Crítica: Lino – Uma Aventura de Sete Vidas

ANIMAÇÃO NACIONAL SE BENEFICIA DE ÓTIMA TÉCNICA, MAS NÃO SURPREENDE COM SUA HISTÓRIA

Um desavisado pode achar que “Lino” é mais um blockbuster animado norte-americano. De fato, em termos técnicos, esta produção nacional não deixa a desejar em relação aos concorrentes estrangeiros, sendo um exemplar de como a animação brasileira cresceu até aqui. Entretanto, o novo filme do StartAnima (um dos mais importantes estúdios de animação do país, responsável pelo já clássico ‘O Grilo Feliz’) também revela uma série de pequenas falhas que comprometem sua narrativa.

“Lino” segue o protagonista homônimo (Selton Mello), um rapaz azarado que trabalha como animador de festas infantis vestindo uma fantasia de gato rosa, uma profissão que ele detesta. Na busca por mudar de vida, ele busca um feiticeiro pouco confiável que o acaba transformando no gato de sua fantasia. A situação do moço piora quando ele é acusado de um crime que não cometeu e começa a ser perseguido pela polícia.

A animação apresenta ótima fluidez e, mesmo não possuindo detalhes como texturas e pelugens mega realistas, é digna de aplausos pelo capricho com a qual é concebida. O design dos personagens também é bem trabalhado e eles se expressam com naturalidade, o que torna fácil a criação de afeição pelos espectadores.

O destaque, aliás, é o próprio Lino, que é o mais caricato do longa todo e se beneficia do ótimo trabalho de voz de Selton Mello, o qual com certeza é o melhor elemento do filme. O ator parece estar bastante confortável no papel e sua longa experiência com dublagem transparece na performance vocal. Dira Paes também se mostra desenvolta como a policial Janine, sendo uma pena que a personagem acabe apagada pela falta de desenvolvimento.

O roteiro consegue amarrar de forma eficiente os personagens do passado e do presente na vida de Lino, mas se atrapalha na condução da trama. Ao invés de evoluir o arco de seus personagens – e principalmente de seu personagem principal – com organicidade, a produção acaba focada em sequências de ação e piadinhas. Por exemplo: não há interação entre Lino e o feiticeiro Don Leon que o acompanha em sua jornada que explique qualquer sinal de amizade entre os dois (o protagonista passa a maior parte da projeção criticando o companheiro); ou mesmo um elemento que leve Janine a se afeiçoar pelas qualidades do Lino adulto (os dois já se conheciam quando jovens, o que não justifica a repentina adoração da garota pelo protagonista).

O filme ainda parece tentar mimetizar a relação de Sully e Boo em “Monstros S.A.”, ao colocar Lino para cuidar de uma bebezinha chamada Pestinha que constantemente o chama de “gatinho”. Trata-se de um elemento que não funciona, seja pelo modo como Lino age junto a garotinha, não suportando-a de início e então de forma súbita se apaixonando por ela; seja pelo fato da personagem não possuir nenhuma função narrativa. Sim, o filme poderia se desenvolver sozinho sem a Pestinha e ainda assim apresentar o mesmo desfecho.

Em detrimento de uma boa elaboração narrativa, o roteiro parece focar-se numa fórmula dada. Funciona assim: Lino é colocado em meio a um problema; Lino começa a ser perseguido por algum grupo de pessoas; Ligo escapa de seus perseguidores de forma “incrível”. Aqui há uma preferência pela busca de soluções fáceis para a resolução desses conlitos do protagonista, o que se reflete mesmo nos minutos finais do longa, quando ele já abandona essa fórmula.

As várias piadas do filme pouco divertem, com muitas delas sendo trocadilhos sem graça alguma ou se pautando em algum elemento totalmente fora da diegese da história – a brincadeira com o nome do Cirque du Soleil é um exemplo que une essas duas propriedades. Claro, há bons momentos, como a sequência da batalha de dança, mas nada que seja o suficiente para trazer gargalhadas ao público.

Que é ótimo ver o cinema de animação nacional se desenvolvendo e alcançado um grande público (“Lino” terá distribuição pela Fox International Productions, o que deve garantir que ele figure em muitas salas pelo país), isto não resta dúvida. Porém, é necessário também saber analisar uma produção como “Lino” e apontar onde ela pode melhorar.

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