Crítica: Jersey Boys: Em Busca de Um Sonho

jersey boys

NOVO TRABALHO DE EASTWOOD É CHARMOSO APESAR DAS FALHAS.

Conhecido por dirigir grandes dramas, Clint Eastwood busca em seu novo trabalho ter contato com um gênero antes pouco explorado por ele: o do musical. É fato que o diretor já trabalhou com música no cinema, mas em “Jersey Boys: Em Busca da Música”, baseado em uma peça da Broadway, ele tem a oportunidade de trabalhar melhor com o tema e criar belas performances com a ajuda dos atores.

A trama gira em torno da história real do quarteto “The Four Seasons”, composto por Frankie Valli (John Lloyd Young), Tommy DeVito (Vincent Piazza), Nick Massi (Michael Lomenda) e Bob Gaudio (Erich Bergen), desde sua formação até seu rompimento. Mostrando os diversos problemas sofridos pelo grupo, como conflitos familiares e até o envolvimento dos membros com a máfia, o roteiro acaba se mostrando inconstante, tanto na história, quanto no momento de balancear o tempo dos personagens em tela.

Enquanto o espectador tem a chance de conhecer e se afeiçoar por Tommy, Bob e Frankie, o quarto integrante do grupo, Nick, fica quase que totalmente apagado – e seria melhor assim, pois, quando o longa tenta dar alguma importância para o personagem, já é tarde demais, de modo que Nick parece uma pessoa totalmente forçada e sem convicção, e nem mesmo a piada feita pelo personagem ao final pode salvá-lo.

Isso se deve muito ao fato de Nick não ter um grande envolvimento com Frankie Valli, o verdadeiro protagonista da narrativa e o mais famoso dos integrantes do “The Four Seasons”. Mas se todas as atenções estão voltadas para Valli, o personagem acaba por ser enfraquecido pela atuação de Lloyd Young. O ator se sai bem no início da projeção, com um Frankie mais inocente e juvenil, mas não consegue trazer a seriedade necessária para o personagem no decorrer da projeção – ainda que se destaque nos números musicais. Por outro lado, Vincent Piazza, que interpreta Tommy DeVito, rouba a cena com seu jeito de mafioso italiano, que parece ser inspirado em personagens de filmes como “O Poderoso Chefão” e “Os Bons Companheiros”. Destaque também para Christopher Walken, que aparece pouco, mas de forma memorável.

O interessante trabalho de fotografia Tom Stern e a direção de arte de James J. Murakami, que abusa de tons escuros como o marrom, dão uma maior seriedade e cara de drama ao longa. Mas por um descuido, esses mesmos elementos acabam por sacrificar as constantes piadas do filme, fazendo com que seja difícil para o espectador soltar uma risada em um clima tão sério. O excesso de tons escuros e a iluminação também acabam por trazer uma estranheza à visão em cenas mais claras e coloridas.

Felizmente os números musicais – poucos, mas divertidos – se enquadram perfeitamente no filme como um todo. São nestas horas que se percebe como “Jersey Boys” cresce na tela do cinema e que, ainda com suas falhas, consegue não deixar o espectador aborrecido.

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Crítica: Como Treinar o Seu Dragão 2

como treinar o seu dragão 2

SEQUÊNCIA É TÃO EMOCIONANTE QUANTO SEU PREDECESSOR

Quando estreou em 2010, “Como Treinar o Seu Dragão”, animação livremente baseada no livro homônimo de Cressida Cowell, surpreendeu e se tornou uma das melhores bilheterias daquele ano, conquistando também o coração do público. Quatro anos depois, a Dreamworks presenteia a todos os fãs de Soluço e Banguela com “Como Treinar o seu Dragão 2” (How To Train Your Dragon 2).

A aventura se passa alguns anos depois da primeira história, e mostra o protagonista Soluço (voz de Jay Baruchel) com vinte anos, em uma Berk onde dragões e humanos vivem em paz. Soluço está prestes a se tornar o líder de sua tribo, algo que trás orgulho para seu pai Stoico (Gerard Butler), mas que o deixa muito apreensivo. Porém, este não é o único problema na vida do jovem viking: junto de Banguela, ele descobre que Berk está prestes a entrar em guerra com um grupo de caçadores de dragões liderados por Drago (Djimon Hounsou no original, e dublado por Rodrigo Lombardi no Brasil).

