Crítica: Hércules

herculesBOAS CENAS DE AÇÃO E PERSONAGENS DIVERTIDOS SALVAM NOVO HÉRCULES DE HISTÓRIA BATIDA

Que as adaptações de contos da mitologia grega estão em alta em Hollywood todos já devem saber. Dessa leva de produções, o “Hércules” estrelado por Dwayne Johnson é até o momento a melhor – embora isso não signifique grande coisa, uma vez que os demais filmes foram fracos ou medianos, ainda que bebam de uma fonte quase inesgotável e cheia de possibilidades como as lendas gregas.

A nova roupagem assumida por essa adaptação é o do interessante conceito de desmistificação da figura de Hércules. Aqui o herói é um mercenário que, junto de um pequeno grupo de companheiros, concorda em ajudar o rei da Trácia a enfrentar a ameaça do guerreiro Rhesus e seu exército que está devastando a região.

É um enredo já conhecido, e que se torna ainda mais batido quando Hércules percebe que terá que lidar com problemas do passado que o assombram. Ainda assim, seu desenrolar é aceitável e a história cresce muito após a pequena reviravolta pouco antes do terceiro ato – acontecimento que surge sem grandes surpresas, é verdade, mas ainda assim é bem estabelecido na trama.

O que faz com que o roteiro genérico não se torne entediante são as boas sequências de ação. Empolgantes, elas se encaixam no enredo de forma equilibrada e são capazes de desenvolvê-lo, sem serem demasiadamente longas para se tornarem chatas e cansativas, e ao mesmo tempo dão espaço para que cada um dos personagens do grupo de Hércules exponha aquilo que lhe faz único e especial.

Todos os principais personagens conseguem se diferenciar em tais cenas, e possuem uma significância plausível para a trama, mesmo que as histórias pessoais de cada um (e assim o motivo que os liga a Hércules) sejam expostas de forma rápida. Somente Iolau (Reece Ritchie) fica perdido. Sua habilidade especial (a fala, ou seja, a capacidade de fazer os outros crerem nas histórias que ele conta sobre Hércules) parece muito subestimada quando posta ao lado dos feitos de seus companheiros guerreiros, além do fato de que o próprio personagem parece não ter autoconfiança suficiente para acreditar naquilo que diz. É um personagem que fica enfraquecido e sempre que surge na narrativa parece forçado demais.

É o total oposto do que acontece com Amphiaraus (Ian McShane). Engraçado e beneficiado com a boa atuação de McShane, o divertido vidente rouba a cena sempre que aparece e tem convicção para confiar no que os deuses lhe dizem através de suas profecias. O Hércules de Jonhson também possui carisma e é natural, mesmo tendo de ficar por trás de uma expressão severa a maior parte do tempo.

Com os personagens se desenvolvendo bem em meio a ação, é estranho que o filme procure insistir em pequenas cenas dramáticas sem nexo justamente durante lutas importantes. É um drama que chega a ser exacerbado, pouco acrescenta à história como um todo e enfraquece o filme.

Se o longa pretende demonstrar uma melhor execução de sua trama, deveria fazer isso quando Hércules tem de enfrentar seus inimigos ou escapar de alguma armadilha. Seria possível expor como o herói é capaz de superar tais situações a partir de saídas inteligentes e boas estratégias. Mas ao invés disso, o roteiro busca demonstrar a predominância do mais forte sobre o inteligente, e então Hércules alcança suas metas com a força bruta, nunca pelo seu raciocínio – e novamente o roteiro bate de frente com aquilo que o público já esperava do filme.

Não é possível dizer que “Hércules” se torne um filme altamente envolvente, mas ele também não se torna maçante. É um longa que tem seus pontos positivos e negativos, podendo ser divertido, mas para isso, não se deve esperar que ele tenha as mesmas qualidades que fizeram o seu personagem principal ficar conhecido na mitologia: capaz de executar grandes feitos e ser surpreendente.

