. Tentando resgatar o sentimento de se contar um conto de fadas por palavras, o roteiro acaba fazendo com que o filme ganhe excessivas passagens só com narrações, o que fica cansativo, se esquecendo de que as imagens são mais importantes, e que elas próprias conseguem contar a história, sem precisar da interferência do narrador toda hora.

A grande surpresa no roteiro está na formação de uma relação quase singular: a de Malévola e Aurora, que juntas acabam criando um laço de mãe e filha. A fada vai se preocupando cada vez mais com a jovem princesa, sendo esta última a mais beneficiada dessa relação. Afinal, não se trata apenas de uma Aurora sonhadora, mas de uma adolescente curiosa e pronta para descobrir o mundo e lidar com os problemas de sua vida – principalmente aqueles em que ela não tem controle. Já Malévola, em certo a ponto de narrativa, se tornar uma anti-heroína. Isso demonstra que, mesmo vendendo este como o filme de uma vilã, a Disney não consegue (ou não se interessa em) fazer um filme com uma personagem má, de modo que é sempre necessário mostrar que ela teve suas motivações para jogar a maldição, assim como ela pode se redimir.

Isso, entretanto, não tira o carisma da fada maravilhosamente interpretada por Angelina Jolie, que sabe dar charme e elegância à personagem, unindo estes elementos às características maternais que a mesma possui na história. Elle Fanning, que interpreta a princesa, não fica para trás, trazendo a densidade dramática certa para Aurora. Já Sharlton Copley, apesar de ser um bom ator, fica preso a um antagonista insosso, que mesmo envolvido em uma busca de vingança paranoica, pouco consegue convencer como um verdadeiro louco. O humor do filme fica por conta do trio de fadas encarnadas por Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple, arrancando algumas risadas durante a projeção. O mesmo não acontece com Sam Riley, que faz o meio-corvo, meio-humano, Diaval, que busca várias vezes se mostrar como um personagem humorístico, mas acaba falhando em sua tentativa.

Porém, o que chama grande atenção em “Malévola” não é sua história, e sim sua parte técnica e artística. O diretor Robert Stromberg, que estreia no cargo após ser premiado por diversos trabalhos na área de direção de arte como “Avatar” e “Alice No País das Maravilhas”, busca em vários momentos se distanciar do convencional e trazer um toque quase “autoral” ao longa. É algo que se percebe bem principalmente nas cenas de ação, onde o Stromberg abusa do uso de zoons e de efeitos em slow-motion, junto de sequências de luta bem coordenadas. Entretanto o slow-motion não chega a ser inovador, e lembra e muito os primeiros filmes do diretor Zack Snyder – inclusive, há uma cena de “Malévola” que se assemelha demais ao início de “Watchmen”.

Como era de se esperar, a direção de arte, que aqui fica nas mãos da dupla Dylan Cole e Gary Freeman, é impecável, e se alinha muito bem aos incríveis efeitos especiais – ainda mais belos no 3D. Destaque para os figurinos de Anna B. Shepard, que foi capaz de dar chifres à Malévola. A fotografia também é igualmente bem trabalhada, em especial na sequência antecedente ao momento em que Aurora espeta seu dedo. Entretanto, vale dizer que o filme nada tem de “dark”, como prometiam os trailers, embora ainda guarde características góticas resgatadas do desenho animado que o originou.

“Malévola” se insere bem no novo padrão de filmes idealizados pela Disney, que a exemplo de “Frozen” e “Detona Ralph”, buscam mostrar personagens mais complexos, que fogem da já batida dicotomia “bem” e “mal”. É um filme que agradará o público mais jovem, mas pode deixar os fãs do desenho animado “A Bela Adormecida” descontentes com suas mudanças narrativas. Mas agradando ou não, o fato é que é um bom começo na carreira de direção para Robert Stromberg, e deve trazer um novo gás para as produções da Disney, que provavelmente seguirá em frente com a ideia de apostar em seus famosos vilões como protagonistas – ainda que tenha que torna-los bonzinhos para isso.

