Crítica: Minha Vida de Abobrinha

abobrinhaANIMAÇÃO TRABALHA DE FORMA DELICADA A QUESTÃO DA DOR DO ABANDONO

Uma das grandes surpresas do último ano foi ver uma animação entre os nove pré-selecionados para o Oscar de Melhor Longa Estrangeiro, um feito grandioso para um longa desse gênero. A produção em questão é “Minha Vida de Abobrinha” (Ma Vie de Courgette), primeiro longa-metragem de Claude Barras, o qual foi selecionado pela Suíça para concorrer à vaga na premiação da acadêmia. Embora não tenha conseguido a indicação de longa estrangeiro, o filme foi lembrado na categoria principal de animação. Feito em stop-motion, “Minha Vida de Abobrinha” segue a vida do pequeno Icare, apelidado de Abobrinha, após a morte de sua mãe. Sem saber o paradeiro de seu pai, Abobrinha acaba indo parar em um orfanato, onde encontra várias outras crianças, constrói fortes laços de amizade e até mesmo se apaixona.

Muitas animações tem tido exito em trabalhar o ponto de vista infantil sem tornarem a criança um personagem inocente demais ou realizarem uma adultificação nos pequenos – com “Lilo & Stitch”, “Ponyo – Uma amizade que veio do mar” e “O Menino e o Mundo” sendo bons exemplos neste caso. Em “Minha Vida de Abobrinha” não é diferente, com o filme sabendo equilibrar a inocência dos pequenos (como quando eles se questionam de que forma homens e mulheres namoram), com a sagacidade as crianças em compreender questões que vão além de sua idade. Entretanto, o que a animação faz é ir além de temas do cotidiano e trabalhar problemas como o abandono e da dor através do olhar de uma criança. É uma temática desenvolvida com sutileza fantástica, na qual crianças aparentemente alegres, rapidamente são tomadas por sentimentos conflituosos a partir de pequenas ações e atitudes simples – a cena em que elas brincam na neve é o melhor exemplo disto.

A tamanha complexidade das crianças é ainda exposta pelo modo como o roteiro busca trabalhar seus personagens. Inicialmente sendo vistos como estereótipos pouco inovadores, esses personagens se mostram como seres complexos e encantadores conforme o próprio Abobrinha se deixa afeiçoar por eles. Aquele que é o valentão do orfanato, por exemplo, se revela uma criança com uma história perturbadora e que possuí um único desejo não atendido, se tornando até mesmo o melhor amigo de Abobrinha, quase um irmão. Como é de se esperar, o filme busca discutir o que é família e sua importância, mas escapa de resoluções fáceis, deixando que o espectador encontre suas próprias respostas.

A direção opta por cenários e personagens coloridos e vívidos, de modo que realçam o universo de energia infantil no qual a narrativa se insere. Ao mesmo tempo, os grandes olhos e os longos braços das personagens que costumam permanecer caídos de forma melancólica, revelam a tristeza que envolve a vida daquelas crianças. É interessante notar também uma preocupação com os detalhes na construção dos bonecos de stop-motion, desde a coloração de suas faces, até elementos como cicatrizes e sardas.

Apesar de sua curta duração (o filme tem apenas 66 minutos), a qual deixa uma sensação de que muito mais poderia ter sido explorado na história, “Minha Vida de Abobrinha” é um filme tocante e que se desenvolve de forma eficiente, possibilitando um estranho e satisfatório encontro entre os sentimentos de felicidade e de dor que permeiam a vida de crianças e adultos.

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Crítica: Quatro Vidas de um Cachorro

quatro-vidas-de-um-catioroAntes mesmo de estrear, “Quatro Vidas de um Cachorro” (A Dog’s Purpose) tem sido um dos principais assuntos em sites de notícia e entretenimento. O motivo não poderia ser pior: uma denúncia de maus-tratos a um dos cachorros do filme, acompanhada de um vídeo que parece confirmar o fato. Grande parte do público parece estar disposto a boicotar a produção, de forma que o ideal seria tentar garantir o sucesso do filme a partir de um boca-a-boca positivo – o que provavelmente não acontecerá, levando em consideração a qualidade da produção.

Dirigido por Lasse Hallström, diretor que tem uma paixão por melodramas e que já explorou a “dramática” relação homem e seu amigo cão em “Sempre ao Seu Lado”, “Quatro Vidas de um Cachorro” segue (como o nome já diz) as quatro encarnações de um mesmo cachorro (na verdade são cinco, mas isto é mero detalhe). Na primeira, como o cão Bailey, que possuí uma forte relação com seu dono Ethan (Bryce Gheisar, K.J. Apa e depois Dennis Quaid); a segunda como uma cadela da força de polícia; a terceira como um corgi que acompanha a evolução da vida da doce Maya (Kirby Howell-Baptiste); e por fim, a quarta vida, na qual ele reencontra seu primeiro dono.

A narrativa busca oferecer complexidade à persona do cão protagonista, mas falha miseravelmente nisto. Primeiro porque o cachorro é apresentado como um personagem unidimensional, que busca apenas brincar e que possui tamanha inocência que não consegue perceber quando um humano fica bravo com ele. Em segundo, todos os desejos e angústias experimentados pelo cachorro tem como foco somente no dono do mesmo, com ele expressando vontade própria apenas em dois momentos do filme. Deste modo, aquele que deveria ser o protagonista da trama não tem outra função se não dar suporte ao seu dono – numa tentativa de reforçar a ideia do “melhor amigo do homem” – e quando eu digo dono, é bom deixar claro que eu estou falando de um personagem específico: Ethan (um nome que ecoa em minha mente e me causa repulsa só de lembra-lo sendo repetido inúmeras vezes durante o longa).