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Crítica: Filha Distante

filha distanteDesde o início, a sensação que cobre o filme argentino “Filha Distante” (Días de Pesca) é a de que o protagonista Marco Tucci (Alejandro Awada) está em uma busca eterna. No caso, é uma busca pela família. Porém, nesta busca não é a família que está perdida, muito contrário, quem está perdido é próprio protagonista.

Após problemas de saúde, Marco viaja até a Patagônia tendo em vista dois objetivos: reencontrar e se reaproximar da filha Ana (Victoria Almeida), que vive afastada dele há anos; e pescar tubarões.

A bela fotografia faz alusão à primeira ambição do protagonista. Sempre com planos que privilegiam a linha do horizonte, como se algo estivesse sempre por vir, a imagem retrata não apenas a história, mas o estado de Marco: quase perdido na sua procura pela família (aqui representada pela filha).

O esporte da pesca, referenciado no título original, simboliza como ele irá realizar essa busca. O ato de pescar – ou seja, jogar a isca e esperar morder – reflete a ação de Marco perante a tentativa de recuperar a afeição de Ana – como no momento em que ele a convida para jantar.

Essa habilidade do filme em criar metáforas narrativas também surge no roteiro, a partir de diálogos, que de início, são aparentemente banais, mas que acabam ganhando um novo sentido (ou um sentido a mais), graças aos acontecimentos do decorrer da trama. Só que todo esse cuidado em criar camadas de significado narrativo não impede que o longa se torne cansativo.

Seja pela demora da história em começar a ganhar sentido, ou seja pelos detalhes que ela omite, deixando o espectador sem respostas (é difícil perceber algum motivo para a filha não gostar do pai, por exemplo), o fato é que a trama parece ficar cada vez mais lenta conforme ela progride.

Mesmo a boa atuação de Awada, que consegue guiar o filme e fazer com que o público se identifique e realmente se importe com seu personagem (apesar da falta de ação narrativa), salva o longa de se tornar enfadonho.

Apenas em seu desfecho final as coisas realmente melhoram. As situações voltam a funcionar e a fazer sentindo, assim como o filme perde o ritmo lento.  Porém, nem tudo faz sentindo na história, mas é fato que “Filha Distante” não é um filme que parece se preocupar muito com a narrativa. Na verdade sua força está muito mais em sua construção visual e em sua possibilidade de criar metáforas, apenas lhe faltava um modo de fazer isso sem se deixar ficar fatigante, prejudicando assim a experiência do espectador.

Crítica: Quando Fala o Coração

Quando fala o coração

No começo do século XX, Sigmund Freud publicou os estudos que viriam fundamentar as teorias da chamada psicanálise. Com a popularidade desse meio de pesquisa da mente, que tinha como base seus estudos sobre os sonhos, o mundo da arte acabou sendo influenciado – em especial a corrente artística conhecida como Surrealismo. De olho tanto na psicanálise quanto no surrealismo, Hitchcock dirigiu “Quando Fala o Coração” (Spellbound), sem deixar que o filme perdesse a cara de produção hollywoodiana clássica.

Criando uma trama de mistério onde as pistas são os sonhos, o roteiro segue a psicanalista Costance Petersen (Ingrid Bergman), que tenta desvendar a morte do chefe do hospital no qual trabalha investigando a mente de um homem (Gregory Peck), única testemunha do acontecimento e que sofre de amnésia.

Se as emoções tem forte influência sobre o psicológico, então a personagem Constance é o maior exemplo disso. A partir do momento que se apaixona pelo desconhecido interpretado por Peck, ela fica obcecada em provar que ele não é culpado do crime a qual todos o condenam (o título brasileiro, de certo modo, serve como uma metáfora para esse modo de agir da personagem). Embora sejam compreensíveis suas ações, inclusive pela temática tratada, é estranho pensar como uma médica tão respeitada como ela se deixa levar por emoções que ela sabe que deve controlar. Há algo de demasiadamente romântico no modo como a personagem é conduzida, embora Ingrid Bergman a interprete com grande vigor, tentando em todos os instantes transformá-la em uma mulher de caráter forte e com preocupações estritamente profissionais – mas é difícil escapar de algumas sequências amorosas sem fazer com que Constance pareça estar ali apenas pela sua paixão pelo personagem masculino.

