Crítica: Una

Nunca antes parece ter havido tanto debate em relação a casos de assédio sexual contra mulheres. E isto não acontece apenas no Brasil, que tem dado relevância para tal discussão após as acusações de assédio contra José Mayer, pois em outros países cada vez mais mulheres tem denunciado situações de abuso. Deste modo, o filme “Una” chega aos cinemas em momento bastante propício por abordar tal tema e possibilitar que o debate continue. O problema se encontra na fórmula aplicada pelo filme para desenvolver o assunto.

O longa se foca em Una (Rooney Mara), que foi abusada sexualmente por um vizinho ainda criança. O caso foi investigado pela polícia e o vizinho acabou cumprindo uma pena baixa. Adulta, ela descobre o novo local de trabalho de Ray (Ben Mendelsohn), seu abusador, e resolve visitá-lo para tirar algumas satisfações sobre o ocorrido.

A tensão que envolve a narrativa é escancarada logo no primeiro encontro entre Una e Ray. A direção de Benedict Andrews reforçam essa tensão ao utilizar de trilha sonora que causa estranheza ao espectador, pois mistura uma composição instrumental com música eletrônica. Acontece que este aspecto estranho não é encontrado nos diálogos, nas atuações e nem no modo como Andrews filma. É como se o diretor não soubesse alinhar bem essas diversas características com o caráter estranho que propõe. Apenas a montagem converge em harmonia com a estranheza da trilha.

O roteiro deixa a desejar na exposição do abuso e da pedofilia, pois há demasiada romantização. Não que seja impossível que Una, em sua juventude, realmente tivesse se apaixonado por Ray, mas o roteiro faz parecer que a relação dos dois é  natural e que a garota tem total consciência do que faz (como se garotas de 13 anos tivessem tanta maturidade quanto homens de 40).

Além disto, Una é construída de forma que a faz parecer uma louca. Ela é posta como um psicótica que, por ainda manter aquela paixão juvenil por seu abusador, agora retorna na busca por destruir tudo aquilo que ele “construiu”. Nem mesmo Rooney Mara, que tenta dar mais densidade à personagem, deixa de cair nessa armadilha do roteiro e transformar Una em uma jovem com sérios problemas para discernir paixão de loucura.

Una é colocada flertando com outros homens durante o longa, numa tentativa de apaziguar essa visão imatura da personagem. Não funciona, principalmente quando o filme continua reforçando que aquela mulher ainda tem remanescências da garota pura de 13 anos a partir de detalhes com a cor de sua roupa em uma festa – branca, a cor da total pureza. Engraçado ainda como, apesar de Una ser colocada como pueril, o filme não deixa de enquadra-la em posições que ressaltam sua sexualidade e sua fragilidade perante um homem.

Acaba sendo fácil não se afeiçoar a Una e assumir as dores de Ray – muito bem interpretado por Mendelsohn – principalmente quando o roteiro da grande voz para o personagem masculino. Todas as acusações de Una são rapidamente rebatidas por Ray e o filme faz parecer que há uma justificativa pela atitude do homem, que merece a todo custo a perdão. Não que seja impossível que pessoas que tiveram atitudes como a de Ray não se arrependessem de seus atos, pois humanos são complexos e erram. Acontece que o modo como “Una” demonstra isto transforma Ray numa vítima – e se ele é a vítima, é fácil culpar a personagem feminina pela sua desgraçada.

“Una” é um filme atual, não há dúvida, mas tratar o abuso do modo como esta obra o trata é reforçar ideias de que a mulher possui culpa pelas atitudes do homem. E em um mundo onde todo relato de abuso é questionado, isto é algo muito perigoso.

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Crítica: Martírio

Por quase 30 anos, Vincent Carelli tem documentado a vida da população indígena do Brasil e exposto os problemas por ela enfrentados. E mesmo após todo esse tempo, é notável que a vida desta parte do povo brasileiro pouco mudou e as questões que envolvem suas lutas pela ocupação das terras são cada vez mais preocupantes – basta procurar notícias que envolvam indígenas na internet para ter noção do que essa população tem passado. Em “Martírio”, Carelli volta sua atenção para as tribos de índios Guarani Kaiowá, habitantes do centro-oeste em constante conflito com fazendeiros da região.

Ao trazer uma abordagem que envolve uma exposição da história dos índios no Brasil mesclada com momentos da documentação obtida pro Carelli durante sua vivência com a tribo, o longa consegue expor diferentes situações e problemas relacionados à demarcação de terras indígenas. Fatos históricos surgem em contraponto com o modo de vida dos índios, possibilitando-nos conhecer um pouco melhor o desenvolvimento de certos preconceitos que são inferidos à população indígena – como a ideia errônea de que os índios são parte aculturada e não civilizada do povo brasileiro.

Por meio das visitas às tribos e entrevistas gravadas, Carelli oferece ao espectador o encontro a diferentes personagens que narram cada um os adversidades passadas por suas famílias e suas tribos. Interessante notar como o diretor consegue costurar as narrativas desses personagens com acontecimentos conhecidos dos livros históricos, como a Guerra do Paraguai, expandido nossa visão em relação à vida e história dos índios. De fato, um dos grandes trunfos do longa é expor toda a complexidade que envolve um problema muitas vezes menosprezado por parte da população do nosso país.