Principal objeto de afeição do cachorro, Ethan é provavelmente o maior problema da obra, a começar pela história de vida do personagem. Ethan é apenas um garoto que deseja um cachorro e quando consegue um (ainda que a contragosto do pai), eles se tornam verdadeiros melhores amigos e ele o leva para todos os lugares. Depois, Ethan se apaixona pela típica garota loira que é o sonho dos desejos de qualquer homem (e que aliás, adora cachorros também), a qual rapidamente também se apaixona por Ethan. É tudo muito fácil, tudo muito simples na vida de Ethan, desde de o modo como ele alcança seus objetivos, até a composição de sua família – que parece uma típica família de comercial de margarina.

Por pior que seja, talvez o filme deve-se continuar apostando nessa simplicidade para a composição da vida de Ethan, pois tudo fica péssimo quando o roteiro busca colocar algum tipo de empecilho na vida do rapaz. Desde o confronto com um colega de escola, às desavenças com o pai alcoólatra e a briga que o leva ao fim do namoro, todos os inconvenientes na vida do rapaz soam como forçados e irritantes de tão previsíveis – e aqui devo destacar o fato de que o filme nunca deixa claro o porquê o pai de Ethan entrou em tamanha depressão para se tornar um alcoólatra. Se não bastasse isto, todos os três atores  que interpretam Ethan surgem com atuações forçadas e sem química nenhuma com o elenco que os cerca (Dennis Quaid é o que se sai melhor, mas apenas devido ao fato de sua atuação no longa ser a mais curta).

Há uma melhora considerável na dinâmica do filme quando o cachorro reencarna em suas novas vidas e começa a interagir com o policial Carlos (John Ortiz) e logo em seguida com Maya e sua família. Entretanto, esses dois personagens acabam sendo colocados em um plano secundário, e suas vidas passam rapidamente pela tela, deixando apenas um gostinho de “quero mais” para quem assiste.

Buscando tirar alguma lágrima do seu público, a direção de Hallström cria sequências dramáticas cheias de closes nos rostos dos cachorros tristes, as quais são embaladas pela trilha sonora triste de Rachel Portman. A trilha, aliás, é um elemento que a direção faz questão de usar a todo o momento no longa, de forma que a música parece dizer ao espectador “chore aqui”, “ria ali”, “fique apavorado agora” – e este excesso de trilha faz com que a produção ganhe cara de telefilme. Não há silêncio, nem momentos de calmaria no longa para que o espectador descanse um pouco e reflita sobre a trama – embora reflexão é pedir um pouco demais de um longa com personagens tão rasos.

Há uma aposta em piadas bobas de como cães são melhores que gatos ou outros animais, mas no geral o filme é eficiente em arrancar risadas do público com as inocentes confusões arranjadas por Bailey e suas encarnações – sendo uma pena que a comédia não seja o foco da narrativa. Sem conseguir estruturar eficientemente seus personagens, os sorrisos são um dos poucos pontos positivos de “Quatro Vidas de um Cachorro” – embora seja um fato que, se o filme não tivesse se envolvido nos problemas que se envolveu, seria uma obra que provavelmente cativaria um bom público apenas pela fofura de seus cachorros, mesmo com roteiro e direção pouco atraentes.

Crítica: Paraíso

paraisoEm determinado ponto do início de “Paraíso” (Paradise), a protagonista Olga revela ter tamanho medo da morte, que poderia trair seus companheiros para evitar ter um destino trágico. O diretor Andrey Konchalovskiy utiliza essa consciência da finitude da vida e de seus momentos para guiar as ações de Olga, além de trabalhar tal percepção a partir de diferentes pontos em sua obra.

“Paraíso” se passa durante a 2ª Guerra Mundial e Olga (Yuliya Vysotskaya) é uma condessa russa que, após ajudar a Resistência Francesa, acaba sendo presa pelos nazistas. O longa trabalha a relação de Olga com dois homens distintos: o francês Jules (Philippe Duquesne), que está cuidando do caso de Olga; e Helmut (Christian Clauss), um oficial nazista que acredita que suas ações são corretas e trarão um mundo melhor para os alemães.

A história do encontro de Olga e Jules é bem curta, e serve apenas como uma introdução rápida para o filme e os conceitos que o mesmo irá desenvolver – de modo que o destaque que a narrativa busca impor sobre Jules acaba se mostrando desnecessário para o desenvolvimento do que vem a seguir. Já o relacionamento de Olga com o oficial Helmut é um elemento de maior importância dentro do longa, que explora dois pontos de vistas diferentes no ambiente de um campo de concentração no qual Olga é a prisioneira/serviçal e Helmut é seu patrão.

A crueldade do trabalho no campo nazista (muito bem representada no longa) e a ideia da morte fazem com que Olga perca um pouco de seu altruísmo durante a briga por um par de botas com suas companheiras. Esse ambiente hostil surge como um interessante contraponto à luxuosa vida de Helmut, personagem que graças às circunstâncias nas quais se encontra, pode se colocar como um homem solidário aos seus demais companheiros e expressar sentimentos até mesmo pela pobre prisioneira russa.