Assim como seu predecessor, o longa volta a tratar de assuntos como a amizade e a responsabilidade, mas consegue encaixar aqui novos temas, entre eles, a relação mãe e filho, algo muito importante para a narrativa e para o protagonista da história, e que se desenvolve de forma natural. O lado positivo é que o surgimento da mãe de Soluço (algo já anunciado pelos trailers), não diminui a relevância do pai, que também tem seus momentos de interação com o filho. A narrativa também aproveita para tratar do relacionamento entre casais de forma adulta, sem que isso prejudique o tom família que a circula – afinal, este é um filme que não tem medo de tratar de assuntos que mais sérios, daqueles que não atingem essencialmente o público infantil.

É interessante ressaltar também como o roteiro consegue entrelaçar direitinho todos os conflitos da história, sem deixar nada forçado. Aliás, a quantidade de conflitos é tanta que a animação quase não para. Está sempre acontecendo algo importante em tela, e se não é uma cena de ação essencial para a história, é alguma explicação importante, de modo que quem assiste ao filme ficará grudado na cadeira no cinema. Neste ponto, a montagem ajuda muito, encaixando perfeitamente cada situação, para que nada fique confuso. Mas, ainda assim, o longa consegue dar um descanso ao espectador, em geral, nos rápidos momentos de comédia, estrategicamente inseridos no roteiro para aliviar a tensão.

Logo que se inicia, a animação exibe seu visual deslumbrante. Os cenários são maravilhosos e os personagens tão bem construídos que, em algumas cenas, dão a impressão de serem pessoas reais, assim como os dragões que surgem a todo o momento na história, das mais diversas formas, tamanhos e cor. O filme exibe assim a grande evolução tecnológica entre o primeiro e este segundo, e é impossível não ficar extasiado com as imagens de algumas das belas sequências.

A trilha sonora de John Powell é novamente muito bem trabalhada. Possui melodias que se assemelham às do primeiro filme, mas que ainda tem um toque de novidade, como se a própria música tivesse crescido junto dos personagens – algo necessário, pois muita coisa mudou de uma história para outra.

Exibindo a mesma qualidade do longa anterior, “Como Treinar o seu Dragão 2” já se mostra um dos melhores filmes do ano até aqui, possuindo belíssimas imagens e um roteiro que corajosamente trata de diversas temáticas. Uma aventura agradável para adultos e para crianças.

Crítica: Muppets 2 – Procurados e Amados

muppets 2

Em 2011, os Muppets voltaram aos holofotes de Hollywood. Tudo graças aos esforços do ator e roteirista Jason Segel, grande fã dos personagens, que conseguiu em “Os Muppets”, criar uma história sobre o retorno dos bonecos capaz de agradar os fãs antigos e conquistar novos. Após esse longa, a Disney resolveu investir mais no grupo liderado por Kermit, o sapo, e lança agora a continuação “Muppets 2: Procurados e Amados” (Muppets Most Wanted).

O novo filme não conta mais com a participação de Segel e Amy Adams, que formavam a dupla de protagonistas humanos que acompanhavam os Muppets, mas nem por isso perde seu charme, que afinal vem dos bonecos irreverentes e das diversas participações especiais que eles trazem – que aqui vão desde Tom Hiddleston até Lady Gaga. A cena inicial já mostra parte deste encanto, ao fazer uma divertida brincadeira com o fato desta produção ser uma sequência, através de um número musical no qual eles dizem que, como é comum acontecer em continuações, este não será um filme tão bom quanto o original.

Logo após isso começa a história de fato, onde os Muppets se reúnem para fazer uma turnê mundial com a ajuda do estranho Dominic Caramau (Rick Gervais). No meio da turnê, Kermit vai preso após ser confundido com Constatine, o sapo bandido mais procurado do mundo, que possui grandes semelhanças com o anfíbio líder dos Muppets. A partir daí, Constantine toma o lugar de Kermit junto ao grupo (algo já planejado por ele ao lado de Dominic), enquanto Kermit tenta lidar com o fato de estar preso.

A história em si é fraca e previsível, mas os roteiristas dos Muppets parecem não se importar com isso, pois estes são personagens que fazem sucesso justamente com narrativas simples, que brincam com elementos já tradicionais das produções audiovisuais. Tendo isso como objetivo, o filme se sai muito bem, com diversas sequências que fazem rir mesmo beirando ao bizarro – como na cena da música cantada em conjunto por Miss Piggy e Celine Dion, que tem tudo o que um clipe romântico brega deve ter, como a imagem em preto e branco e os efeitos especiais toscos.

As sequências musicais, aliás, são bem divertidas, ainda que o filme tenha uma ou outra que se torna irritante pela repetição do refrão ou simplesmente entediante. Destaque para a música cantada por Tina Fey no papel da guarda Nadya, que além de gostosa de ouvir, é muito engraçada – algo que se deve, em parte, ao carisma de Fey.