O documentário não apenas volta seu olhar para os indígenas, mas também realiza entrevista e expõe depoimentos dos fazendeiros e políticos que enfrentam os índios. Aqui há um esforço da direção em ressaltar as características antagônicas dessas pessoas. Trata-se de uma atitude desnecessária, uma vez que as falas cheias de preconceito e ignorância já expõem o caráter repreensível dessas pessoas, sem a necessidade de transforma-las em vilãs – ainda mais quando se tem um problema tão complexo quanto este vivenciado pelos indígenas.

A cultura do povo Guarani Kaiowá também é bastante referenciada, e ainda que este não seja o ponto principal do longa, o documentário mostra como é necessário conhecer o estilo de vida e as crenças do outro – e com isto o filme parece querer evitar que ocorra a disseminação de pré-julgamentos. Há momentos em “Martírio” que são difíceis de ver, mas não porque o filme erre, e sim pelo fato do filme expor situações tristes ou de grande tensão. São situações capazes de deixar o espectador alarmado, mas que também propiciam o desenvolvimento da afeição com a causa indígena.

Oferecer voz aos índios Guarani Kaiowa é o principal mérito de “Martírio”, um filme capaz de se mostrar atual ainda por muitos anos e que deve ser visto.

Crítica: Os Smurfs e a Vila Perdida

NOVA ANIMAÇÃO DOS SMURFS É BEM INTENCIONADA, MAS PECA EM SEU DESENVOLVIMENTO NARRATIVO

Após duas aventuras em live-action nos cinemas, os smurfs, os adoráveis homenzinhos azuis criados pelo belga Peyo, ganham um novo longa-metragem totalmente em animação 3D – uma mudança que deve ter sido feita pela Sony Pictures Animation após a má recepção das duas primeiras obras com atores. “Os Smurfs e a Vila Perdida” (Smurfs: The Lost Village) funciona como um reboot para os homens azuis no cinema, tendo seu elenco de vozes renovado e um novo design para seus personagens, o que os torna muito mais condizentes com o universo animado dessa aventura.

O foco da trama da animação é Smurfette, que como única garota da vila dos smurfs e tendo sido criada originalmente pelo vilão Gargamel, tenta descobrir qual característica a torna especial. Como todos os Smurfs possuem um nome que designa seu traço único (o smurf inteligente é o Gênio, o forte é o Robusto, etc.), Smurfette busca decifrar o significado do seu “ette”, o que a leva a encontrar um novo Smurf misterioso e em seguida a ser capturada por Gargamel. Descobrindo pistas da existência de uma vila perdida de smurfs através do caldeirão de Gargamel, Smurfette, junto de outros três smurfs, resolve ir atrás da tal vila para avisar seus residentes da ameaça do malvado feiticeiro.

O filme parece ter consciência de uma das maiores críticas em torno dos smurfs, que trata da ausência de personagens femininas nas histórias dos homens azuis (o que deu origem a um conceito chamado “Princípio Smurfette” na cultura pop), dando assim o protagonismo à principal personagem mulher do grupo e inserindo outras garotas na narrativa. Entretanto, surge a questão do “para que isto?” uma vez que o filme não sabe como trabalhar com Smurfette. A todo o momento, a personagem é salva por homens ou é colocada à sombra dos mesmos quando surge algum perigo, além de ter de aturar as investidas e elogios pouco sutis do smurf Robusto – algo um tanto quanto estranho em questão de representatividade em um longa com roteiro encabeçado por duas mulheres.

Quando Smurfette finalmente toma para si o papel de heroína, é de maneira tardia e com uma atitude pouco criativa. É como se o filme quisesse mostrar algum empoderamento para seu público feminino, mas sem querer deixar o masculino constrangido – e em um mundo com obras empoderadoras como “Zootopia” e “Moana”, apenas para citar casos recentes, esta é uma atitude pouco eficiente.

O roteiro também se perde ao não saber como equilibrar o foco que hora está em Smurfette, hora está na busca pela vila perdida, criando uma confusão no desenvolvimento da história. As piadas são no geral pouco eficientes, com muitas se apoiando em gags visuais sem criatividade (a não ser pelos efeitos 2D que as acompanham), ou em frases feitas como “Eu sou velho, mas não sou cego” que dificilmente vão fazer alguém com mais de 7 anos de idade rir. Os personagens, porém, são um ponto positivo da narrativa que, mesmo se apoiando nos aspectos unidimensionais de cada um, consegue torná-los carismáticos perante o público geral (com destaque especial para Gargamel e o gato Cruel).

