Artigo: O eterno retorno de Termina

Artigo originalmente publicado no site Pulo Duplo

Em diversas sociedades arcaicas são encontrados rituais e mitos que trabalham com a ideia de um tempo cíclico, um tempo que morre para dar início a um novo período cósmico. Isto foi percebido pelo mitólogo Mircea Eliade, que em seu livro “O Mito do Eterno Retorno” se debruça sobre as atividades e narrativas arcaicas que são repetidas ou recontadas pela sociedade e revelam o aspecto circular da temporalidade na visão humana.

O Ragnarök nórdico é um exemplo deste tipo de mito, pois, apesar de narrar a trágica morte de diversos deuses, ao seu final, relata o nascimento de uma nova terra, uma nova raça humana, que sobreviverá guiada pelo deus renascido Baldur.

No mito do eterno retorno, morte e vida estão ligados. O tempo é finito porque acaba, mas é cíclico ao revelar o nascimento de uma nova época para a humanidade. São ideias de civilizações antigas que continuam vivas ainda hoje em nossa cultura através dos meios de comunicação e das obras de arte.

Um jogo como The Legend of Zelda: Majora’s Mask expõe bem os conceitos do eterno retorno. A mecânica em si já é cíclica, com final e recomeço, no momento em que possibilita que o jogador retorne com Link ao passado para refazer seus passos. É uma nova chance que surge quando se encontra perto do catastrófico fim prenunciado pela queda da Lua na terra de Termina.

A Lua de Majora’s Mask, aliás, é um elemento importante da simbologia aqui exposta. Nas civilizações arcaicas, o astro lunar, com suas diversas fases, possibilitava a contagem do tempo e revelava esse eterno retorno: a lua cheia sempre voltará, após ter desaparecido no período da lua nova. Foi bastante coerente por parte da equipe da Nintendo – ainda que muito provavelmente de forma inconsciente – dar tamanha evidência à lua em uma narrativa circular como a proposta pelo game, pois o simbolismo lunar permeia toda a obra.

A inserção da Lua como antagonista que irá despencar do céu, também relaciona esse objeto ao medo humano da queda dos seres celestes. Não é incomum que em mitos de fim do mundo surjam descrições que narrem a queda de estrelas – o próprio Ragnarök apresenta isso.

Além da morte, do fim catastrófico, o mito do eterno retorno é também uma narrativa sobre renovação da vida. É isto que ocorre em Termina ao final de Majora’s Mask. Talvez não ocorra o surgimento de uma nova terra paradisíaca como em outros históricas míticas, pois quem renasce e se renova são os próprios personagens do game.

Todo personagem com quem Link (o jogador) tem contato durante a história, ao final terá sua vida modificada, como é o caso do casal de noivos, que podem ter seu amor revivido com a ajuda do protagonista. O próprio Skull Kid passa por um processo de similar ao se livrar da máscara que lhe faz mal e recuperar a amizade perdida dos quatro gigantes.

A ciclicidade de Majora’s Mask é ainda notada pela forma como o mapa de Termina é apresentado: um círculo que está relacionado com a ideia de que aquela é uma cidade relógio. Talvez um dos fatos que faça desse jogo um dos mais populares da série Zelda, seja justamente o modo como a obra se alinha com a ideia do mito do eterno retorno. Trata-se de uma percepção sobre morte e vida presente na mente humana desde seus primórdios, com rituais de renovação e narrativas apocalípticas. Ao se reencontrar os simbolismos do eterno retorno em Majora’s Mask, o jogo se torna ainda mais poético do que ele já o é, e seduz seus jogadores com ideias tão intricadas à cultura humana.

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