Crítica: A Tartaruga Vermelha

a-tartaruga-da-urssANIMAÇÃO POÉTICA TRAZ UMA FORTE MENSAGEM DE AMOR

Um fato interessante sobre a arte em geral é a sua capacidade de transmitir mensagens e evocar sentimentos com o uso de códigos de entendimento universal. Deste modo, uma música pode nos deixar alegre, mesmo que não compreendamos o significa de sua letra, e um quadro pode nos fazer chorar ilustrando imagens fora de nossa realidade. Na linguagem do cinema, temos a união de música e imagem em movimento para a propagação de narrativas, e o diretor Michael Dudok de Wit parece compreender que esses dois elementos bastam para a construção de uma obra que pode ser apreciada em qualquer lugar do mundo. Sem buscar expor sua narrativa em diálogos, de Wit constrói seu primeiro longa-metragem, “A Tartaruga Vermelha” (La tortue rouge) quase como um filme da época do cinema mudo, no qual as imagens e os sons são a ponte para que o espectador adentre esta história.

Produzida pelo famoso estúdio Studio Ghibli em conjunto com o Wild Bunch e o Why Not Productions, a animação “A Tartaruga Vermelha” retrata a vida de um homem (o qual nunca sabemos seu nome) que após se perder no mar, chega a uma pequena ilha deserta. Em suas tentativas de fugir do local, ele acaba sendo frustrado por um enorme tartaruga vermelha. Com raiva, o homem mata o animal, que após a sua morte, se transforma em uma mulher de cabelos vermelhos.

O aspecto visual do longa é construído com uma simplicidade no traço e elegância em seus detalhes. A ilha e seus personagens são tão bem constituídos, que é fácil reconhecer cada particularidade de sua composição, mesmo quando a narrativa se passa em períodos noturnos, no qual a cor dos cenários e personagens é substituída por tons de cinza. Aspectos sonoros como sons de passos e do mar oferecem verossimilhança a uma história fantástica que é como uma alegoria das relações humanas.

A bela trilha sonora de Laurent Perez Del Mar surge em momentos pontuais da narrativa, oferecendo características poéticas a este filme que não tem medo de fugir totalmente do que conhecemos como real e adentra em um mundo onírico (a sequência do sonho do homem é uma das mais bela do filme). A música conta parte da história e se em determinado momento ela toca, sabemos, com auxílio das imagens, o que os personagens ali presentes pensam – e por isso o filme não precisa se debruçar por um longo tempo em tentar explicar como se desenvolve a relação entre o homem e a mulher de cabelos vermelhos. Se tudo por um momento parece rápido, é devido ao fato de que música e imagem já nos deram todos os elementos que precisávamos para compreender uma determinada situação e os desejos que envolvem os personagens.

O drama fantástico da narrativa de “A Tartaruga Vermelha” é altamente envolvente devido aos seus personagens realistas. Por mais que o homem e a mulher estejam inseridos num universo mágico, e passem por eventos extraordinários, é difícil não enxergá-los como pessoas reais, principalmente o homem, pois acompanhamos um crescimento magnífico da personagem, no qual o seu individualismo é vencido pelo desejo de amar e ser amado. Com uma imensa delicadeza, “A Tartaruga Vermelha” é uma obra-prima da animação, capaz de tocar até mesmo os corações mais duros com sua trama cheia de amor e afeto.

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