Análise: Power Rangers: Legacy Wars

Análise originalmente publicada no site Pulo Duplo.

Um fato em relação aos jogos da série Power Rangers é que eles sobrevivem devido ao seu valor nostálgico, o qual atinge principalmente aqueles nascidos durante os anos 90. Os jogos da franquia após a época dos beat’em up de Super Nintendo, ou os games de luta de Mega Drive, são em geral bastante fracos, curtos e alguns possuem uma mecânica terrível e sem graça (eu estou falando de você, Ninja Storm para GBA) e somente valem a pena pela nostalgia que trazem.

A Saban, dona da franquia, conhece bem esse saudosismo causado por seus personagens. No momento de investir em um game mobile para a série, trouxe de volta os rangers mais antigos da franquia, junto, claro, dos protagonistas das temporadas atuais do seriado.

O jogo em questão é Power Rangers: Legacy Wars, desenvolvido pela nWay Games e disponível gratuitamente (com microtransações opcionais) para Android e iOS. O lançamento do jogo coincidiu com o do novo filme para cinema, de forma que ele também pode ser visto como objeto de marketing, e chegou ao Brasil totalmente em português, ainda que com alguns errinhos de tradução que não prejudicam a jogatina.

Na história, que ainda não foi aprofundada, Rita Repulsa (a do filme), toma conta da rede de morfagem de Zordon e com isto consegue manipular os diversos rangers através do espaço e do tempo (o que lembra um pouco a narrativa de Power Rangers: Super Legends de PS2 e PC). A partir deste ponto, o jogador tem acesso a diferentes rangers que se confrontam em um game de luta online.

Formando o seu time

Legacy Wars, tem se vendido como o jogo que reúne os heróis e vilões mais icônicos da série com os novos do longa-metragem. De fato, ele faz isso, pois traz os seis rangers originais da temporada Mighty Morphin e os cinco rangers do filme. O problema é que a premissa dá a entender que oferecerá a oportunidade de o jogador interagir com personagens de diversas temporadas, o que não acontece de fato. Mesmo com mais de 20 anos de existência, o foco é dado somente aos rangers da chamada “Era Zordon” (de Mighty Morphin a No Espaço), e em alguns poucos heróis da temporada Samurai em diante (sendo alguns bastante esquecíveis, como o Robo Knight de Mega Força). Somente Danny Delgado de Força Animal foge a essa regra.

Se o jogo carece de personagens, ao menos os desenvolvedores se deram ao trabalho de oferecer características próprias a cada um dos heróis em sua movimentação e ataques. Por exemplo, Trini de Mighty Morphin se move de forma similar a um felino ao usar suas adagas, como uma espécie de Mulher-Gato dos Power Rangers; enquanto Danny Delgado, cujo o símbolo é o touro, realiza ataques que remetem aos movimentos de um bovino.

O jogador deve montar uma equipe de três rangers, sendo um líder e dois assistentes. No começo do jogo, tem-se acesso a apenas alguns poucos heróis inspirados no longa de cinema, mas conforme se progride no rank de lutas online, é possível receber “caixas de morfagem” que guardam cristais para liberar novos personagens. É importante que o jogador preste atenção ao montar a sua equipe, pois os personagens escolhidos interferem nos ataques e na vida durante uma batalha. Quanto mais batalhas vencidas, mais se ganha “medalhas”, que possibilitam que se alcance “ligas” com jogadores mais experientes, as quais guardam consigo os heróis mais raros. Perder uma luta também faz com que se percam medalhas.

Evoluindo na batalha

A estratégia de progressão é interessante, mas às vezes pode ser bastante cruel para os jogadores que não pagam por conteúdo adicional e os desilude a continuar jogando. Isto ocorre por diversos motivos. O primeiro são as caixas de morfagem. Um jogador só pode ter quatro caixas ao mesmo tempo, e elas demoram no mínimo três horas para abrir, mas se você pagar, pode conseguir cristais para abri-las antes (sendo também possível conseguir caixas com heróis mais raros quando se paga por elas).

Há também as moedas (que novamente, podem ser compradas), itens essenciais para a progressão de nível dos personagens. No começo, é fácil fazer com que um ranger vá do nível um para o dois com apenas cinco moedas, mas do quatro em diante o jogo começa a pedir mais de 150 moedas ao jogador. Acontece que as moedas são obtidas pelas caixas e ao se vencer as lutas, e vêm em quantidades reduzidas. Há aqui um estímulo para que o jogador continue jogando e consiga mais moedas, porém, isto bate de frente com o limite de quatro caixas que o jogador pode ter. Para que se arriscar em uma luta – que pode acarretar na perda de medalhas caso haja uma derrota – por míseras seis moedas e nenhuma caixa?

As mecânicas e o balanceamento de Legacy Wars

O lado da mecânica é bastante atrativo. Ao contrário de outros games de luta mobile que consistem em ficar batendo com o dedo na tela do celular, Legacy Wars exige que os jogadores selecionem movimentos (similares a cartas) que podem ser efetuados pelos heróis a partir de uma pequena lista exposta no canto inferior da tela. Cada movimento consome um pouco de poder (stamina) do personagem, e deve-se ficar de olho em relação ao timing certo para se atacar e defender de um inimigo. Há, porém, os pequenos bugs que fazem com que ataques que deveriam ser mais próximos atinjam inimigos que estão mais ao longe, e problemas na hora de se conseguir defender ou contra-atacar um golpe. Felizmente, a mecânica que permite que se desvie de projéteis sempre funciona.