Jogando com as técnicas do gênero de documentário, “Paraíso” investe em um série de entrevistas nas quais seus personagens relatam os acontecimentos de seu passado e expõem seus pensamentos em relação aos problemas que os afligiram. Trata-se de uma forma eficaz encontrada por Konchalovskiy de oferecer ao espectador a possibilidade de adentrar na mente de Olga, Jules e Helmut. As entrevistas, unidas das ações de cada indivíduo expostas na tela, possibilitam que o roteiro ofereça complexidade e humanidade ao seus protagonistas, os quais em nenhum momento se tornam unidimensionais. Embora seja questionável o fato do filme oferecer uma justificativa para os pensamentos antissemitas de um oficial nazista como Helmut, é interessante notar como o personagem não caí em um clichê que o colocaria como um simples personagem odiável, com o filme oferecendo sequências em que sua disciplina e busca por ordem são colocados como características a se admirar.

O elenco que do filme também se coloca como parte importante para a construção desses personagens. Embora o destaque seja a ótima Vysotskaya, que mesmo exagerando em algumas sequências, consegue trabalhar o olhar de terror e apreensão de sua personagem com naturalidade, o jovem Clauss também é notável ao conseguir equilibrar a forte paixão e emoção de seu personagem com os momentos em que ele se mostra mais contido e estoico.

A ideia da luta por um “mundo melhor”, uma esperança que livrará os personagens dos horrores da guerra e da morte, surge no filme conforme os personagens revelam seus sentimentos, sendo interessante como tal conceito é desenvolvido pelo roteiro. Helmut, por exemplo, deseja ajudar seus companheiros nazistas de forma a alcançarem uma utopia para o povo alemão, entretanto, quando Olga surge em sua frente no campo de concentração, a figura da da russa logo se torna seu desejo pessoal, e a esperança que o oficial alimenta é de um dia conseguir conviver romanticamente com aquela mulher. Da mesma forma, se Olga de início concentra sua fé na busca por sair viva do campo de concentração, isto loga muda quando ela encontra as duas crianças judias que um dia ela ajudou, os quais se tornam objetos de sua proteção. Ela também cultiva uma esperança, a esperança de oferecer uma salvação para as crianças, algo que ela acredita que poderá conseguir com a ajuda de Helmut.

O diretor Konchalovskiy opta por filmar seu longa com uma fotografia em preto e branco e com uma tela quadrada, distoando das telas mais largas dos filmes atuais. Esses elementos, alinhados a uma ótima iluminação, remetem aos filmes em preto e branco, principalmente aqueles das décadas de 30 e 40. Trata-se de um efeito de memória do cinema que aqui se encaixar perfeitamente com a proposta da narrativa, pois o roteiro trabalha com as lembranças de seus protagonistas, o que possibilita que Konchalovskiy faça essa conexão de seu filme com as lembranças da história cinematográfica.

Mesmo apostando em um final com uma espécie de “plot-twist” pouco satisfatório (outro elemento desnecessário ao longa), “Paraíso” é um obra para ser apreciada devido ao seu ótimo roteiro e direção, que possibilitam que o espectador tenha contato com personagens complexos.

Crítica: Um Limite Entre Nós

cercasÓTIMO ELENCO É O GRANDE DESTAQUE NO FILME DE DENZEL WASHINGTON

“Fences” é uma das peças mais famosas da Broadway, tendo recebido prêmios Tony e até mesmo um Pulitzer. Era só uma questão de tempo até que a obra recebesse uma adaptação cinematográfica, algo que se deu pelas mãos Denzel Washington, ator que já tinha familiaridade com a produção, uma vez que interpretou o protagonista Troy na montagem de 2010. Washington reprisa seu papel ao lado de Viola Davis (que interpreta Rose, a esposa de Troy), com quem atuou em 2010, e ainda assume os postos de produtor e diretor do longa-metragem intitulado como “Um Limite Entre Nós” no Brasil.

A trama de “Um Limite Entre Nós” é simples: o filme convida o espectador a seguir a vida de Troy, um lixeiro que vive na Pittsburgh da década de 60 ao lado da esposa Rose, e o filho do casal, Cory (Jovan Adepo). A peça que origina o filme é conhecida por ser encenada com poucos cenários, e o filme parece buscar trazer tal elemento para a tela: as pouco mais de duas horas de longa são quase que completamente encenadas em um único local, a parte de traz da casa de Troy. Não é a primeira vez que um filme faz isso, mas é uma estratégia ousada, que traz benefícios ao mesmo tempo em que prejudica o filme.

O principal privilégio deste conceito narrativo de um único cenário é possibilitar que o longa de maior destaque às suas atuações. Deste modo, Washington e Davis conseguem brilhar na tela, ele com seu Troy de expressões duras e atitudes realistas, e ela com uma Rose sensível, mas que não deixa de se mostrar forte em meio aos conflitos que enfrenta. Destaque também para a interação de Washington e Adepo, que criam uma relação de pai e filho complexa, pautada em uma rivalidade de ideias e percepções de vida; e para o carismático Mykelti Williamson como Gabriel, o inocente irmão de Troy, o qual o ator constrói com tanta doçura que acaba por se postar como um elemento de total oposição à rispidez de Troy – mesmo que esta inocência venha de uma sequela que Gabriel teve durante a guerra.

