Crítica: Os BoxTrolls

Os Boxtrolls

HISTÓRIA PARA AS CRIANÇAS COM MENSAGENS PARA OS ADULTOS

O estúdio de animação stop-motion Laika já demonstrou em seus dois primeiros longas, ”Coraline” e “Paranorman”, saber fazer narrativas voltadas para o público infantil, mas ainda assim tocar os adultos com metáforas e ideias condizentes com a sociedade do mundo atual. “Os Boxtrolls” (The BoxTrolls) é mais um caso no qual o estúdio faz isso com competência, ainda que crie uma história bem mais infantilizada quando comparada às suas outras duas produções.

Baseado livremente no livro de fantasia “A Gente é Monstro”, o filme apresenta criaturinhas chamadas BoxTrolls que vivem no subsolo da cidade de Pontequeijo, usam caixas para se esconder e quando podem, sobem até a superfície em busca de objetos diversos. Apesar de nunca terem machucado ninguém, eles são mal vistos pelos humanos. Numa noite os BoxTrolls levam consigo um bebê que é adotado pela comunidade dos monstrinhos como um legítimo BoxTroll. O bebê é nomeado Ovo (pois veste uma caixa de ovos). Ovo cresce e vê seus companheiros BoxTrolls serem exterminados um a um pela gangue de Arquibaldo Surrupião. A fim de salvar seus amigos, Ovo resolve tentar provar para os habitantes da cidade que os BoxTrolls não são perigosos.

A história em si é altamente previsível, embora não menos charmosa, mas a força do roteiro está muito mais na sua capacidade de criar simbologias para expor problemas, tratando de diversos temas e questões. Os próprios BoxTrolls podem representar qualquer grupo social que sofra por algum tipo preconceito sem explicação. O conceito de família é transformado, uma vez que Ovo foi criado pelos BoxTrolls, que são sua verdadeira família, e até as concepções da dicotomia “bem e mal” são criticadas por dois personagens que vivem se perguntando se eles são heróis da história enquanto ajudam o vilão, já que não percebem a consequência de seus atos. Muitas dessas ideias obviamente os pequenos não irão entender, mas o alvo neste caso são os adultos e as crianças mais velhas, capazes de assimilarem tais questões.

O estilo da animação, com seus bonecos de olhos grandes e cenários distorcidos, se assemelha ao utilizado no começo do século XX no movimento artístico chamado expressionismo alemão. Aqui o filme consegue fazer outra metáfora: do mesmo modo que a Alemanha daquela época passava por um período conturbado, a cidade de Pontequeijo e os seus personagens também passam por um período difícil. É como se a animação trouxesse de volta as memórias daquela época para a imagem do cinema a partir de um stop-motion de última linha tão bem feito, que os personagens andam com bastante naturalidade, como os dos filmes animados em CGI.

A trilha sonora de Dario Marianelli também merece destaque, uma vez que ela consegue criar um clima único para o filme, contribuindo para a formação do seu universo. É notável que, sabendo da importância da música, o longa não teme em inserir uma passagem semelhante à de um musical, além de mostrar Ovo e um dos BoxTrolls tocando com instrumentos improvisados, como se a música (além do amor que os dois tem de construir coisas) fosse um elemento que os une.

Ainda que alguns dos conceitos do filme fiquem relegados a segundo plano, sendo menos desenvolvido que outros, “Os BoxTrolls” consegue passar suas mensagens em uma história capaz de agradar toda a família, fazendo os mais velhos refletirem sobre questões sérias. Sua animação charmosa e a boa produção do filme são ainda mais um atrativo para espectador ficar encantado.

Por fim: Há uma divertida e metalinguística cena no meio dos créditos.

Crítica: Será Que?

sera que

As narrativas do gênero comédia romântica pouco mudaram no decorrer do tempo. Quando o espectador vai ao cinema ver uma dessas histórias, ele geralmente já sabe o que esperar. O gênero, porém, tem conseguido sobreviver ao se adaptar à sociedade de cada época. No mundo atual, onde fervilham referências à cultura pop e à cultura hipster, a comédia romântica “Será Que?” (What If) consegue fazer isso muito bem.

Daniel Radcliffe interpreta Wallace, um jovem que largou a faculdade de medicina e acabou de terminar um relacionamento. Em uma festa, ele conhece Chantry (Zoe Kazan) e logo os dois começam uma amizade. O problema é que Wallace quer mais que apenas ser amigo da garota, enquanto Chantry está feliz em um relacionamento com seu namorado Ben (Rafe Spall).

Para contar essa simples história, o longa utiliza de referências comuns aos jovens. Os dois protagonistas falam de música, gostam do filme “A Princesa Prometida” (um clássico do final da década de oitenta) e o principal elemento que os liga é a comida – algo considerado tão pouco romântico, mas que aqui ganha simbolismo. Chantry trabalha em uma produtora de animação, e em diversos momentos seus desenhos surgem animados e refletem os sentimentos da personagem como belas metáforas. São elementos como estes (as músicas, o filme, a comida e a animação), que fazem com que o público ao qual o filme é destinado se identifique, e o insere bem em meio às produções contemporâneas.

O roteiro é crível e não peca por mostrar um romance idealizado, onde os personagens se apaixonam à primeira vista. Muito pelo contrário, a força da história está nos problemas ali exposto, corriqueiros a qualquer relação, e em como o amor pode ser mal interpretado. Por isso é fácil de afeiçoar a Wallace e Chantry, porque eles se assemelham a qualquer pessoa, são seres humanos comuns com medos e dúvidas comuns. A boa química dos protagonistas também ajuda o público a se acomodar com os personagens. Destaque para Radcliffe, que apesar da interpretação simples, conseguiu de vez se livrar da imagem do protagonista da saga “Harry Potter”. Aqui ele é apenas Wallace: um jovem como qualquer outro com dificuldade de relacionamento.