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Crítica: Tim Lopes – Histórias de Arcanjo

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No dia 5 de junho de 2002 foi confirmada a morte do jornalista investigativo Tim Lopes, assassinado enquanto fazia uma reportagem, caso que gerou imensa comoção em toda a imprensa. Buscando relembrar a morte do famoso repórter e recuperar momentos importantes da vida do mesmo, surge o documentário “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo” (que faz referência ao verdadeiro nome do jornalista), idealizado pelo próprio filho de Tim, Bruno Quintella, que assume o roteiro, e por Guilherme Azevedo, o diretor do longa.

Inicialmente passando pela região do assassinato do pai, Quintella vai entrevistando pessoas que se envolveram direta ou indiretamente com o acontecimento, e a partir daí consegue resgatar fatos do passado, e ilustrar a vida de Tim, a fim de demonstrar sua influência na produção jornalística brasileira. Nesse aspecto o filme é bem ilustrado com imagens de arquivos, além das próprias reportagens escritas por Tim Lopes em jornais, utilizando a técnica de ressaltar certos trechos para o espectador compreender do que a matéria trata como um todo.

A partir daí o documentário tem a oportunidade de passar rapidamente por diversos temas jornalísticos e de cunho social, sempre centrado em demonstrar como Tim Lopes interagia com eles. Tem se assim uma visão das dificuldades de se fazer jornalismo na época da ditadura militar, expondo como Tim agiu em relação a isso. Mostra-se ainda como ele buscava fazer matérias antes impensadas por alguns, a exemplo da que teve foco na vida dos caminhoneiros ou na que falava sobre o dia a dia dos trabalhadores de uma fábrica.

Tim é colocado no patamar da pessoa inovadora que ele era, que explorava proceder com suas reportagens de forma antes não pensada, se infiltrando no meio das pessoas “objetos” de sua reportagem. Sua preocupação social é muito significante para o documentário, que ganha força especialmente quando trata da importância de Tim em relação à população negra brasileira. O filme expõe como o jornalista conseguiu trazer para a mídia a imagem do negro na sociedade, seu estilo de vida e sua cultura, tão marginalizada pelo resto da população. É importante ressaltar o papel de Tim para que a população tenha se atentado para os problemas daqueles que eram sempre julgados pelos mais favorecidos, denunciando diversos dos problemas passados por eles.

O documentário só peca em seu final. Ao voltar para a região da infância de Tim, o filme não só acaba tentando trazer para o a tela do cinema um apelo emocional desnecessário, como também expõe uma fase da vida do jornalista que pouco interessa para a produção como um todo. A força do documentário não está nos momentos predecessores à carreira jornalística de Tim, mas si no período em que esta carreira engatou, e ainda no momento pós a morte do repórter, que deixou uma lacuna para o jornalismo investigativo brasileiro.

A montagem é fenomenal. Sabe bem como encaixar cada tema da vida de Tim de forma que um sempre está ligado ao outro, dando um bom desenvolvimento para o documentário como um todo. Há única quebra nesse quesito é no momento de retorno ao passado, que novamente se mostra como o principal “calcanhar de Aquiles” da produção. A fotografia é igualmente excepcional, com boas escolhas de planos nos momentos em que não se trata de entrevistas, e que não só documentam o real, como também trazem pequenas metáforas da visão de Quintella e Azevedo sobre a vida de Tim – algo que também é feito ao utilizar fotografias do passado, auxiliadas pelo discurso dos entrevistados.

Como um tributo ao falecido jornalista, “Histórias de Arcanjo” consegue expor os mesmos assuntos tratados por Tim Lopes em sua vida, enquanto se molda como uma homenagem a ele.