Como o inconsciente e o subjetivo são muito importantes no filme, o diretor utiliza de estratégias fílmicas que evidenciam o poder da câmera em mimetizar o psicológico. Em vários momentos há, por exemplo, o uso da câmera subjetiva, que exaltam o nível de tensão do longa e tiram o espectador do papel de voyeur, recorrente nos filmes de Hitchcock, para inseri-lo na pele dos personagens – como se o espectador fosse  seu cúmplice. Destaque especial para a climática cena do final, que em determinado ponto é narrada de modo subjetivo. Há também a bela sequência do sonho do personagem de Peck, onde a direção de arte utiliza de referências visuais vindas diretamente das obras de Salvador Dalí.

O uso do forte contraste evidencia que este é um filme noir, assim como grande parte das produções da época. Alguns podem pensar que isso torna esta obra apenas mais um filme comercial de Hollywood, mas a verdade é que esta escolha estética serve para auxiliar o filme, aumenta o clima de mistério no psicológico do espectador a partir da concepção visual – algo que não poderia ser descartado justamente em um filme que busca desvendar os mistérios da psique.

Se Hitchcock se propõe a mostrar como a complexidade do inconsciente humano pode revelar diversos segredos escondidos, utilizando as teorias de Freud ele consegue e o faz muito bem. “Quando Fala o Coração” se torna um thriller psicológico poderoso e envolvente, capaz de dialogar tanto com a ciência quanto com a arte.

Crítica: A Dama Oculta

a dama oculta

Ainda que seja conhecido como “Mestre do Suspense”, Alfred Hitchcock sempre dialogou com outros gêneros. “A Dama Oculta” (The Lady Vanishes) é um famoso caso onde o diretor consegue criar um filme com tons de comédia e de romance juvenil, sem deixar de perder o ritmo intrigante e envolvente, característico de sua filmografia.

Numa viagem pela Europa, a jovem inglesa Iris (Margaret Lockwood) conhece a simpática Sra. Froy (Dame May Whitty). Quando Iris se acidenta pouco antes de embarcar no trem de volta à Inglaterra, é Froy quem a ajuda. Durante a viagem Iris adormecer, e quando acorda percebe que Froy desapareceu. Enquanto todos os passageiros negam conhecer Froy ou ao menos tê-la visto, fazendo com que Iris se passe por louca, a garota recebe a ajuda do galante estudante de música Gilbert (Michael Redgrave).

Embora o romance quase improvável entre Gilbert e Iris (que está noiva de um rico inglês, o que não lhe agrada como um todo) possa parecer “clichê” para o público atual, ele não se torna enfadonho – na verdade é uma relação bem verossímil e divertida. Isto graças ao fato dele não ser o foco da narrativa, embora sempre se mantenha em perfeita sincronia com ela, assim como as tiradas cômicas.

Seja pelos diversos trocadilhos inteligentes ou pelas próprias personagens, como a dupla de ingleses azarados viciados em críquete (interpretados por Basil Radford e Naunton Wayne); o fato é que o filme consegue fazer rir em meio ao clima de tensão e medo. Como a viagem de trem é uma analogia ao tempo finito que aquelas personagens possuem para encontrar a mulher desaparecida, o longa vai se tornando mais agonizante e instigante conforme a história progride.

Lançado em 1938, o medo invocado surge como uma espécie de presságio para o problema que viria assolar a Europa – e o mundo – nos anos seguintes: a Segunda Guerra Mundial. De fato, a partir de certo ponto, narrativa se foca em tratar de questões que afligiam aquela região naquela época. É parte do retrato temporal feito por Hitchcock, mas que pode ser apreciado ainda hoje, pois o longa consegue ser envolvente a ponto de não ter se tornado um filme “da época” – e com isso quero dizer: um filme que só seria atraente naquela época. A maior prova disto é que “A Dama Oculta” ainda serve de inspiração para produções atuais, a exemplo de “Plano de Vôo” de 2005 estrelado por Jodie Foster, e inclusive já teve um remake lançado no ano passado para televisão.