Apesar do ótimo elenco, o filme encontra seu grande problema no momento de criar uma atmosfera para a execução de sua narrativa, fazendo-a saltar do melodrama para o quase cômico em diversos momentos. Por se tratar de uma história desenvolvida por diálogos, era de se esperar que isto acontecesse, uma vez que há (muitos) diálogos que focam em Troy contando algum acontecimento absurdo de seu passado, outros que tratam de acontecimentos cotidianos que pouco interessam a narrativa no geral e por fim, aqueles que de fato constroem o caminho para o desenvolvimento da trama e seus personagens. Os diálogos excessivos, unidos a uma história de um só cenário, fazem com que “Um Limite Entre Nós” se torne um filme monótono, com o espectador sentindo o tempo da projeção passar.

É fato que o cenário e os longos diálogos aproximam o filme do conceito do que seria uma peça de teatro filmada, mas mesmo assim, o envolvimento que o filme oferece não é o mesmo que se teria com uma peça – e o filme nem deveria tentar repetir o que dá certo na peça na tela do cinema, já que apesar das semelhanças, cinema e teatro são duas formas de arte distintas. Talvez querendo dar um ar mais “cinematográfico” para o longa, Washington filma algumas sequências rápidas de seus personagens em seus afazeres cotidianos, com uma música dramática ao fundo, o que soa artificial levando em consideração toda a história. O filme também cria uma sequência final fantasiosa, que diverge de todo o tom realista da obra – ainda que tenhamos uma alegoria ao embate da morte e a preservação do amor aqui e ali.

“Um Limite Entre Nós” se destaca por possuir um texto forte no que diz respeito ao retrato que oferece da comunidade negra nos anos 60 e dos problemas que a mesma sofria (e ainda sofre) junto ao restante da sociedade. Outro fator importante é que o filme se mostra como uma grande vitória na questão da representatividade dentro do cinema, pois seu elenco é composto totalmente por atores negros e a produção ainda possui um diretor negro. Entretanto, o filme não é realizado sem tropeços, que acabam sendo sanados por um elenco cheio de carisma.

Crítica: Axé – Canto do Povo de um Lugar

axe-filmeO nordeste brasileiro é o berço de diversas manifestações culturais que conseguem atingir pessoas em todas as regiões do país. O axé-music nordestino é com certeza uma dessas manifestações mais bem sucedidas, lançando astros que até hoje são conhecidos como referências da música popular brasileira, alguns conseguindo alcance internacional, como Ivete Sangalo e Daniela Mercury. O documentário “Axé: Canto do Povo de um Lugar” de Chico Kertész surge como uma homenagem a este estilo musical.

Traçando uma linha do tempo do axé-music, o filme explora a carreira de diversos cantores e bandas importantes para o cenário desse movimento musical a partir de entrevistas realizadas com os próprios artistas e com pessoas envolvidas no desenvolvimento de suas carreiras. É um longa quase episódico, pois expõe cada ídolo do axé de cada vez e então narra a sua trajetória, exaltando as características que os levaram à posição de estrelas musicais. Entretanto, a montagem do longa sabe como encaixar cada uma das histórias individuais de seus personagens, e o filme flui de forma orgânica, sem deixar que o espectador mais leigo se perca no meio de tantas referências musicais.

Os artistas aqui apresentados vão de Sarajane, Gerônimo, até “É o Tchan” e Saulo, fato que faz com que o documentário consiga evidenciar a diversidade de ritmos que compõem o axé-music, ainda que devido a isso, deixe em segundo plano discussões mais complexas. A importância do axé para a comunidade negra, as origens da palavra ligada ao candomblé e até mesmo a evolução da indústria fonográfica do axé-music – com os problemas que essa indústria tem acarretado a artistas menores – são debates que acabam sendo apenas pincelados durante o longa.

Um ou outro entrevistado busca trazer tais questões à tona, porém não há aprofundamento, sendo no geral apenas utilizadas frases soltas. Tal problema é muito forte no filme, pois a produção se deixa levar muito pelas falas de quem entrevista, e quando não há grande vontade de reflexão crítica nos entrevistados, o longa acaba caindo em um vazio e se tornando raso nos aspectos que envolvem algo além de uma narrativa histórica do axé-music. Isto poderia ter sido resolvido com mais pesquisa e com entrevistas junto a pessoas menos estelares, mas o filme não faz isto.

O problema de “Axé” talvez já fosse revelado logo na pergunta que dá início ao longa: “Quem é o Pai do Axé?”. Não se trata aqui de entender “De onde surgiu” ou “Qual o impacto social”, mas sim de compreender qual é o artista (ou os artistas) que deram o pontapé inicial para a disseminação desse gênero musical e fazê-lo se tornar o que ele é hoje. Com isso em mente, o documentário consegue atingir seu objetivo, ainda que deixe de lado racionalizações sobre o conteúdo musical e seu ambiente de formação.