Crítica: O Lobo Atrás da Porta

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O suspense sempre esteve presente no cinema nacional, mas especialmente neste último ano, esse gênero tem sido mais explorado no país, o que vem gerando visibilidade para este tipo de filme. Estre essas produções está “O Lobo Atrás da Porta”, primeiro longa-metragem do diretor Fernando Coimbra, que pode se destacar como um dos melhores lançamentos brasileiros do ano até agora.

Livremente baseado em fatos, o longa mostra a trágica história do sequestro de uma garotinha, filha de Sylvia (Fabiula Nascimento) e Bernardo (Milhem Cortaz). A principal suspeita é Rosa (Leandra Leal), amante de Bernardo. A narrativa utiliza dos depoimentos dados por essas personagens à polícia para ir revelando aos poucos a conflituosa relação entre elas.

Em seu início, o filme dá ao espectador a falsa impressão de que já revelou todos os seus segredos, e de que seu desenrolar servirá apenas para explicar como tudo ali se encaixa. Dessa forma, demora um pouco para se prender a atenção da plateia, algo que acontece de forma natural, conforme o roteiro vai se mostrando cada vez mais denso e profundo – e depois disso, é difícil escapar da trama.

A bela fotografia do longa se alia à história para trazer para a tela o psicológico das personagens. São imagens que utilizam bem das sombras e do contraste para refletir os desejos e medos dos protagonistas Rosa e Bernardo. Junto de uma montagem que privilegia planos mais longos, o filme vai criando um ambiente de tensão e medo, de forma que não é possível prever o que vai acontecer em seguida. Graças a esses elementos, a direção consegue fazer o espectador pensar que uma situação vai seguir um determinado caminho, mas acabado indo para outro diferente, pegando-o de surpresa – ainda que tudo no filme já seja premeditado.

A produção ainda guarda uma naturalidade em seu desenrolar, e um aspecto “seco”. Não há toda aquela dramaticidade característica desse gênero de filme, com diálogos imensos ou planos diversos que antecedem algum acontecimento. As coisas simplesmente acontecem, geralmente de forma rápida, o que traz o longa uma maior impressão de realidade.

Tal impressão é acentuada pelas boas atuações. Todos os atores sabem bem como fazer seu papel, como agir com a tal naturalidade, mas o destaque mesmo é a personagem de Leandra Leal. É ela quem guia a história, trazendo a dualidade necessária para Rosa, que passa por uma série de situações complicadas. É difícil não se importar com ela, mas mesmo tempo não se consegue concordar com seus termos e suas ações. É uma personagem complexa, assim como a maioria dos personagens do filme.

As sensações de realidade e o mistério vão somente se acentuando no desenrolar da projeção, e quando finalmente se chega ao desfecho, é tudo tão chocante que se pode dizer que o longa até consegue sair do nível do suspense para se aproximar do gênero do horror.

“O Lobo Atrás da Porta” consegue causar tensão com um ritmo único, resultado tanto da boa direção de Coimbra que soube como utilizar a imagem para envolver o espectador em uma dimensão psicológica, sem precisar apelar para longas sequências dramáticas, como do seu elenco, que consegue trazer a tela tanta naturalidade. É um filme que deixará o espectador atônito e o fará refletir até depois do fim da narrativa.

Crítica: Operários da Bola

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Ao se pensar naqueles que serão as estrelas da Copa do Mundo 2014, as imagens que imediatamente veem à mente são as dos grandes jogadores das seleções dos mais diversos países.  Eles são os protagonistas do futebol mundial, e provavelmente servem de exemplo para muitos daqueles que buscam seguir tal carreira. O documentário “Operários da Bola” busca dar visibilidade a outro tipo de jogadores – um tipo que vive situações bem diferentes de celebridades como Neymar Jr. e Lionel Messi.

Como o título já diz, esses jogadores são operários, e mais especificamente os que trabalharam na reforma do estádio Mané Garrincha, localizado em Brasília. Esses trabalhadores se tornam jogadores a partir de um campeonato de futebol organizado por eles, intitulado “Copa Solidária dos Operários da Bola”.

