Crítica: O Demônio das Onze Horas

o demonio das onze horas

O que é o cinema? No início de “O Demônio das Onze Horas” (Pierrot Le Fou), Godard parece procurar responder isto a partir da fala de um personagem que se apresenta como produtor de cinema. O personagem resume o cinema como uma “emoção”. O amor, o ódio, a batalha, a violência e a morte fariam parte dessa emoção que é o cinema, e de fato tudo isso aparecerá de alguma forma durante este filme.

Mas parece que para Godard cinema não poderia ser resumido de maneira tão simples. Cinema poderia ser, no caso deste filme, definido como as emoções unidas às diversas possibilidades e experimentações que a linguagem cinematográfica oferece para que elas de fato aconteçam, sendo dessas experimentações que este filme de Godard irá ser formado.

O diretor segue a história não linear de Ferdinand (Jean-Paul Belmondo), um professor que, cansado da vida que leva junto à esposa e aos amigos que ele pouco considera, resolve fugir com a jovem Marianne (Anna Karina). Durante uma viagem até o litoral francês, o casal comete delitos, se envolve com um grupo de bandidos e muitas vezes refletem sobre sua relação e os desejos que possuem – o que possibilita ao filme criar narrações feitas ao mesmo tempo pelos dois protagonistas.

Durante a trama, Godard utiliza as particularidades da linguagem de diversas maneiras possíveis. Ele faz cortes bruscos, une planos aparentemente desconexos, muda a trilha sonora sem aviso e torna a montagem rápida em um momento, para depois deixa-la mais lenta.

Ainda que alguns dos recursos utilizados pelo diretor já não sejam novos, e ele próprio já tenha os utilizados em filmes anteriores – como no momento em que o casal protagonista quebra a quarta parede falando com seus espectadores – tudo aqui tem cara de novidade, pois não se trata de um filme comum, trata-se de um que filme deixa o espectador ciente das possibilidades do cinema e de como as narrativas nem sempre são ordenadas.

Por mais que pareça, por vezes, apresentar uma bagunça visual, Godard é extremamente consciente do filme que está montando. Dessa forma, mesmo os momentos que parecem terem sido concebidos de forma incorreta, na verdade são maneiras encontradas pelo diretor de quebrar a ideia de simples mimetização do real induzida pelo cinema. É o caso das cenas noturnas em que os protagonistas aparecem viajando com o carro, onde fica claro que as luzes refletidas pelo vidro do automóvel se repetem sem variação e que toda aquela sequência foi grava em um estúdio.

Mesmo colocando a história em segundo plano, para se concentrar nas experimentações, Godard não deixa de aproximar este filme de gêneros já estabelecidos pelas narrativas americanas (que ele adora, mas também critica). No caso, “O Demônio das Onze Horas” se trata de um road movie com toques de filme policial, mas que foge do trivial.

Um detalhe no longa que deslumbra o olhar é sua fotografia. Godard sabe, ao lado do diretor de fotografia Raoul Coutard, dar ênfase nas cores, em especial o azul, o vermelho e o branco (cores da bandeira francesas, mas também da bandeira estadunidense), tornando-as nítidas e belas. O diretor também brinca com a cor no início do filme, em uma sequência onde Ferdinand está em uma festa e a cor da imagem muda conforme ele se encontra com os personagens do local (é inclusive essa cena a citada no início deste texto).

Os “jogos” feitos com a linguagem, entretanto, podem ficar um pouco excessivos em determinados momentos, assim como a duração prolongada do longa que o torna cansativo. Porém, “O Demônio das Onze Horas” consegue se estabelecer com um grande filme e uma verdadeira obra de arte, que entrega algo totalmente oposto às narrativas com os quais o público está acostumado.

Crítica: Mad Max – Estrada da Fúria

COM EXAGEROS E MUITA AÇÃO, GEORGE MILLER ATUALIZA SUA FAMOSA OBRA

mad max

Responsável por alçar ao estrelato Mel Gibson, a série de filmes “Mad Max” foi uma das mais famosas no final dos anos 70 e começo dos 80. Hoje em dia, muita gente talvez não se recorte do anti-herói Max Rockatansky, ainda que a série possua uma base sólida de fãs. Porém, a Warner e o diretor George Miller parecem ter total confiança na popularidade de Max, a ponto de se arriscarem a produzir “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road), um reboot para a série.

A nova produção, entretanto, tem uma tarefa difícil: tentar agradar o público de uma geração já saturada de mundos pós-apocalípticos e anti-heróis. A fórmula para conseguir isto nada tem de nova, uma vez que Miller aqui “recicla” os melhores elementos dos filmes estrelados por Gibson, como os personagens bizarros e únicos, as cenas de corrida que tanto marcaram a franquia e a violência singular e chocante. Sobra até espaço para fazer uma piada que remete ao início de “Mad Max 3”, quando Max vai reunindo suas armas em um monte – só que no novo filme as armas não são as dele.

Tudo isto é unido ao exagero e efeitos especiais que só puderam ser produzidos graças à tecnologia atual, dando ao filme um estilo que lembra seus antecessores, mas também possuindo suas características próprias. Miller então da vida a diversos novos tipos de carros personalizados, gangues de motoqueiros, explosões sensacionais, vilões que até possuem seus próprios carros de som durante perseguições no deserto – com um guitarrista esquisito e um grupo de tocares de tambor – e cenas de ação mirabolantes. Destaque para a sequência da tempestade de areia, uma das melhores do filme todo.