Crítica: Moana – Um Mar de Aventuras

moanaDISNEY TRAZ PARA O PÚBLICO A SUA MAIS FANTÁSTICA “HISTÓRIA DE PRINCESA” ATÉ AGORA

O ano de 2016 foi bastante agitado para a Disney. Além dos live-actions de heróis e contos infantis, foram lançadas três animações distintas neste ano. A primeira foi o ótimo “Zootopia” da própria Disney Animation, que foi seguido por “Procurando Dory” da Pixar. Embora a diferença de qualidade entre as duas obras seja notável, é inquestionável que se tratam de bons filmes. Este fato me fazia temer a terceira animação da produtora que chega neste fim de ano: “Moana – Um Mar de Aventuras”. Não me leve a mal, eu estava ansioso, mas pensar que essa já era a terceira obra animada de selo Disney em apenas um ano me deixava com um pé atrás. Afinal, a Disney já errou com suas animações antes, e a história de outros estúdios (como a da Dreamworks) parecia provar que não era possível acertar três vezes em um período de 365 dias. “Moana” então tinha tudo para ser ofuscada pelas duas obras que a precederam, mas é exatamente o oposto que acontece.

Primeira animação em CGI dos diretores Ron Clements e John Musker (dupla conhecida por filmes em 2D como “A Pequena Sereia”), o longa-metragem segue a jovem Moana, filha do chefe de uma tribo polinésia. Ela decide se aventurar pelo oceano Pacífico a fim de encontrar o semi-deus Maui, para que unidos eles possam restaurar os poderes de uma deusa e impedir que todas as ilhas do oceano sejam destruídas. A jornada não é fácil e os dois precisam enfrentar monstros e inimigos no caminho.

“Moana” é provavelmente o filme de princesa da Disney que mais se difere de outros longas de princesa – e aqui uso o termo “princesa” do modo como a Disney usa para designar suas personagens femininas protagonistas, mesmo as que não são da realeza, como Mulan e Pocahontas, uma nomenclatura que chega a até virar piada dentro do filme. O principal motivo que leva “Moana” se distinguir tanto é a sua mitologia, de modo que o longa se deixa mergulhar dentro dos mitos e lendas que cria com base no folclore polinésio – algo que não foi trabalhado tão bem em obras como “Frozen” e “Valente”, que também possuíam sua carga mitológica. Deuses e monstros que surgem durante o filme possuem grande expressividade, e a opção do roteiro em não revelar de modo explícito como determinados fatos ocorreram torna ainda mais crível que elas sejam de fato personagens de uma cultura ancestral. No meio desse mar de divindades ainda sobra espaço para algumas referências pop que deixam o longa leve e divertido, como o crustáceo inspirado em David Bowie.

Essa mitologia polinésia talvez não fosse tão bem explorada se o roteiro e a direção não estivessem nas mãos de Clements e Musker. Os diretores parecem ter certa atração pelas histórias de diferentes culturas, o que no passado fez com que eles desenvolvessem filmes como “Aladdin” (mitos das Mil e uma Noites) e “A Princesa e o Sapo” (que levou a cultura afro-americana para os filmes da Disney). Ao conduzir essa aventura polinésia, a dupla se permite revisitar temas já vistos em seus trabalhos anteriores, como o embate interno da protagonista que duvida de suas próprias capacidades e a relação conturbada entre pais e filhos – e se essas temáticas possam soar batidas, é bom ressaltar que elas são bem trabalhadas e evitam quaisquer tipos de críticas em relação ao desenvolvimento das personagens.

É interessante notar que ainda nesta questão dos personagens, Moana é construída como uma jovem autossuficiente. Por mais que embarque em uma viagem com um semi-deus poderoso, ela é habilidosa e sempre que encontra algum problema, ela o resolve apenas com sua agilidade e inteligência. Não que Maui esteja ali de enfeite, ele tem um papel importante e também é bem explorado pela trama, mas mesmo com seus poderes, ele fica à sombra de Moana quando o assunto é salvar o oceano Pacífico.

Junto dos dois protagonistas, há a figura de Heihei, um frango pouco inteligente. Servindo de alívio cômico na maior parte da trama, ele consegue cativar o público e mesmo sendo quase inútil aos dois aventureiros, faz sua ausência ser sentida pelo espectador quando não está em cena. Em contrapartida, o porquinho Pua, que aparece nas imagens promocionais do filme, some na maior parte da narrativa – e isto é algo positivo, pois não haveria maior espaço para ele durante a trama.

O universo visual de “Moana” é um dos mais belos já criados bela Disney. As técnicas de animação são surpreendentes, desde os cabelos da protagonista, passando pelas ilhas paradisíacas do Pacífico, tudo é perfeito e chega a parecer real. O próprio oceano, que é um personagem no filme, é um dos grandes destaques visuais – e é provável que o trabalho dos animadores em criá-lo tenha sido exaustivo. Unido ao CGI, há pequenas sequências bem trabalhadas de animação 2D, além de momentos em que as tatuagens de Maui ganham vida e se manifestam como seres vivos à parte.

A trilha sonora, composta por canções de Lin-Manuel Miranda e Opetaia Foa’i, unidas a uma música instrumental de Mark Mancina, são um atrativo a parte. As canções não apenas estão organicamente encaixadas na história, como também são divertidas e unidas às músicas instrumentais, oferecem ao público um gosto da musicalidade polinésia – mais um elemento que torna “Moana” um filme tão singular em relação a outras animações.

