Crítica: Martírio

Por quase 30 anos, Vincent Carelli tem documentado a vida da população indígena do Brasil e exposto os problemas por ela enfrentados. E mesmo após todo esse tempo, é notável que a vida desta parte do povo brasileiro pouco mudou e as questões que envolvem suas lutas pela ocupação das terras são cada vez mais preocupantes – basta procurar notícias que envolvam indígenas na internet para ter noção do que essa população tem passado. Em “Martírio”, Carelli volta sua atenção para as tribos de índios Guarani Kaiowá, habitantes do centro-oeste em constante conflito com fazendeiros da região.

Ao trazer uma abordagem que envolve uma exposição da história dos índios no Brasil mesclada com momentos da documentação obtida pro Carelli durante sua vivência com a tribo, o longa consegue expor diferentes situações e problemas relacionados à demarcação de terras indígenas. Fatos históricos surgem em contraponto com o modo de vida dos índios, possibilitando-nos conhecer um pouco melhor o desenvolvimento de certos preconceitos que são inferidos à população indígena – como a ideia errônea de que os índios são parte aculturada e não civilizada do povo brasileiro.

Por meio das visitas às tribos e entrevistas gravadas, Carelli oferece ao espectador o encontro a diferentes personagens que narram cada um os adversidades passadas por suas famílias e suas tribos. Interessante notar como o diretor consegue costurar as narrativas desses personagens com acontecimentos conhecidos dos livros históricos, como a Guerra do Paraguai, expandido nossa visão em relação à vida e história dos índios. De fato, um dos grandes trunfos do longa é expor toda a complexidade que envolve um problema muitas vezes menosprezado por parte da população do nosso país.

O documentário não apenas volta seu olhar para os indígenas, mas também realiza entrevista e expõe depoimentos dos fazendeiros e políticos que enfrentam os índios. Aqui há um esforço da direção em ressaltar as características antagônicas dessas pessoas. Trata-se de uma atitude desnecessária, uma vez que as falas cheias de preconceito e ignorância já expõem o caráter repreensível dessas pessoas, sem a necessidade de transforma-las em vilãs – ainda mais quando se tem um problema tão complexo quanto este vivenciado pelos indígenas.

A cultura do povo Guarani Kaiowá também é bastante referenciada, e ainda que este não seja o ponto principal do longa, o documentário mostra como é necessário conhecer o estilo de vida e as crenças do outro – e com isto o filme parece querer evitar que ocorra a disseminação de pré-julgamentos. Há momentos em “Martírio” que são difíceis de ver, mas não porque o filme erre, e sim pelo fato do filme expor situações tristes ou de grande tensão. São situações capazes de deixar o espectador alarmado, mas que também propiciam o desenvolvimento da afeição com a causa indígena.

Oferecer voz aos índios Guarani Kaiowa é o principal mérito de “Martírio”, um filme capaz de se mostrar atual ainda por muitos anos e que deve ser visto.

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