Apesar dos problemas tratados, em nenhum momento o clima do filme fica pesado. As piadas estão ali justamente para isso: quebrar um pouco o drama de algumas passagens. E elas funcionam bem, com o filme conseguindo até mesmo utilizar em uma divertida passagem o humor físico sem que se torne estranho ou demasiadamente bobo.

Não há nada de surpreendente na história como um todo, mas “Será Que?” é um filme que consegue cativar o público de ambos os gêneros. Possui um roteiro sólido e simples, capaz de prender a atenção, além de uma boa atuação dos dois protagonistas que conseguem conduzir o filme sem problemas. Graças à caracterização das relações românticas e dos jovens atuais, pode-se dizer que este seja um filme do seu tempo, um filme que é capaz de agradar o público contemporâneo.

Crítica: Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário

a lenda do santuarioNOVA ADAPTAÇÃO DA  HISTÓRIA DE SEIYA AGRADA COM NOVO ESTILO DE ANIMAÇÃO, MAS FALHA EM SEU ROTEIRO

Há cerca de vinte anos o anime que contava a lenda dos cavaleiros de Atena, baseado no mangá “Saint Seiya” de Masami Kurumada, chegava à televisão brasileira e em pouco tempo conquistou uma legião de fãs. Antes disso, ele já havia feito sucesso em seu país de origem, além de várias outras regiões do mundo. A obra de Kurumada se tornou franquia, e desde então tem recebido diversas adaptações, sendo a mais nova delas o longa “Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário”, que abandona o estilo tradicional que consagrou o anime para se aproveitar do CGI e atualizar a franquia.

O filme (que, aliás tem Kurumada como produtor) adapta a famosa “Saga do Santuário”, uma das mais queridas pelos fãs, que mostra Seiya e o restante dos cavaleiros de bronze enfrentando os cavaleiros de ouro enquanto atravessam as doze casas correspondentes aos signos do zodíaco. Só que se a ideia é bem-vinda, ao mesmo tempo ela traz uma grande dúvida: como resumir mais de setenta episódios do anime (ou pouco mais de vinte volumes do mangá) em um filme de uma hora e meia?

A resposta é bem simples: cortam-se várias coisas e se enxugam outras. É o que torna o roteiro tão rápido, que fica difícil acreditar que aqueles que não estejam “iniciados” naquele universo vão conseguir entender o que está acontecendo. O início é um pouco mais explicativo e fácil de compreender, mas depois que os cavaleiros chegam ao santuário o filme ganha um ritmo desenfreado.

A partir daí a trama vira uma montanha russa que hora está no topo, hora descarrilha para o fundo. Personagens surgem e desaparecem sem explicação, casas são atravessadas sem ao menos aparecem em tela e outros problemas no roteiro fazem com que o espectador se perca e se pergunte “O que está acontecendo? Por que eles estão ali agora?”. Por causa disto, desaparece aquela emoção que percorria a série cada vez que os cavaleiros encontravam um novo inimigo, assim como a sensação de que eles evoluíram e se tornaram mais fortes depois de vencer uma luta.

Em compensação, embates clássicos, como Hyoga contra Camus e Seiya contra Aiolia, são recriados no cinema com um CGI magnífico e envolvente. A animação deixa os golpes mais bonitos e modernos, traz texturas realistas às armaduras dos cavaleiros, cria cenários magníficos – como o novo santuário, que flutua imponente nos céus – além de se aproveitar ao máximo de movimentos de câmera que seriam difíceis de serem recriados em live-action. O CGI só fica estranho quando tenta emular os trejeitos cômicos dos animes tradicionais.

A versão brasileira do filme ainda ganha destaque pelo belo trabalho feito na dublagem. Como um presente para os fãs, praticamente todos os dubladores originais voltaram para seus respectivos personagens, e o sentimento de se voltar a ouvir aqueles personagens com aquelas vozes só pode ser descrito como uma sensação de nostalgia e agradecimento – afinal é impossível imaginar Seiya sem a voz do dublador Hermes Baroli.

Só que talvez esses sejam os únicos elementos que vão agradar os fãs de longa data da franquia. Isso porque para aproveitar o filme como um todo, é necessário aceitar as diversas modificações e “atualizações” feitas na mitologia dos cavaleiros. Algumas são mais fáceis de acolher: o novo formato de se guardar as armaduras em pingentes e não mais em grandes caixas; as mudanças no design das mesmas armaduras, que se modificam durante as batalhas; e Milo de Escorpião, que agora é retratado como uma mulher, mas nem por isso deixa de ser menos poderosa. Outras podem deixar alguns bem irritados, como um Máscara da Morte fanfarrão ou os novos poderes que o “Mestre do Santuário” adquiri no clímax da narrativa. São elementos que não devem afetar o público novo que vai ao cinema ter um primeiro contato com a história de Seiya (e que parece ser o alvo do longa), mas podem deixar muita gente irritada.

Desse modo, é difícil dizer se “A Lenda do Santuário” conseguirá agradar os fãs por causa de suas mudanças, ou se conquistará novos admiradores para a franquia. Basta dizer que como filme ele não é tão envolvente graças ao roteiro rápido e confuso, mas sabe desenvolver bem as sequências de lutas enquanto aproveita ao máximo o novo estilo de animação.

P.S.: O filme possui uma rápida cena pós-crédito.