É característico da Disney trabalhar com gêneros e sub-gêneros já conhecidos dentro do cinema, mas os adaptando para o ambiente da animação. Em “Zootopia”, por exemplo, a Disney fez um filme policial. Com “Moana”, o estúdio desenvolve sua aventura marítima de exploração, de modo que a história da jovem heroína é como a Odisséia da Disney. Não é a primeira vez que a Disney embarca em tal gênero narrativo, e os próprios diretores da “Moana” já tentaram desenvolver tal ideia em “Planeta do Tesouro” de 2002. Acontece que se a Disney errou antes por oferecer tramas muito adultas para agradar aos pequenos, e ao mesmo tempo muito simplórias para chamar a atenção dos mais velhos, com “Moana” o caso é diferente. Trata-se de uma obra realizada com tanto cuidado e cujo o resultado é tão charmoso, que não há público que se sinta incomodado.

Com momentos simbólicos, como uma cena que remete a um relato bíblico, “Moana” é o típico trabalho Disney feito para agradar toda a família de forma igual, mas com um gostinho de diversidade, e que tem tudo para ser um sucesso tão grande quanto foram “Frozen” ou “Zootopia”.

Observação final: o filme possuí uma (hilária) cena pós-créditos.

Crítica: O Que Está Por Vir

o-q-ta-por-virA vida da professora de filosofia Natalie (Isabelle Huppert) não é perfeita, mas ela parece acomodada com sua atual situação, vivendo em um apartamento junto de um marido frívolo e recebendo visitas ocasionais de seus dois filhos. Quando o marido de Natalie pede divorcio, pois conheceu uma outra pessoa, toda a rotina da professora muda e ela precisa repensar as decisões que tomou até aquele momento. Este é o enredo de “O Que Está Por Vir” (L’Avenir) um filme que trata da necessidade de aprender a se renovar diante das adversidades.

A narrativa é construída com calma e de modo orgânico, e assim como ocorre no dia a dia comum, não são apresentados avisos ou sinais em relação as transformações que ocorrerão na vida da protagonista. Uma conversa de negócios com uma editora de livros ou um telefonema em horário incomum servem como ponto de ignição para que Natalie se encontre em uma situação desnorteante. Tais acontecimentos da trama oferecem imprevisibilidade ao roteiro do filme e incitam a curiosidade de quem acompanha seu desenrolar.

Pouco a pouco, Natalie precisa se desprender das pessoas ao seu redor. Mesmo os entes com quem possui maior proximidade, como um aluno o qual ela ajudou no passado, em algum momento se mostrarão como seres arredios e serão afastados pela personagem. O caminho de Natalie é construído de modo ela se encontre livre de todos os tipos de pressão, porém, a liberdade da protagonista vem junto de angústias que o roteiro busca deixar obscuras, sendo expostas apenas no filme pela primorosa atuação de Huppert. Um simples olhar ou um movimento facial da atriz são o suficientes para que o espectador compreenda o que se passa na cabeça da professora e crie afeição pela personagem, ainda que ela nunca exponha verbalmente a maior parte de suas aflições.

O longa ainda é composto de algumas metáforas, como a da gata que acompanha Natalie durante boa parte da projeção e se coloca como um reflexo da figura da professora, pois as duas estão perdidas em seus lares. Além disto, a gata é mostrada como um animal com certa autonomia, a mesma autonomia que Natalie possui para conseguir se adaptar à sua forçada liberdade. A metáfora ainda se expande para o nome do animal, que é chamado de Pandora em referência à mítica personagem que abriu uma caixa com todos os males do mundo. Natalie é como Pandora, e embora não tenha aberto a caixa com os males por vontade própria, ela precisa se agarrar à sua esperança, uma das poucas coisas que lhe resta.

Sendo conduzido com delicadeza e de modo bastante palatável, “O Que Está Por Vir” é um filme que trata de problemas comuns e demonstra que mesmo em momentos de desespero, é possível encontrar uma saída e se adaptar a novas realidades.

Crítica: Ninguém Deseja a Noite

ninguem-deseja-a-noiteInicialmente, “Ninguém Deseja a Noite” (Nobody Wants the Night) parece que irá se desenvolver como os grandes filmes de aventura e sobrevivência, os quais colocam o homem em um embate feroz para superar obstáculos da natureza, porém, o caminho seguido pelo longa é um bem diferente. Este não é um filme sobre grandes homens aventureiros, é uma obra sobre grandes mulheres, cujo o cerne de seu desenvolvimento não está nas dificuldades que as protagonistas precisam enfrentar e sim no relacionamento que as duas desenvolvem durante a trama.

Dirigido por Isabel Coixet, o longa se baseia na história real de Josephine Peary (Juliette Binoche), esposa do explorador Robert Peary. Quando o marido de Josephine resolve embarcar em uma viagem para encontrar o ponto central do Polo Norte, ela decide esperar pelo seu retorno em um acampamento no meio do Ártico. Enquanto enfrenta o inverno polar, Josephine é acompanhada pela esquimó Allaka (Rinko Kikuchi), com quem Josephine mantém uma relação conturbada, pois ela sabe que Allaka também espera pelo retorno de Robert.