É interessante perceber também como o roteiro consegue dar a atenção necessária para cada personagem, ainda que coadjuvante. Os dois ingleses ou o casal de amantes parecem alheios à narrativa principal, mas são elementos chaves para comprovar a sanidade da heroína. Do mesmo modo, pequenos detalhes e situações, que podem passar despercebidos inicialmente, farão com que a trama se desenvolva pouco a pouco.

Graças ao seu bem trabalhado roteiro e a mão de Hitchcock, capaz de conduzir de forma assertiva o suspense em meio à variedade de personagens e subgêneros aqui expostos, “A Dama Oculta” se molda como um dos clássicos mais influentes da carreira do diretor, e um dos seus melhores filmes – por mais que não tenha o prestígio de produções como “Psicose” ou “Pássaros”.

Crítica: As Tartarugas Ninja

Tartarugas ninjas

NOVA AVENTURA DAS TARTARUGAS NÃO EMPOLGA E PERDE A CHANCE DE INICIAR UMA NOVA E INTERESSANTE FRANQUIA

Seja nos quadrinhos ou na TV, as Tartarugas Ninja já tiveram sua história recontada diversas vezes, sempre conservando seus elementos e personagens mais marcantes e ainda trazendo conteúdo novo suficiente para se manter atraente. No cinema a coisa não é muito diferente. Como o último longa dos heróis data de sete anos atrás, parece ter chegado a hora de Hollywood tentar adaptar novamente os conhecidos personagens, agora com foco na geração atual. Acontece que o novo “As Tartarugas Ninja” (Teenage Mutant Ninja Turtles) está longe de ser um filme capaz de reacender o interesse do público no grupo de répteis que lutam ninjutsu.

A cena de abertura é até bastante agradável: uma animação narrada pelo Mestre Splinter que serve de prelúdio para o filme e que mimetiza o estilo das histórias em quadrinhos. Passado esse início a jovem repórter April O’Neil (Megan Fox) é apresentada. Ela está investigando por vontade própria as ações do Clã do Pé, uma gangue criminosa que anda causando estragos em Nova York. Só que como April logo descobre, o Clã do Pé tem seus próprios problemas: um grupo de tartarugas adolescentes, mutantes e ninjas, formado por Leonardo, Rafael, Donatello e Michelangelo.

Por esconder demais as tartarugas no começo, o roteiro toma a opção de forcar em April, que além de se transformar em protagonista, é a principal referência humana que a narrativa dá ao público. Com isso é criada uma trama que une a origem das tartarugas a April, realçando a importância da jornalista. Só que os roteiristas não conseguem desenvolver a personagem. Por mais que sejam conhecidas suas motivações, não se vê um crescimento da garota, que acaba por virar vítima dos flertes dos personagens masculinos.  A escolha de Megan Fox para interpretá-la também não ajuda a personagem. Fox não é expressiva o suficiente e não tem carisma para conseguir guiar o filme.

Se a história não acerta com aquela que é a personagem de maior presença na tela, o restante do elenco então fica ainda menos expressivo. As tartarugas que deveriam ser o grande chamariz da produção, além de estranhas, são totalmente sem graça. Ao contrário de seus equivalentes em outras mídias, é difícil perceber alguma diferença entre elas, como se todas tivessem a mesma personalidade. Se salva somente Michelangelo, que por causa das diversas piadas que faz, acaba por se apresentar como o mais atrapalhado e piadista dos quatro irmãos.

Vilões e coadjuvantes parecem totalmente esquecidos. O Destruidor, líder do Clã do Pé e arqui-inimigo das tartarugas, além de ser transformado em uma espécie de robô-samurai (muito semelhante ao Samurai de Prata do filme ‘Wolverine: Imortal’) não possui qualquer tipo de construção em nível de caráter – assim como todos os personagens nesse filme.