Tom Hardy é quem vive o novo Max, um homem que tenta sobreviver a um mundo desértico, onde pessoas guerreiam por gasolina e água, enquanto é perturbado pelas lembranças da família que ele não conseguiu salvar. Capturado por um grupo de homens de guerra, ele é enviado a uma cidadela liderada por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, o mesmo ator que viveu o vilão do primeiro “Mad Max”). Quando Furiosa (Charlize Theron), uma das protegidas de Joe, se rebela contra seu líder e foge com uma preciosa carga, Max é posto no meio da caçada contra a rebelde, resolvendo se unir a ela para tentar solucionar seus próprios problemas.

Hardy faz um Max durão, de poucas palavras e que nunca perde a pose, o clássico personagem de filmes de ação, mas de fácil afeição. Já Theron trabalha em uma Furiosa forte, mas que também é afetada pelo passado, com a personagem atuando como figura central da trama e segunda protagonista (de forma que o “Fury” no subtítulo pode até ser visto como uma referência a ela). É ela quem vai guiar o herói e ser guiada. Ao redor dos dois, estão um grupo de mulheres que almejam fugir do vilão Joe e o guerreiro Nux (Nicholas Hoult), que acredita na ascensão de seu espírito através da batalha.

A trama é simples e ágil, mas envolvente. Quem procura algo mais complexo não achará aqui, assim como aqueles que clamam por realismo. A força de “Mad Max” não vem de uma história cheia de reviravoltas, mas sim de uma narrativa visual de ação incrivelmente bem trabalhada e que não se preocupa com o verossímil – a prova disso é que Max perde uma grande quantia de sangue no início do longa, e mesmo assim continua fazendo malabarismo para todos os lados com os carros.

Mas não é só de cenas de ação e explosões que o filme de Miller vive. O diretor sabe pausar as corridas de carro no momento certo, desenvolver seus personagens rapidamente e dar um descanso para o espectador, pois a sequência de ação que virá em seguida fará o público ficar novamente vidrado e preso à cadeira do cinema. Algo similar acontece com a fotografia do filme. Enquanto boa parte da narrativa se passa durante o dia, com cores terrosas fortes, o longa também procura utilizar algumas cenas noturnas de tons frios, descansando os olhos de quem assiste.

“Mad Max: Estrada da Fúria” é maravilhosamente prazeroso e divertido, e tudo isto graças à sua forma espalhafatosa de fazer ação. É uma produção que certamente deve agradar os fãs antigos e adquirir muitos fãs novos.

Crítica: Bando à parte

Bando a parte

Em um bar francês, uma moça e dois rapazes sentados em uma mesa resolvem fazer um minuto de silêncio. Por um breve momento, nada mais se ouve na cena do filme, sendo apenas exibidos os três personagens inquietos na mesa do bar. Esta sequência de “Bando à parte” (Bande à Part, algumas vezes também chamado no Brasil como “O Bando à parte” ou “Banda à parte”) demonstra bem os artifícios utilizados por Godard neste filme de narrativa simples, mas cheio de reflexões sobre a linguagem, e que se tornou com o passar dos anos um dos longas mais populares da Nouvelle Vague.

A história segue o grupo já descrito, formado por Franz (Samy Frey), Arthur (Claude Brasseur) e Odile (Anna Karina, uma das musas de Godard e do cinema francês). Odile mora em uma casa cuja dona guarda uma grande quantia de dinheiro em um dos quartos. Franz e Arthur pretendem roubar o tal dinheiro, e para isto, buscam incentivar a garota a participar do roubo. Enquanto persuadem Odile, os dois também lutam para conquistar o amor da moça.

Os personagens são bem caracterizados: Odile é a menina romântica e boba; Arthur, o malandro apressado por conseguir o dinheiro (ele possui uma dívida a pagar); e Franz é o intelectual, que vez ou outra solta algumas reflexões sobre o mundo. Este não é um dos filmes mais complexos de Godard em questões narrativas, mas o que chama a atenção é como ele busca trabalhar a linguagem cinematográfica, fugindo dos padrões assim como fez em seus outros trabalhos do mesmo período.

“Bando à parte” é filmado com planos que se assemelham aos de um documentário, característica do cinema francês da época e que difere o filme do modo como eram produzidos os longas norte-americanos de Hollywood, que buscam o realismo com sua montagem clássica. Porém, ao fazer isto, Godard da ao seu longa uma faceta muito mais realista que as produções hollywoodianas, ao mesmo tempo em que não nega que aquilo que mostra na tela é um filme, uma ilusão do real.

Seja pelas falas de seu misterioso narrador, ou pelos próprios personagens, que não temem olhar para a tela e se referir ao espectador (a famosa “quebra da quarta parede”), Godard a todo instante mantém seu espectador ciente de que está assistindo um filme. Em outra famosa cena no bar, o trio protagonista dança enquanto o narrador discorre sobre os pensamentos de cada um. Quando o narrador fala, a música para de tocar, mas basta o narrador se calar para que ela volte e o espectador tome consciência da sonoridade da sequência. Esta cena, tão famosa quanto a citada no início deste texto, chegou a influenciar outros diretores como Quentin Tarantino (é conhecido o fato do diretor ter nomeado sua produtora de “A Band Apart” em homenagem a este longa de Godard).

Se Godard busca se distanciar do método de filmagem hollywoodiano, ele também não nega suas influências e a afeição que possui pelas produções dos Estados Unidos. Dessa forma, “Bando à parte”, além de possuir algumas referências a outras narrativas, se mostra como uma homenagem aos longas estrelados por gângsters e às comédias românticas feitas na América do Norte.

“Bando à parte” é assim um filme que discorre sobre o cinema, o homenageia, mas também não deixa de “criticar” seu formato tradicional, buscando experimentar com a linguagem cinematográfica, o que o coloca entre as maiores obras de Godard.