Crítica: O Castelo de Vidro

A vida da escritora Jeannette Walls pode ser definida como “cheia de seus altos e baixos”. Vinda de uma família disfuncional e pobre, ela conseguiu ir de jornalista reconhecida por colunas de fofocas a autora de um best-seller biográfico. “O Castelo de Vidro” conta a longa trajetória da autora tendo como ponto de partida os próprios escritos da moça em seu livro. Entretanto, o que torna este filme tão cativante não é a interessante história de vida da protagonista e sim o modo como as relações dela são construídas junto a seus familiares – e em especial com o pai.

O longa segue as memórias de Walls (Brie Larson) que passou a infância pobre com seus 3 irmãos e seus pais vivendo em diferentes lugares dos Estados Unidos. A mãe de Walls, Rose Mary (Naomi Watts) era uma artista que por vezes dava mais atenção aos quadros que pintava do que aos filhos, enquanto o patriarca Rex (Woody Harrelson) vivia tendo problemas com álcool, arrumava confusão com as autoridades e por vezes tratava os filhos com grosserias. Prestes a casar, Jeannette se vê obrigada a novamente encarar Rex e Rose, ainda que isto não seja de todo seu agrado.

Ainda que o roteiro de Andrew Lanham e Destin Daniel Cretton (este último é também diretor da obra) peque por momentos de sentimentalismo barato e diálogos rasos que se acham poéticos, a construção do relacionamento de Jeannette e Rex é satisfatória e ocorre de forma natural. Se quando jovem a moça aceitava com facilidade as atitudes pouco éticas do pai, é natural ver que em seu crescimento ela comece a contestar essas ações para seu próprio bem e dos irmãos.

Há, entretanto, um problema no modo como esses atos de Rex são representados durante o longa. Cada atitude repreensível do personagem contra Jeannette ou um membro da família é seguida por um momento de quase redenção do pai, como se esses atos terríveis tivessem justificativa. Embora isto torne Rex mais humano – e é justamente isso que faz com que os personagens da obra sejam tão cativante, eles são humanos que erram e acertam – fica a sensação de que a obra está passando a mão da cabeça do patriarca, o que não é a melhor forma de expor o sofrimento passado pela família de Jeannette.

Tal sofrimento também se mostra amenizado pelas escolhas da direção de arte no momento de expor a miséria em que vive a família Walls. Neste caso, a direção confunde vestimentas e cenários rústicos com símbolos de pobreza extrema, deixando de lado qualquer outra representação visual mais chocante.

Se algum impacto é sentido na tela, ele vem muito mais da atuação de seu elenco do que de um esforço de direção. Brie Larson se mostra esplendida em conduzir o longa, conseguindo mudar com naturalidade a postura de sua personagem conforme a obra vai e vem no tempo. Harrelson encarna com veracidade seu problemático Rex, conseguindo até mesmo lhe inferir certo sotaque. Watts por sua vez é mais fechada – em parte porque sua personagem não tem tanto tempo de tela – porém, ela consegue exprimir dor e desespero quando necessário.

O grande mérito de “O Castelo de Vidro” é apresentar personagens reais, complexos e cheios de problemas, em um mundo em que ninguém é totalmente mau ou bom. Com isto, o filme expõe, ainda que aos tropeços, que todos os pais podem ser afetuosos e cruéis ao mesmo tempo, e que de alguma forma, o modo como eles nos educam refletirá em nosso destino. Trata-se de algo que Jeannette Walls aparentemente aprendeu da pior forma possível.

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