Além das falhas narrativas, o filme acumula diversas falhas técnicas e de continuidade, como um personagem que segura um objeto em um plano, e no plano seguinte o objeto desaparece. Um rápido exemplo: na sequência em que um caminhão está descendo ladeira abaixo em uma montanha de neve, Michelangelo não tem junto a ele nada além de seus nunchakus – e de fato, por motivos que não revelarei para não comprometer qualquer sequência do roteiro, por mais fraco que este seja, sabemos que ele não está portando nada que não seja suas armas. Um plano depois e “Mikey” agora possui uma espécie de carrinho mecânico que ele utiliza para correr pelo terreno nevado. Ele guarda o carrinho em suas costas, e no plano seguinte o carrinho desaparece. Pode parecer um detalhe mínimo, mas falhas como essa vão crescendo pelo filme, como um efeito bola de neve.

A direção de Jonathan Liebesman demostra amadorismo em não saber conduzir o filme. O diretor abusa de uma câmera histérica, que se move em quase todos os planos, como se o filme todo fosse uma grande cena de ação. Por isso a produção não consegue trazer qualquer apelo emocional, mesmo quando tenta, já que para isso é necessário um pouco mais de tempo de repouso para o espectador absorver o que vê em cena e se afeiçoar à narrativa. A trilha sonora muito repetitiva também não ajuda.

Ainda que tenha as quatro tartarugas ninjas, o Clã do Pé, piadas com Pizza, a famosa frase “Cowabonga” (dita em apenas uma cena) e efeitos especiais de primeira, “As Tartarugas Ninja” é um filme no qual faltam elementos: falta uma história envolvente, personagens cativantes, direção competente e um elenco carismático.

Crítica: The Rover – A Caçada

the rover

SEGUNDO FILME DE DAVID MICHÔD É MARCADO POR BOAS ATUAÇÕES E ROTEIRO BEM ELABORADO

Um dos grandes méritos de “The Rover – A Caçada” (The Rover), segundo longa do diretor David Michôd, está em unificar de forma notável o subjetivo do seu protagonista, com aquilo que é mostrado em cena para o espectador. Dessa forma, o filme é quase todo como uma viagem conduzida pela percepção do personagem de Guy Pearce, como se o psicológico dele se manifestasse na imagem, sem que necessariamente o diretor busque transformar sua produção em um thriller psicológico – é tudo se manifestando nas entrelinhas, de forma que cabe ao público perceber isso.

Baseado em uma ideia do próprio Michôd, a história se passa na Austrália, 10 anos depois de um colapso econômico. Pessoas vivem em situações precárias e fazem de tudo por dinheiro. Um homem (Pearce) tem seu carro (o único bem que possui) roubado por uma gangue de bandidos. Furioso, ele parte em uma busca para recuperar o automóvel, esbarrando no meio do caminho com Rey (Robert Pattinson), um garoto com alguns problemas e irmão mais novo de um dos integrantes da gangue.

As ambientações nos desertos australianos, alinhada ao figurino das personagens, refletem o misto de vazio e desordem no qual vive não só aquela população, mas a mente do protagonista. Não por acaso, ele também passou por momentos difíceis em sua vida dez anos antes, sendo o colapso do país funcionando como uma metáfora para seus problemas.

Como o protagonista parece estar alheio a tudo que não envolva seu carro – quase como um espelho da sociedade individualista contemporânea – o longa ganha um tom de monotonia, que é quebrado várias vezes por disparos de armas de fogo que fazem os personagens sangrarem sem repreensão. É uma violência chocante de início, mas ao mesmo tempo é natural naquele universo narrativo.

Esse clima do filme ainda se reflete no modo como alguns personagens agem, sem grandes explicações para suas ações na primeira parte do longa. Por causa disso, o começo do filme parece até surreal e o espectador pode se perguntar “mas por que eles estão fazendo isso?”. As respostas podem vir ou não algum tempo depois, uma vez que o roteiro deixa para o público completar algumas lacunas com sua própria interpretação. Porém, vale ressaltar que algumas justificações e motivações podem ser um pouco superficiais, deixando a desejar (em especial aquela exposta ao final).

