Crítica: Uma Viagem Extraordinária

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O diretor Jean-Pierre Jaunet, conhecido principalmente pelo filme indicado ao Oscar “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, sabe como lidar com personagens singulares em um ambiente poético, porém, conflituoso. Em seu novo longa-metragem, “Uma Viagem Extraordinária” (The Young and Prodigious T.S. Spivet), adaptação de um romance do americano Reif Larsen, Jaunet faz o que sabe fazer melhor a partir de uma história infantil e cheia de inocência.

Em um rancho em Montana, vive o jovem T.S. Spivet (Kyle Cattlet) e sua família. Ainda que tenha apenas dez anos, ele demonstra ser uma pessoa bem criativa e inteligente, se debruçando sobre os mais diversos tipos de ciências e fazendo pesquisas. Um dia ele inventa uma roda de movimento perpétuo e ganha um prêmio de ciências, sendo convidado a ir para Washington recebê-lo. T.S. decide abandonar sua família e cruzar os Estados Unidos para receber o prêmio.

Em sua viagem, ele leva consigo diversas lembranças e o diário de sua mãe (Helena Bonham Carter).  O filme vai desenvolvendo a relação conflituosa de T.S. com seus familiares a partir das memórias do personagem. A figura de seu irmão gêmeo Layton, falecido um ano antes, o segue, e se torna elemento importante para entender as motivações e anseios do protagonista. Graças a isto, é possível compreender o porquê de T.S. e seu pai serem tão distantes um do outro, os temores de sua mãe, e os sentimentos do garoto em relação ao acidente com seu irmão.

A atuação do jovem Catlett enriquece seu personagem e a trama, e consegue criar um laço com o público que se afeiçoa facilmente ao ator e ao protagonista. Helena Bonham Carter também se mostra perfeita no papel da mãe de garoto, expondo a força e as fraquezas de sua personagem.

O filme cria, ao seu modo, um conto intimista sobre a infância e a insegurança. A busca pelo seu lugar no mundo, motivada por essa insegurança, é o grande objetivo da viagem de T.S., ainda que o protagonista não perceba isso. Ele é uma criança, e por mais esperto que seja, nem sempre consegue perceber os seus próprios sentimentos. Essa visão intima do personagem é bem expressa pelo próprio visual do filme, que é colorido e poético. Cada cenário demonstra como T.S. enxerga determinado elemento: a sala de estar do pai de T.S. é escura e até mais bagunçada que o restante dos cenários, pois o garoto não compreende completamente seu pai, que também lhe parece uma figura curiosa e autoritária.

A beleza dos cenários e das cores do filme são bem reproduzidas pela fotografia de Thomas Hardmeier, que encaixa bem os detalhes e consegue dar o tom certo para cada plano, que muitas vezes possuem sobreposições. Só é desnecessário o elemento do três-D.
A história, ainda que bem trabalhada, está longe de ser a mais surpreendente já escrita. Não é difícil adivinhar como ela irá se desenrolar, mas se tratando de uma narrativa mais infantil, isso parece não ser o mais importante.

Graças ao bom trabalho de Jeunet e seu elenco principal, “Uma Viagem Extraordinária” faz jus seu nome. Pode não possuir elementos realmente extraordinários na narrativa, mas o modo como o filme envolve o espectador é digno de reconhecimento, devendo agradar desde o público mais jovem, até os adultos.

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