Crítica: Chappie

FILME DE ROBÔ DE BLOMKAMP CONSEGUE TRAZER INTERESSANTES REFLEXÕES, MAS ERRA AO CRIAR UMA CONFUSÃO COM SUAS IDEIAS

Chappie

Desde o sucesso de público e crítica de “Distrito 9”, o diretor sul-africano Neill Blomkamp se tornou uma das maiores aposta da indústria cinematográfica quando o assunto é ficção científica, a ponto de até mesmo conseguir a vaga de direção em uma futura continuação da franquia “Alien”. Embora seu “Elysium” tenha dividido opiniões, a exaltação do público e da crítica não era menor quando Blomkamp anunciou “Chappie”, seu terceiro longa-metragem.

Aqui, o diretor volta a misturar ficção e tecnologia com problemas sociais reais, muito ligados à criminalidade e à violência, em um futuro distópico não muito distante. Há um retorno às origens, com a história se passando na terra natal do diretor, assim como o início em forma documental que lembra seu trabalho em “Distrito 9”.

Em Johannesburgo, o crime diminuiu consideravelmente graças a um grupo de policiais robôs criados pelo engenheiro Deon (Dev Patel). Tentando melhorar seus robôs, Deon consegue criar uma consciência artificial, mas pouco antes de instala-la em um dos robôs, ele é sequestrado por uma gangue de assaltantes. O robô com consciência fica na posse dos assaltantes e recebe o nome de Chappie (sendo interpretado por Sharlto Copley, que repete a parceria com Blomkamp). Em meio a um mundo violento, Chappie começa a entender melhor as pessoas a sua volta e a tomar decisões.

Chappie é como uma criança, que acaba de chegar ao mundo e está em constante aprendizado, e possui um carisma especial graças a isto, que é amplificado pelo seu olhar pixelizado, suas orelhas e sobrancelhas em constante movimento e até mesmo pela voz robótica de Copley, modificada para a dublagem do personagem. Ele é como um “Baymax” em um filme de ação adulto. Ele é engraçado, e acaba tornando o filme engraçado também, embora o diretor pouco aproveite este detalhe, uma vez que insiste em tentar trazer um clima pesado para o longa durante a maior parte do tempo, seja utilizando para isto a trilha sonora, a própria violência ou até mesmo os seus outros personagens.

Junto do robô, Patel guia o filme com sua boa atuação, auxiliado pelo vilão neurótico e invejoso vivido por Hugh Jackman. Apenas o trio de assaltantes, formados por Ninja, Yolandi e Amerika, com o jeito canastrão de seus integrantes, se mostra como uma contribuição mais fraca para o filme enquanto esses personagens tentam causar empatia com o espectador.

Há uma relação bem similar entre “Chappie” e o “Robocop” de 2014, mas o filme de Blomkamp busca um caminho mais simples, sem tratar da corrupção. Aqui o foco é apenas a questão da consciência humana e se um robô conseguirá tratar com a mesma complexidade que um humano pode tratar as ideias de morte e proteção familiar.

A partir daí o filme instiga o espectador com questionamentos muito bem-vindos, mas falha ao se contradizer. Se em um momento Chappie se pergunta o porquê de os humanos machucarem uns aos outros, em outra cena ele próprio não mede esforços para ferir um humano. É claro, isto é uma forma de demonstra como o robô pode ser tão complexo quanto um humano, mas acaba fazendo com que o filme se perca ao tentar passar a sua mensagem.

É bom que o espectador reflita durante o filme, mas também é necessário que ele questione o que o filme mostra para não obter interpretações erradas iguais às que o robô protagonista acaba tendo durante sua confusa trajetória ideológica.

Crítica: Não Olhe Para Trás

Não olhe para trás

Mesclar de forma agradável drama e comédia em uma história não é algo tão simples de se fazer. O roteirista Dan Fogelman pode gabar-se de ser uma dessas pessoas que conseguem harmonizar bem este dois gêneros. Conhecido na indústria do cinema pelos roteiros de filmes como “Enrolados” e “Amor a Toda Prova” (ambos produções que sabem bem lidar com alegria e tristeza em suas histórias), ele também escreve o primeiro filme que dirige: “Não Olhe Para Trás” (Danny Collins), conseguindo criar uma história que faz o espectador rir e se preocupar com os problemas de seus personagens.

Fogelman toma como base um acontecimento absurdo, porém real, para desenvolver a trama (o que leva o filme a anunciar em seu início que ele é um pouco baseado em fatos). O Danny Collins (Al Pacino) do título original é um cantor que fez muito sucesso nos anos 70, e ainda hoje vive uma vida de “rock star”. Certo dia, porém, Collins descobre que no início de sua carreira, o próprio John Lennon lhe escreveu uma carta, que não chegou a Collins na época. Recebendo a carta como presente de um amigo, Collins resolve mudar todo o seu estilo de vida e acertar alguns erros do passado.

A mudança de atitude de Collins é um pouco brusca demais, mas é necessário que seja assim, pois é este acontecimento que fará o filme andar. Não é difícil adivinhar o que ocorre a seguir após a mudança, quando o cantor demonstra querer estreitar laços com uma pessoa que ele abandonou no passado – e do mesmo modo, é fácil prever quem é esta pessoa. Assim, o início do filme não é surpreendente e tão pouco se trata de algo que já não se tenha visto antes, mas o desenvolvimento que irá ocorrer depois é bem trabalhado e de rápido envolvimento do espectador.

Apesar de ser a história de um cantor, não há muitas referências musicais na trama. No geral, estas referências ocorrem na própria trilha sonora. Ainda assim a música tem papel importante, pois ela guiará determinados momentos da narrativa – como quando Collins tem de decidir se irá desafiar seu público e cantar uma música nova, ou apelar para seus sucessos do passado. Mas a verdade é que o longa é quase uma homenagem a grandes atores do passado.

Pelo menos é essa a impressão que traz uma produção que é estrelada por Al Pacino (em uma atuação ao mesmo tempo engraçada e comovente), e possui Annette Bening e Christopher Plummer (ambos em belas performances) em papéis importantes. É fato que há atores mais novos de qualidade no filme, mas as estrelas são mesmo os mais velhos.

Conseguindo entreter o público com risadas e momentos dramáticos, “Não Olhe Para Trás” é um ótimo começo para Fogelman na direção, além de ser uma grande oportunidade de ver Pacino e outros atores incríveis em frente à tela.