Entretanto, esse campeonato, que aparentemente serve de foco para o desenvolvimento da proposta do documentário, é colocado em segundo plano, pois não é o campeonato que interessa, e sim a vida e as dificuldades passadas pelos personagens entrevistados. Esses personagens possuem ou possuíram forte ligação com o futebol, e é isso que o filme espera mostrar: como essa paixão pelo esporte move (ou moveu) os sentimentos e a vida destas pessoas.

Durante as entrevistas eles narram suas diversas histórias, no campo e na vida como trabalhadores. Um já foi um jogador profissional, outro possuía o sonho de ser, e um terceiro atua gerenciando futuros jogadores. Mas no meio de tudo isso eles falam de coisas banais, realmente sem importância, e ai o longa se perde. Deixa-se de lado (mesmo que por poucos momentos) a ideia principal do filme, para que eles comecem a tecer comentários poucos produtivos e interessantes.

Isso parece acontecer para ajudar na construção da imagem de que aquelas pessoas são “gente como a gente”, mas afinal são pessoas reais, e o espectador deve ter noção, logo de início, de que, a não ser o fato de serem os protagonistas do filme, eles não tem nada de diferente do resto da população brasileira. Comem, bebem e usam o transporte público como qualquer pessoa.

As imagens coletadas no geral estão muito boas, mas falta um pouco de foco na hora de escolher os enquadramentos ou de tratar o que irá aparecer na tela. É o que acontece quando, durante uma entrevista, um dos operários abaixa para explicar algumas técnicas de arbitragem, e o quadro, que antes o enquadrava em plano médio, fica completamente vazio – e obviamente o espectador fica sem entender nada do que o operário esta falando.

Durante essas entrevistas predomina uma montagem com cortes rápidos. Desse modo o filme está sempre mudando o enquadramento do personagem entrevistado, o que acaba sendo pouco eficaz, pois, percebe-se que, nos momentos em que se tem a câmera parada, deixando o personagem contar sua história sem cortes nem interrupções (mesmo que sejam apenas interrupções na imagem, e não na fala), há uma maior imersão emocional. São nesses momentos em que se tem maior afeição aos entrevistados e suas histórias ganham mais força.

Já as poucas cenas dos jogos da “Copa Solidária dos Operários da Bola” dão um clima divertido ao filme. Narrados por uma pessoa que ironiza o tom dos conhecidos narradores de futebol, essas cenas transformam os operários nas verdadeiras estrelas do futebol, ressaltando suas habilidades em campo.

O documentário não entra em assuntos polêmicos relacionados à Copa do Mundo – como os recentes manifestos contra a Copa, o atraso na entrega de alguns estádios e o dinheiro que o governo utilizou para sua reforma e construção – e na verdade, nem há problema nisso. Não é sua ideia principal. Ele apenas busca mostrar a vida dos operários e os aproximar dos apaixonados pelo futebol.

“Operários da Bola” é um documentário que segue sua proposta, mas acaba não se desenvolvendo bem. Sua montagem rápida faz com que algumas histórias se percam, assim como o espectador, mostrando que falta um pouco mais de profundidade, não no material coletado, mas na hora de organizá-lo.

Crítica: O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro

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Em 2007, a Sony lançou “O Homem-Aranha 3”. Na época, os filmes do aracnídeo ainda eram dirigidos pelo ótimo Sam Raimi, mas a terceira e última sequência daquela trilogia não agradou a todos, em parte pela falta de foco narrativo que a trama possuía. 7 anos se passaram desde em então e agora os longas do cabeça de teia estão a cargo de Marc Webb, que dirige o novo “O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro” (The Amazing Spider-Man 2). Mas mesmo após tanto tempo, a Sony parece não ter aprendido a lição e voltou cometer o mesmo erro do passado, ao inserir variadas subtramas no roteiro que atrapalham o conflito principal.