Ainda assim, é notável que a narrativa se comporta de maneira falha no que diz respeito em desenvolver seus personagens. Enquanto Kermit, Nadya e os dois vilões são utilizados de forma satisfatória durante o filme, os restante do elenco se torna secundário demais para se acreditar que eles realmente evoluíram durante a trama. Um exemplo é Walter, o Muppet que fez sua estreia no último filme e que possuí significativa relevância nessa continuação. Ele acaba por ser mal utilizado no início da trama, quase que um figurante, tendo um papel ativo somente depois que o filme passa da metade. Miss Piggy é outra personagem que aparece pouco, porém, não necessita de tanto espaço no filme, pois seu temperamento forte faz com que ela roube todas as cenas em que se encontra. Fozzie sofre do mesmo mau que Walter, enquanto Gonzo só tem destaque no momento em que esta junto de Salma Hayek. Enquanto isso, a águia Sam e o agente da Interpol Jean Pierre (Ty Burrell), que teoricamente teriam grande importância para a narrativa, parecem estar ali para preencherem espaço.

Ainda que possua esses erros, os Muppets continuam divertidos. Os fãs antigos não se desapontarão, assim como os mais novos. Mas aqueles que não gostam do estilo de comédia dos Muppets, ou não gostam de marionetes, não devem se aventurar neste filme, já que, embora engraçado, não tem nada de especial.

Detalhe: antes do longa, há a exibição do curta-metragem da Pixar “Central de Festas” (Party Central), onde os personagens de “Universidade Monstros” se unem para fazer a melhor festa universitária já vista. É um curta bem divertido, ainda que não seja um dos mais inspiradores da Pixar (como o belíssimo “Dia & Noite”), valendo a pena chegar no horário correto da sessão do cinema para não perdê-lo.

Crítica: Espelho, Espelho Meu

espelho espelho meu

Lançado em 2012, “Espelho, Espelho Meu” (Mirror, Mirror), filme da Relativity Media, faz parte da atual safra de adaptações live-action de contos de fadas, se inspirando livremente no conto da “Branca de Neve”. Porém, ao contrário das outras produções do mesmo gênero, que buscam dar um tom mais “dark” a essas histórias, o longa dirigido pelo indiano Tarsem Singh abraça uma veia mais cômica e infantil.

É algo que se percebe logo no início, em uma bela sequência em animação narrada por Julia Roberts, que faz o papel da vilã “A Rainha”. Servindo de prelúdio para a história, a cena já traz uma amostra do visual que o filme vai seguir, com belas cores em tons pastel, além de dar liberdade para a narradora fazer uma piada ou outra sobre o nome da protagonista ou sobre sua beleza. De fato, é uma sequência encantadora, capaz de agarrar a atenção do espectador. Infelizmente, conforme o filme prossegue, a narrativa vai se desenvolvendo de forma fraca, fazendo com que aquele espectador que foi fisgado logo no começo, perca interesse por aquilo que está assistindo.

Na história, a rainha tomou o poder do reino para ela, e com inveja da beleza de Branca de Neve (Lily Collins), que surge como um empecilho para os planos da rainha de se casar com o príncipe Alcott (Armie Hammer), ela manda seu fiel serviçal Brighton (Nathan Lane) matar a princesa. Com dó da garota, Brighton a solta no meio de uma floresta, onde ela vaga até encontra um grupo de bandidos formado por sete anões que a ajudarão a acabar com os planos da rainha.

Se o principal objeto do filme é se mostrar como uma comédia, ele falha terrivelmente nesse quesito. Pouquíssimas piadas fazem rir, e o modo como o roteiro insere algumas delas acaba por quebrar o clima de diversos planos que se venderiam bem como cenas de aventura, além de fazerem com que determinados personagens pareçam excessivamente ridículos – como o príncipe, no momento em que a rainha usa nele uma poção de “amor de cachorrinho”.

Os personagens, aliás, são mal desenvolvidos. A Branca de Neve de Lily Collins não tem carisma, e aparece meiga demais no início, para pouco tempo depois, se tornar uma rebelde. Os anões, que deveriam ser elemento importante para a história e principal laço de amizade e família da heroína, são tão rasos que é difícil se lembrar do nome de um deles ao fim da narrativa, ou até mesmo recordar qual a característica individual de cada um. Armie Hammer, por sua vez, tenta fazer com que seu príncipe mescle seu jeito de galã com o de um personagem bobo, e também fracassa.

O príncipe também tem seu papel diminuído nessa narrativa, se considerarmos o conto que a originou, numa forma de tentar de fazer com que Branca de Neve ganhe mais independência, tentando dar ao filme um ar feminista, mostrando que uma mulher pode se defender sozinha. Isso não funciona, pois, justamente quando o longa tem a chance de mostra que Branca é realmente forte e autônoma, ele resolve colocar em seu caminho um personagem masculino para ajuda-la ou para se mostrar superior a ela.

