Crítica: Una

Nunca antes parece ter havido tanto debate em relação a casos de assédio sexual contra mulheres. E isto não acontece apenas no Brasil, que tem dado relevância para tal discussão após as acusações de assédio contra José Mayer, pois em outros países cada vez mais mulheres tem denunciado situações de abuso. Deste modo, o filme “Una” chega aos cinemas em momento bastante propício por abordar tal tema e possibilitar que o debate continue. O problema se encontra na fórmula aplicada pelo filme para desenvolver o assunto.

O longa se foca em Una (Rooney Mara), que foi abusada sexualmente por um vizinho ainda criança. O caso foi investigado pela polícia e o vizinho acabou cumprindo uma pena baixa. Adulta, ela descobre o novo local de trabalho de Ray (Ben Mendelsohn), seu abusador, e resolve visitá-lo para tirar algumas satisfações sobre o ocorrido.

A tensão que envolve a narrativa é escancarada logo no primeiro encontro entre Una e Ray. A direção de Benedict Andrews reforçam essa tensão ao utilizar de trilha sonora que causa estranheza ao espectador, pois mistura uma composição instrumental com música eletrônica. Acontece que este aspecto estranho não é encontrado nos diálogos, nas atuações e nem no modo como Andrews filma. É como se o diretor não soubesse alinhar bem essas diversas características com o caráter estranho que propõe. Apenas a montagem converge em harmonia com a estranheza da trilha.

O roteiro deixa a desejar na exposição do abuso e da pedofilia, pois há demasiada romantização. Não que seja impossível que Una, em sua juventude, realmente tivesse se apaixonado por Ray, mas o roteiro faz parecer que a relação dos dois é  natural e que a garota tem total consciência do que faz (como se garotas de 13 anos tivessem tanta maturidade quanto homens de 40).

Além disto, Una é construída de forma que a faz parecer uma louca. Ela é posta como um psicótica que, por ainda manter aquela paixão juvenil por seu abusador, agora retorna na busca por destruir tudo aquilo que ele “construiu”. Nem mesmo Rooney Mara, que tenta dar mais densidade à personagem, deixa de cair nessa armadilha do roteiro e transformar Una em uma jovem com sérios problemas para discernir paixão de loucura.

Una é colocada flertando com outros homens durante o longa, numa tentativa de apaziguar essa visão imatura da personagem. Não funciona, principalmente quando o filme continua reforçando que aquela mulher ainda tem remanescências da garota pura de 13 anos a partir de detalhes com a cor de sua roupa em uma festa – branca, a cor da total pureza. Engraçado ainda como, apesar de Una ser colocada como pueril, o filme não deixa de enquadra-la em posições que ressaltam sua sexualidade e sua fragilidade perante um homem.

Acaba sendo fácil não se afeiçoar a Una e assumir as dores de Ray – muito bem interpretado por Mendelsohn – principalmente quando o roteiro da grande voz para o personagem masculino. Todas as acusações de Una são rapidamente rebatidas por Ray e o filme faz parecer que há uma justificativa pela atitude do homem, que merece a todo custo a perdão. Não que seja impossível que pessoas que tiveram atitudes como a de Ray não se arrependessem de seus atos, pois humanos são complexos e erram. Acontece que o modo como “Una” demonstra isto transforma Ray numa vítima – e se ele é a vítima, é fácil culpar a personagem feminina pela sua desgraçada.

“Una” é um filme atual, não há dúvida, mas tratar o abuso do modo como esta obra o trata é reforçar ideias de que a mulher possui culpa pelas atitudes do homem. E em um mundo onde todo relato de abuso é questionado, isto é algo muito perigoso.

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