Essa segunda aventura do Peter Parker, interpretado por Andrew Garfield, mostra o popular personagem da Marvel tendo que lidar com o surgimento do vilão Electro (Jamie Foxx), com os problemas de seu namoro com Gwen Stacy (Emma Stone), com o reaparecimento de seu amigo de infância Harry Osborn (Dane DeHaan) e descobrindo os segredos deixados pelo seu pai já morto. Tudo isso em um filme com pouco mais de duas horas de duração.

Colocar toda a responsabilidade do problema desse emaranhado de conflitos nas costas do diretor é um erro, já que o roteiro em si tem muita culpa, com informações importantes sendo mal explicadas, enquanto outras são repetidas infinitas vezes, e com metáforas interessantes (como a do relógio, que simboliza o tempo da vida de determinadas personagens) por vezes se perdendo. Mas é verdade que Webb, ao utilizar de forma pouco eficaz o recurso da montagem paralela (como quando Peter e Harry estão conversando, e logo em seguida o filme corta para Gwen, e depois para Peter e Harry novamente), acaba contribuindo para uma quebra da ação narrativa de várias cenas – muitas telas tendo bastante potencial.

Também é essa grande quantidade de histórias que faz com que algumas personagens sejam pouco aproveitadas no filme, sendo Tia May (Sally Field) e Felicia (Felicity Jones) os maiores exemplos. A primeira, que nos quadrinhos é a principal figura materna para Peter Parker (ela é tão importante que Peter iria por o nome de May em sua filha com Mary Jane), aqui aparece apenas para contar sobre o passado do pai do herói. Enquanto isso Felicia, que possivelmente virará a vilã/heroína Gata Negra em algum filme futuro, entra e sai da narrativa sem fazer grandes feitos. Ela surge como assistente de Harry e lhe dá informações que ela conseguiu porque “ouviu alguém comentando”. Seria mais convincente se os roteiristas a mostrassem logo como Gata Negra, procurando arquivos importantes na Oscorp, o que explicaria o fato de ser bem informada e lhe daria alguma importância.

Mas o que chega a ser irônico é o fato de que, enquanto algumas coisas ficam mal resolvidas, o filme tem tempo o suficiente para colocar sequências pouco úteis para a história como um todo. Além disso, a trama que mostra o passado do pai de Peter, assim como a cena da morte do Sr. e da Sra. Parker, são um tanto quanto desnecessárias. Ele poderia muito bem trabalhar o desenvolvimento de Peter descobrindo os podres da Oscorp sem precisar toda hora ficar remoendo o passado dele com os pais.

Mas se o filme tem seus erros, ele também tem seus acertos, a começar pelo elenco. Andrew Garfield e Emma Stone estão ótimos em tela, e exibem uma química incrível. DeHaan também se mostra um grande Harry Osborn, e mais para frente, um bom Duende Verde (mesmo que com uma caracterização estranha). Já o Electro de Jamie Foxx ganha mais vivacidade no momento em que ele de fato se torna um vilão e parte para cima do herói que tanto admirava.

Também há uma preferência para a comédia no início do filme (ele vai ficando mais dramático no seu desenrolar). Isso é bom, pois mostra aquele Homem-Aranha divertido e convencido dos quadrinhos, mas em alguns momentos as coisas podiam ser um pouco menos forçadas.

Já as grandes cenas de ação são de encher os olhos. Cada luta do Aranha é muito bem coordenada e faz valer a pena o ingresso pago. O 3D é bem utilizado nessas sequências, ainda que a tecnologia fique um pouco apagada na maior parte do filme. Infelizmente, não é possível exprimir comentários da melhor cena do longa, pois os mesmos podem ser considerados spoilers.

É certo dizer que o novo filme do “Homem-Aranha” possui energia para agradar ao grande público, mas graças aos defeitos de seu roteiro, sua luz perde um pouco do brilho.