Crítica: Os Smurfs e a Vila Perdida

NOVA ANIMAÇÃO DOS SMURFS É BEM INTENCIONADA, MAS PECA EM SEU DESENVOLVIMENTO NARRATIVO

Após duas aventuras em live-action nos cinemas, os smurfs, os adoráveis homenzinhos azuis criados pelo belga Peyo, ganham um novo longa-metragem totalmente em animação 3D – uma mudança que deve ter sido feita pela Sony Pictures Animation após a má recepção das duas primeiras obras com atores. “Os Smurfs e a Vila Perdida” (Smurfs: The Lost Village) funciona como um reboot para os homens azuis no cinema, tendo seu elenco de vozes renovado e um novo design para seus personagens, o que os torna muito mais condizentes com o universo animado dessa aventura.

O foco da trama da animação é Smurfette, que como única garota da vila dos smurfs e tendo sido criada originalmente pelo vilão Gargamel, tenta descobrir qual característica a torna especial. Como todos os Smurfs possuem um nome que designa seu traço único (o smurf inteligente é o Gênio, o forte é o Robusto, etc.), Smurfette busca decifrar o significado do seu “ette”, o que a leva a encontrar um novo Smurf misterioso e em seguida a ser capturada por Gargamel. Descobrindo pistas da existência de uma vila perdida de smurfs através do caldeirão de Gargamel, Smurfette, junto de outros três smurfs, resolve ir atrás da tal vila para avisar seus residentes da ameaça do malvado feiticeiro.

O filme parece ter consciência de uma das maiores críticas em torno dos smurfs, que trata da ausência de personagens femininas nas histórias dos homens azuis (o que deu origem a um conceito chamado “Princípio Smurfette” na cultura pop), dando assim o protagonismo à principal personagem mulher do grupo e inserindo outras garotas na narrativa. Entretanto, surge a questão do “para que isto?” uma vez que o filme não sabe como trabalhar com Smurfette. A todo o momento, a personagem é salva por homens ou é colocada à sombra dos mesmos quando surge algum perigo, além de ter de aturar as investidas e elogios pouco sutis do smurf Robusto – algo um tanto quanto estranho em questão de representatividade em um longa com roteiro encabeçado por duas mulheres.

Quando Smurfette finalmente toma para si o papel de heroína, é de maneira tardia e com uma atitude pouco criativa. É como se o filme quisesse mostrar algum empoderamento para seu público feminino, mas sem querer deixar o masculino constrangido – e em um mundo com obras empoderadoras como “Zootopia” e “Moana”, apenas para citar casos recentes, esta é uma atitude pouco eficiente.

O roteiro também se perde ao não saber como equilibrar o foco que hora está em Smurfette, hora está na busca pela vila perdida, criando uma confusão no desenvolvimento da história. As piadas são no geral pouco eficientes, com muitas se apoiando em gags visuais sem criatividade (a não ser pelos efeitos 2D que as acompanham), ou em frases feitas como “Eu sou velho, mas não sou cego” que dificilmente vão fazer alguém com mais de 7 anos de idade rir. Os personagens, porém, são um ponto positivo da narrativa que, mesmo se apoiando nos aspectos unidimensionais de cada um, consegue torná-los carismáticos perante o público geral (com destaque especial para Gargamel e o gato Cruel).

Se há um elemento do longa que enche os olhos é seu design de produção, que apresenta personagens bem detalhados em belas paisagens de cores vibrantes condizentes com esse universo lúdico dos smurfs. A animação é bem fluída e ágil, uma característica que tem se mostrado como um diferencial para a Sony Pictures Animation em relação à concorrência, sendo novamente bem empregada para trazer aquela sensação de desenho animado da década de 1980/90. O filme também apresenta uma ótima trilha original composta por Christopher Lennertz capaz de conferir singularidade à narrativa, mas peca ao substituir os belos acordes de Lennertz por músicas pop numa tentativa falha de modernização do universo smurf.

É notável que “Os Smurfs e a Vila Perdida” apresenta boas intenções narrativas, mas o modo como elas são aplicadas é insatisfatório, e sem uma grande história ou elementos cômicos eficientes, o filme não consegue de destacar em meio a tantas animações inovadoras. Os menores irão se divertir, mas qualquer criança maior ou adulto que acompanhe seus filhos infelizmente acabará aborrecido com os problemas da produção.

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