Salvam-se apenas Julia Roberts e o ótimo Nathan Lane. Os dois tem certa química em tela, o que faz com que as cenas de comédia que protagonizam sejam as mais divertidas, mesmo aquelas que são incrivelmente estranhas – como quando a rainha tenta, a todo custo, entrar no corpete para o seu casamento.

Se o filme falha no roteiro, ele acerta em cheio na parte estética. Os cenários são todos muito bem trabalhos, assim como os figurinos de Eiko Ishioka, que dão o tom lúdico à produção. A trilha sonora de Alan Menken (conhecido por ser compositor das trilhas de animações da Disney, como “A Pequena Sereia” e “Enrolados”) também contribui para dar este clima ao filme, mas é notável que o visual destaca-se mais.

Com um roteiro fraco, “Espelho, Espelho Meu” acaba fazendo com que sua direção de arte seja seu grande chamariz. Entretanto, isso não é o suficiente para salvar o filme e nem prender a atenção de quem assiste por muito tempo.

Crítica: Que Estranho Chamar-se Federico

UMA DOCE HOMENAGEM PARA FELLINI

Que Estranho Chamar se Federico

Ettore Scola e Federico Fellini se conheceram ainda jovens, quando Scola se tornou colaborador de um jornal desenhando charges, o mesmo em que Fellini trabalhou um dia exercendo a mesma função. Daí nasceu uma amizade que perdurou por anos, até depois de ambos adentrarem na indústria cinematográfica. Relembrando a vida do falecido amigo, e os bons momentos de sua relação com ele, Scola deu origem ao filme biográfico “Que Estranho Chamar-se Federico” (Che Strano Chiamarsi Federico).

Em um misto de narrativa clássica e documentário, Scola busca contar o início da amizade com o amigo, enquanto se utiliza de imagens de arquivos e de filmes de Fellini para ilustrar a vida do diretor e companheiro. Por vezes, o longa ainda faz alusão a cenários e personagens famosos de Fellini – como a prostituta que lembrar a protagonista de “Noites de Cabíria” (1957), e a aparição da fonte da famosa cena de “A Doce Vida” (1960). Scola trata toda essa homenagem de forma delicada, demonstrando toda sua afeição por Fellini a partir das passagens de um narrador que é quase um personagem na trama, enquanto o filme é todo embalado por uma bela trilha sonora.

Ao tratar da metalinguagem do cinema, com um longa que conta história de um diretor cinematográfico e suas obras fílmicas, Scola busca mostrar para o espectador a todo o momento que o que ele está vendo em tela é um filme. Tal ideia já foi explorada por outros diretores (que se utilizaram desde metáforas narrativas, até à técnica de mostra o rolo do filme em determinadas sequências), mas que é empregada de forma ainda mais justa no filme de Scola, que faz isso hora expondo os cenários montados para a narrativa (como quando a tela em chroma key se apaga exibindo seu fundo branco), hora mostrando o narrador interagindo com os personagens a sua volta. Há também o uso do elemento do preto e do branco para narrar cenas do passado juvenil de Scola e Fellini, enquanto pensamentos e cenas dos dois cineastas mais velhos são coloridas – detalhe que ainda há um belo uso da luz e da fotografia nessas sequências, que escondem o rosto dos velhos Fellini e Scola do espectador, ouvindo-se somente a voz dos dois enquanto a câmera foca em personagens secundários.

Entretanto, é bem verdade que tratar do cinema falando sobre o cinema não é novidade para a Scola. Ele já fez isto em outros filmes, e se pode perceber diversas similaridades entre esta produção e seus trabalhos mais antigos, como “Nós Que Nos Amávamos Tanto” (1974). Na verdade, tanto em “Que Estranho Chamar-se Federico”, quanto no longa de 74, tem-se a figura do narrador que interrompe a história na metade para exibir seus pensamentos, assim como o uso da ideia do preto e branco para mostra as diferenças de tempo. Porém, vale ressaltar que, em seu trabalho atual, Scola possui maior liberdade criativa e é auxiliada por sofisticadas técnicas visuais, algo que seria difícil para o diretor fazer em sua juventude.

O único verdadeiro problema do longa é sua curta duração, que deixa a impressão de que poderia ser mostrado muito mais sobre a vida de Fellini e suas produções – e não seria problema nenhum, pois a boa montagem faz com que ele seja bem gostoso de se assistir.

Sendo um tributo poético e inspirador, “Que Estranho Chamar-se Federico” é ainda uma pequena lição de história do cinema, e uma produção imperdível para os fãs de Fellini e do cinema italiano.