Há um jogo de dualidade e embate entre o povo “civilizado” e o povo “primitivo” personificados respectivamente por Josephine e Allaka. Enquanto uma é sofisticada e se acha superior ao restante do mundo (de modo que se torna até mesmo uma personagem caricata), a outra é simplória, possui um conhecimento real da natureza e não subestima a companheira – fato que inicialmente incomoda Josephine. Entretanto, se Josephine só vê Allaka como uma rival, o decorrer da história faz com que as duas criem um forte vínculo devido aos problemas que enfrentam, como se o mundo “civilizado” precisasse do “primitivo”, e vice-versa.

Ambas as protagonistas são trabalhas como representações de mulheres fortes, e mesmo caindo em clichês, o filme consegue construir organicamente as personagens, sem nunca precisar masculiniza-las – um erro comum quando se trata da construção de personagens femininas fortes. O filme só é questionável nesta questão em relação a motivação dessas duas mulheres, uma vez que ambas estão ali apenas para aguarda a chega de um homem, ou seja, se elas precisam demonstrar força, só o fazem na maior parte da narrativa porque esperam que o homem de seus sonhos retorne ao acampamento para salvá-las.

Como Josephine é o foco da narrativa na maior parte da projeção, a direção de Coixet passa um longo tempo desenvolvendo a personagem, expondo seus pensamentos e criando planos que revelam a situação de incomodo da mulher civilizada perante a natureza – e esses planos são de fatos belos e bem trabalhados, como aquele em que Josephine aparece com o vestido preto em frente a um deserto de neve, demonstrando como ela é diminuta em na imensidão polar. Se a direção acerta neste quesito, ela erra em outros, como a montagem do início da narrativa, em que filma cenas de diálogo simples com uma câmera na mão tremula, que parece querer proporcionar uma tensão desnecessária para tais sequências. O longa também prolonga de modo desnecessário o começo expositivo da narrativa, o que traz a impressão de uma história de demora a engatar.

Uma das principais atrações do filme é com certeza sua protagonista, mas é bom deixar claro que mesmo uma atriz como Juliette Binoche pode errar, e aqui ela passa perto disso. A interpretação inicial de sua Josephine é muito teatral, quase irreal para a personagem e o ambiente em que ela vive – e neste longa, naturalidade é imprescindível. Felizmente, a atriz consegue se reparar e conforme a trama avança, ela proporciona maior vigor a Josephine em suas cenas dramáticas. A outra face da moeda, Rinko Kikuchi oferece ao espectador uma Allaka cativante, mas um pouco ingênua demais devido ao roteiro na qual está presa, mas nada que comprometa a atuação da atriz.

“Ninguém Deseja a Noite” é um filme interessante sobre relacionamentos pessoais e que trata desse encontro entre duas mentalidades opostas, mas que se prolonga demais e se prende a tropos desnecessários. Seu resultado satisfatório pode acabar obscurecido por pequenos problemas que poderiam aqui ter sido melhor trabalhados.

Crítica: Estados Unidos Pelo Amor

estados-unidos-do-loveHá uma linha tênue entre o amor e o desejo (carnal) de modo que é comum que um se confunda com o outro. Talvez seja por este motivo que o drama polonês “Estados Unidos Pelo Amor” (Zjednoczone stany miłości) utilize o amor no título quando desenvolve uma narrativa que aborda os diferentes anseios sexuais de um grupo de mulheres.

Sendo ambientado durante a década de 1990 na Polônia, logo após o fim do governo comunista, o longa dirigido e roteirizado por Tomasz Wasilewski segue o cotidiano da jovem Agata (Julia Kijowska) que está presa a um casamento infeliz; os dramas de Iza (Magdalena Cielecka) uma professora que se envolve com o pai de uma de suas alunas; e por fim a vida de Renata (Dorota Kolak), uma professora já idosa que possui uma fixação por Marzena (Marta Nieradkiewicz), sua vizinha.

As protagonistas (e no caso aqui me refiro apenas a Agata, Iza e Renata) não possuem intimidade umas com as outras e a trajetória pessoal delas é contada uma de cada vez, como se o filme fosse dividido em três partes. Aparentemente seria um empecilho unificar cada história dessas três mulheres em um único longa, mas tal problema é transformado pelo ótimo roteiro de Wasilewski em uma ferramenta narrativa, uma vez que são aplicadas pequenas sequências de referência durante o longa que não apenas uniformizam a obra, como também situam o espectador em relação a temporalidade do longa (o filme vai e volta em sua cronologia). A temática do amor/desejo que envolve a produção como um todo é outro artifício usado com maestria por Wasilewski.

É importante ressaltar a capacidade do diretor em conduzir imageticamente seu longa. Optando por uma fotografia com cores frias, por planos em sua maioria estáticos e pela ausência quase completa de música, a direção transmite ao espectador a sensação de frieza experimentada pelas personagens em suas vidas vazias. E mesmo quando elas buscam satisfazer seus desejos, a estética não muda, pois os desejos proibidos nunca podem ser alcançados por completo.

Grande parte da identificação que o público cria com as três mulheres foco da narrativa se deve não apenas ao roteiro, mas também ao ótimo elenco que as encarna. A frigidez de Agata, por exemplo, é muito bem retratada por Kijowska, que controla seus movimentos e quase sempre desvia o olhar quando sua personagem está diante do marido – a expressão de desejo, com a boca levemente aberta da personagem só surge nas sequências em que Agata vigia o padre pelo qual sente atração. Cielecka, por sua vez, cria uma Iza de personalidade forte, que claramente fará tudo para alcançar seus objetivos – e aqui o único problema é a personagem ficar presa a um homem, fazendo com que a atriz precise alternar entre a personalidade forte de Iza e a sua faceta submissa apresentada quando ela está junto do amante. Já a Renata de Kolak é construída como personagem mais frágil, porém não menos esperta, e a atriz sabe bem como expor isto ao espectador com um olhar nervoso de quem espera ansiosamente que um determinado plano para se aproximar da pessoa amada se concretize.

