Crítica: Manifesto

“Manifesto” é um filme de origem singular. Concebido inicialmente pelo diretor Julian Rosefeldt como uma instalação em vídeo que mostrava Cate Blanchett interpretando 13 personagens e recitando diferentes manifestos, ele foi em seguida editado para se tornar um longa-metragem de uma hora e meia. Não há história, mas há narrativa, uma ordenação no roteiro que Rosefeldt apresenta de maneira engenhosa e natural, fazendo com que hora o texto de dois manifestos se complementem, hora eles se contradigam, ascendendo uma discussão mental na cabeça do espectador – e um dos meus momentos favoritos é justamente quando o diretor aborda o Dogma 95.

Rosefeldt e Blanchett apresentam manifestos que discutem questões políticas e sociais, mas há uma predominância pelo debate em relação à arte e como ela deve ser configurada. Digo que tanto diretor e atriz apresentam os manifestos porque, apesar de Rosefeldt ter concebido a ideia, são ele e Blanchett quem a executam. Ele fazendo as escolhas técnicas para a elaboração do filme, ela oferecendo a atuação precisa e ardente necessária para uma produção como essa.

“Manifesto” é uma obra que não seria a mesma sem sua atriz principal. Blanchett tem uma força em seu olha e sua voz que é transposta para tela, um feito que somente uma atriz com sua técnica e experiência poderia realizar. É incrível até mesmo notar como ela muda seu olhar, tom de voz e postura ao interpretar os 13 personagens, sem parecer artificial e oferecendo identidade a cada uma de suas facetas no filme.

Tão pontual quanto a atuação de sua protagonista é a direção de Rosefeldt, que coreografa com precisão as movimentações da câmera e os cortes das cenas. Há diversos momentos nos quais é possível notar esse controle do diretor em relação a execução do filme, como na sequência em que uma mulher está oferecendo uma festividade a um grupo de convidados refinados, que chama a atenção desde a sua abertura até seu encerramento pelo modo como o diretor insere a câmera hora dentro, hora fora do ambiente da festa.

O diretor ainda cria cenários que não são míseros planos de fundo, mas sim metáforas dos manifestos expostos. Um exemplo: durante um enterro, uma mulher recita o manifesto dadaísta. A simbologia é óbvia, com o manifesto dadaísmo significando a quebra da arte, a morte da arte, o esquecimento do passado e a ignorância do futuro, ali representados pelo evento fúnebre, evento que revela a morte (da arte), enterra todas as experiências passadas e ao mesmo tempo faz com que se perca as esperanças do futuro. É um pequeno momento de ode ao tempo presente e à arte contemporânea.

Trazendo à tona a questão do que é a arte, Rosefeldt não busca oferecer ao seu espectador uma resposta. Na realidade, a grande intenção de seu filme é trazer algumas indicações e proporcionar que o espectador tire suas próprias conclusões em relação a esta pergunta que tem gerado debates há séculos. Este é o grande objetivo de “Manifesto”: fazer seu espectador pensar e refletir; e é justamente isto que torna o longa tão relevante.

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