O roteiro ainda chama atenção pelos seus diálogos bem trabalhados e cheios de emoção, que ganham ainda mais força quando entonados pela boa atuação de Pearce (presente na maior parte das conversações). De fato, Pearce é capaz de criar um homem duro e rígido com o mundo, mas que ainda assim é machucado pelo passado, dando oportunidade para que Michôd faça com quem algumas sequências se foquem quase totalmente no rosto do ator, que se expressa de forma natural, trazendo grande veracidade para o longa.

Pattinson não fica muito atrás, sendo obrigado a agir em diversos momentos difíceis. O jovem ator é capaz de mimetizar cacoetes naturalmente para o estranho Rey, e só se perde um pouco na hora de fazer o sotaque australiano, que fica um pouco esquisito, mas nada que o desmereça sua atuação, muito mais ligada à expressão corporal do que à fala.

Explorando o melhor do trabalho de seus atores, e tendo o roteiro e a direção primorosos de Michôd, “The Rover” se torna um filme agradavelmente alinhado e planejado, utilizando bem seus principais artifícios para entregar ao público uma obra reflexiva e atual.

Crítica: O Mercado de Notícias

o mercado de noticias

Em 1626 foi encenada pela primeira vez a peça “O Mercado de Notícias”, do dramaturgo inglês Ben Jonson, que criticava com bom humor a atividade jornalística ainda no início de sua formação. Quando o diretor Jorge Furtado, em pleno século XXI, resolve produzir um documentário sobre o tema “jornalismo”, ele dá de cara com a obra de Jonson e daí surge o filme de nome homônimo à peça.

Furtado utiliza a peça como combustível para uma calorosa discussão sobre o papel do jornalista, fazendo em pouco mais de uma hora e meia um rápido (porém bem fundamentado) panorama da imprensa brasileira atual. Para isso ele entrevista personalidades importantes do meio jornalístico, como Bob Fernandes, Mino Carta, Cristiana Lôbo, entre outros tão notáveis quantos estes aqui citados.

Os debates com os jornalistas passam diversas questões, entre elas a censura, a busca pela informação, a escolha e veracidade da mesma; ilustrando algumas delas com casos polêmicos, como o do quadro falso do pintor Picasso exposto em um prédio do INSS. Analisando diversos pontos dessas situações, o documentário consegue demonstrar como a falta de pesquisa ou testemunhos duvidosos podem colocar em cheque a função do jornalista.

Só que criticar o jornalismo não é a intenção de Furtado, e se o faz, logo demonstra, através dos depoimentos de seus entrevistados bem informados, como uma notícia pode ser bem construída quando se há uma verdadeira investigação por trás. O jornalista é assim colocado em uma posição fundamental na sociedade atual, já que é aquele que informa e constrói opiniões.

Junto às entrevistas surge a peça de teatro, interpretada especialmente para o filme. Ela expõe de maneira narrativa grande parte dos assuntos tratados, adicionando reflexões de pouco mais de três séculos atrás, mas que ainda se enquadram no contexto atual graças ao mau gerenciamento de alguns meios de notícias.

É notável que as sequências da peça acabam por se perder dos debates exposto conforme o filme avança, se tornando um tanto quanto enfadonhas e desnecessárias, em especial no final. Mas vale dizer que a peça, ao quebrar levemente a discussão ali tratada, da um momento de descanso ao espectador, que deve estar atento a todos os detalhes citados no documentário, afinal, é um debate que nunca para. Com a peça o espectador tem uma rápida trégua em meio sua reflexão e pode se divertir com a comicidade do drama apresentado.

Graças ao bom trabalho na montagem, o filme não se perde, fazendo com que o espectador possa acompanha-lo com grande facilidade. Suas reflexões possuem ótimos argumentos, fazendo com que “O Mercado de Notícias” seja um documentário fundamental para qualquer profissional do jornalismo ou aspirante, e mesmo que aqueles que estejam mais inteirados nesse meio possam achar algumas opiniões um tanto quanto redundantes, sempre é possível adicionar algo ao seu repertório acompanhando os diversos pontos de vista expostos neste longa.