Uma quarta personagem feminina também faz parte do longa: Marzena, que é irmã de Iza, amiga de Agata e objeto de desejo de Renata. Embora nunca receba o mesmo tratamento que as outras personagens, tendo sua história narrada pelo seu ponto de vista, Marzena está presente no filme do seu início ao fim, com sua rotina sendo exposta ao espectador a medida que ela se relaciona com as três mulheres que guiam a obra. A personagem cresce conforme o longa se desenrola, e com a união do roteiro e a atuação de Nieradkiewicz, Marzena vai se tornando uma personagem multifacetada e com uma história de vida intrigante, sendo ao final uma pena que ela nunca receba a chance de ser uma protagonista.

“Estados Unidos Pelo Amor” nunca realmente finaliza as histórias de suas personagens, deixando sempre ganchos narrativos para seu espectador (alguns bastante provocativos, que trazem uma sensação de vazio e de “quero mais” para quem assiste). Por tal motivo, o filme pode ser um pouco frustrante, embora a experiência que proporciona é agradável e oferece reflexões acima das atitudes humanas que são geradas quando se busca alcançar o amor de uma pessoa.

Crítica: Kubo e as Cordas Mágicas

kuboKUBO É UMA OBRA MADURA E PROVA DO TRABALHO TÉCNICO INCRÍVEL DA LAIKA

Cada filme do estúdio Laika presenteia o público com uma animação de qualidade impecável e roteiro cativante. Entretanto, é muito provável que nenhuma produção anterior do estúdio tenha sido tão difícil de ser realizada quanto “Kubo e as Cordas Mágicas” (Kubo and the Two Strings), um fato que se deve à complexidade técnica exigida pelo longa.

Seguindo uma estética que toma como base pinturas japonesas, o longa que acompanha a busca do jovem Kubo por três  artefatos mágicos é uma aventura cheia de sequências de ação. Somente as magníficas cenas de luta no ar, que lembram batalhas de animes, já seriam trabalhosas o bastante para serem realizadas em animação stop-motion. Porém, o filme ainda explora ambientações e personagens gigantescos, tão ricos em detalhes que o esforço necessário para que eles se tornem reais é ainda maior, sendo essencial o emprego de uma fotografia fenomenal durante a concretização desses elementos.

Não é à toa que para que todas as sequências do filme fossem possíveis, o estúdio teve que em determinados momentos unir o stop-motion à outras técnicas de animação, como o CGI (já comumente usado em produções anteriores) e os desenhos feitos à mão. Trata-se de um trabalho artístico de dar inveja a qualquer animador da Disney e da Pixar, e que deve ter sido tão cansativo quanto a jornada do protagonista da animação. Todo esses esforço técnico é acompanhado de uma história tocante e cheia de simbolismos – como o símbolo do olho que revela o conhecimento e a sabedoria – e que envolve perda e aceitação.

Trabalho de estreia na direção de Travis Knight (animador presidente da Laika), é muito provável que Knight já tenha aberto o estúdio tendo em mente o desenvolvimento de “Kubo”, como se os outros projetos fossem testes para a produção deste último, uma vez que o diretor não economiza em efeitos nas ótimas sequências de ação que dirige. Ele oferece ao público uma das narrativas mais maduras do estúdio, ainda que peque em alguns detalhes do seu desenvolvimento.

Enquanto o 1º ato expõe eficientemente o tom sério do filme, o início do 2º ato se mostra confuso em sua necessidade de apresentar personagens secundários de forma rápida – como é o caso da Macaca e do Besouro que acompanham Kubo – fazendo parecer que o protagonistas já conhece seus novos companheiros há um longo tempo. Quando o espectador se acostuma a esses novos personagens, o longa ganha maior veracidade, mas não sem antes apelar para algumas saídas fáceis para as adversidades nas quais coloca seus protagonistas. Há também um uso excessivo de fades e os plot-twists do roteiro são um tanto previsíveis, mas nada que prejudique o filme como um todo. O maior problema, talvez, seja a dureza e seriedade do história do longa, que pode afastar as crianças mais novas, ainda que traga sequências cômicas cativantes. Crianças maiores e adultos, entretanto, irão se divertir bastante.

Um fator interessante é o respeito à cultura japonesa, com o filme expondo diferentes elementos da sociedade oriental, como o uso da técnica dos origamis durante a narrativa e a ideia de um Rei da Lua – na mitologia japonesa o deus da Lua é masculino. A trilha sonora inspirada na musicalidade do Japão também é muito bem executada, e o longa não deixa de utilizar alguns momentos de silêncio tocantes – algo que o diretor deve ter pego emprestado de grandes realizadores japoneses, como Kurosawa.

Surpreendente por tratar de temas pouco usuais dentro do mundo das animações norte-americanas e por se apresentar como um tributo às produções orientais, “Kubo e as Cordas Mágicas” é apaixonante e mais um grandioso trabalho para a lista de produções da Laika.