Outra questão importante é o balanceamento dos personagens que, por vezes, desregular. Há uma divisão de heróis mais comuns e aqueles raros e lendários, mas alguns personagens são mais poderosos ou possuem mais vida do que outros do mesmo nível e da mesma “casta”. Por exemplo: a ranger vermelha de Samurai colocada como assistente em seu nível três possui um ataque maior que a ranger roxa de Dino Charge, ainda que as duas sejam personagens raras e apresentem mesma quantia de vida.

Como todo jogo online, há o problema da queda de comunicação ou abandono de partidas. Não há uma real punição para isto, sendo que a única atitude do jogo é fazer com que a luta continue e dê a inevitável vitória ao jogador restante e uma derrota ao desistente. Já em relação ao tempo de espera para uma luta, o jogo parece ter usuários o suficiente para começar partidas em menos de um minuto.

Os gráficos do game são bem feitos para um mobile, ainda que as animações pareçam estranhas, e rodam muito bem mesmo no celular. Há, porém, um erro que faz com que quase sempre o jogador perdedor de uma luta não caía no chão ao fim da partida, e fique flutuando arqueado sobre o solo. É um erro bobo, mas que chama a atenção pelo fato de ainda não ter sido corrigido, mesmo o game tendo quase dois meses de existência e tendo passado por atualizações.

No geral, Power Rangers: Legacy Wars parece um protótipo, carecendo de mais personagens interessantes e precisa de mais funcionalidades que deverão chegar em breve, como a possibilidade de se fazer disputadas com amigos online que já foi anunciada. É um game que precisa crescer, mas pode agradar aos fãs antigos da franquia. Só é difícil que com seus problemas, ele chame a atenção de quem pouco conhece os Power Rangers. Quem sabe no futuro possa se dizer que esse seja um jogo digno desses heróis lendários.

Artigo: O eterno retorno de Termina

Artigo originalmente publicado no site Pulo Duplo

Em diversas sociedades arcaicas são encontrados rituais e mitos que trabalham com a ideia de um tempo cíclico, um tempo que morre para dar início a um novo período cósmico. Isto foi percebido pelo mitólogo Mircea Eliade, que em seu livro “O Mito do Eterno Retorno” se debruça sobre as atividades e narrativas arcaicas que são repetidas ou recontadas pela sociedade e revelam o aspecto circular da temporalidade na visão humana.

O Ragnarök nórdico é um exemplo deste tipo de mito, pois, apesar de narrar a trágica morte de diversos deuses, ao seu final, relata o nascimento de uma nova terra, uma nova raça humana, que sobreviverá guiada pelo deus renascido Baldur.

No mito do eterno retorno, morte e vida estão ligados. O tempo é finito porque acaba, mas é cíclico ao revelar o nascimento de uma nova época para a humanidade. São ideias de civilizações antigas que continuam vivas ainda hoje em nossa cultura através dos meios de comunicação e das obras de arte.

Um jogo como The Legend of Zelda: Majora’s Mask expõe bem os conceitos do eterno retorno. A mecânica em si já é cíclica, com final e recomeço, no momento em que possibilita que o jogador retorne com Link ao passado para refazer seus passos. É uma nova chance que surge quando se encontra perto do catastrófico fim prenunciado pela queda da Lua na terra de Termina.

A Lua de Majora’s Mask, aliás, é um elemento importante da simbologia aqui exposta. Nas civilizações arcaicas, o astro lunar, com suas diversas fases, possibilitava a contagem do tempo e revelava esse eterno retorno: a lua cheia sempre voltará, após ter desaparecido no período da lua nova. Foi bastante coerente por parte da equipe da Nintendo – ainda que muito provavelmente de forma inconsciente – dar tamanha evidência à lua em uma narrativa circular como a proposta pelo game, pois o simbolismo lunar permeia toda a obra.

A inserção da Lua como antagonista que irá despencar do céu, também relaciona esse objeto ao medo humano da queda dos seres celestes. Não é incomum que em mitos de fim do mundo surjam descrições que narrem a queda de estrelas – o próprio Ragnarök apresenta isso.

Além da morte, do fim catastrófico, o mito do eterno retorno é também uma narrativa sobre renovação da vida. É isto que ocorre em Termina ao final de Majora’s Mask. Talvez não ocorra o surgimento de uma nova terra paradisíaca como em outros históricas míticas, pois quem renasce e se renova são os próprios personagens do game.

Todo personagem com quem Link (o jogador) tem contato durante a história, ao final terá sua vida modificada, como é o caso do casal de noivos, que podem ter seu amor revivido com a ajuda do protagonista. O próprio Skull Kid passa por um processo de similar ao se livrar da máscara que lhe faz mal e recuperar a amizade perdida dos quatro gigantes.

A ciclicidade de Majora’s Mask é ainda notada pela forma como o mapa de Termina é apresentado: um círculo que está relacionado com a ideia de que aquela é uma cidade relógio. Talvez um dos fatos que faça desse jogo um dos mais populares da série Zelda, seja justamente o modo como a obra se alinha com a ideia do mito do eterno retorno. Trata-se de uma percepção sobre morte e vida presente na mente humana desde seus primórdios, com rituais de renovação e narrativas apocalípticas. Ao se reencontrar os simbolismos do eterno retorno em Majora’s Mask, o jogo se torna ainda mais poético do que ele já o é, e seduz seus jogadores com ideias tão intricadas à cultura humana.