Se há um elemento do longa que enche os olhos é seu design de produção, que apresenta personagens bem detalhados em belas paisagens de cores vibrantes condizentes com esse universo lúdico dos smurfs. A animação é bem fluída e ágil, uma característica que tem se mostrado como um diferencial para a Sony Pictures Animation em relação à concorrência, sendo novamente bem empregada para trazer aquela sensação de desenho animado da década de 1980/90. O filme também apresenta uma ótima trilha original composta por Christopher Lennertz capaz de conferir singularidade à narrativa, mas peca ao substituir os belos acordes de Lennertz por músicas pop numa tentativa falha de modernização do universo smurf.

É notável que “Os Smurfs e a Vila Perdida” apresenta boas intenções narrativas, mas o modo como elas são aplicadas é insatisfatório, e sem uma grande história ou elementos cômicos eficientes, o filme não consegue de destacar em meio a tantas animações inovadoras. Os menores irão se divertir, mas qualquer criança maior ou adulto que acompanhe seus filhos infelizmente acabará aborrecido com os problemas da produção.

Crítica: Power Rangers

power rangersNOVO LONGA CONSEGUE RENOVAR A FRANQUIA DOS HERÓIS DA SABAN

Com mais de 20 anos de existência, a franquia Power Rangers (inspirada nos Super Sentais japoneses) tem se mantido viva na televisão com várias temporadas que têm como base uma trama de premissa simples, mas de fácil apego pelas crianças. Entretanto, mesmo o tempo chega para os Rangers, sendo notável que os seriados não têm o mesmo apelo que tinham na década de 90. Buscando transportar a história dos heróis coloridos para o cinema (algo já realizado durante o auge da série de tv nos anos 90) e atrair a atenção do público de filmes de heróis atuais, a Saban e a Lionsgate se uniram para dar vida a um novo “Power Rangers”.

Há uma reinvenção da história dos heróis coloridos para agradar uma nova geração, ao mesmo tempo em que mantém elementos e personagens da primeira temporada da série – para deixar aqueles mais nostálgicos em euforia. A trama se passa na Alameda dos Anjos, onde cinco jovens (Jason, Kimberly, Billy, Zack e Trini), sem querer encontram cinco moedas que lhes conferem habilidades sobre-humanas. Logo eles são convocados por Zordon (Bryan Cranston), um ser alienígena que lhes conta que os jovens devem se tornar os novos Power Rangers a fim de derrotarem a ameaça da feiticeira Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

A narrativa é construída de forma muito mais séria que nas séries de televisão, mas segue uma estrutura básica dos filmes de origem de super-herói. Isto não significa que o filme não tenha seus méritos e não se destaque entre as demais produções. “Power Rangers” ganha força quando se distância dos filmes da Marvel e da DC e aposta em uma trama adolescente. Há diversas temáticas relacionadas a juventude abordadas pelo filme, desde o já batido bullying, até questões como problemas familiares, sexualidade e slut-shaming (sim, estou falando do filme dos Power Rangers). Mesmo que nem todas essas questões sejam aprofundadas e que alguns clichês sejam aplicados, é bom ver um filme com o alcance deste aqui abordando tais assuntos.

Os personagens também são bem desenvolvidos, em especial Jason, Kimberly e Billy, que possuem maior tempo de cena e praticamente ancoram toda a trama. Zack e Trini possuem a sua vez, mas de forma tardia e em alguns momentos o roteiro parece forçar uma leve mudança de personalidade destes dois para que eles consigam interagir com os demais.

Há uma ótima química entre o elenco principal, com Dacre Montgomery (Jason) e Naomi Scott (Kimberly), sabendo conduzir seus arcos narrativo com firmeza. Já Ludi Lin (Zack) extrapola na atuação em alguns momentos, enquanto Becky G. (Trini) não é de todo mal, mas deixa sua personagem muito unidimensional. RJ Cyler (Billy), é quem mais se destaca dos cincos, sabendo transpor para a tela um Billy carismático, engraçado, mas que não deixa de apresentar problemas pessoais. A Rita Repulsa de Elizabeth Banks é um pouco disforme: hora parece uma vilã exagerada e sem graça, hora revela seu lado mais sério em seus melhores momentos.

O filme consegue dar conta de trazer à tela bons efeitos especiais na maior parte da projeção, ainda que deslizes ocorram – o monstro Goldar criado por Rita é um exemplo a parte de má aplicação de efeitos e péssimo design. Os trajes e os zords são um pouco exagerados em seus detalhes, e não é incomum que em alguns momentos a tela pareça muito poluída, mas não se trata de algo que estrague a projeção como um todo (apenas um detalhe que pode ser corrigido em filmes futuros, já que este planeja ser o primeiro de uma nova série). Para aqueles acostumados com a série de tv cheias de lutas de artes marciais, “Power Rangers” pode ser um pouco frustrante, já que a maior parte da ação ocorre com os Rangers dentro de seus zords. O diretor Dean Israelite também abusa dos cortes nas cenas de ação, mas se há erros pequenos aqui, a direção de Israelite sabe proporcionar no restante do longa um ritmo ágil bastante agradável e envolver o espectador com a história.

O roteiro faz um bom trabalho expondo diversos elementos do mundo dos Power Rangers, ainda que para isso recorra a alguns diálogos expositivos. O interessante é notar que há um “universo” próprio sendo construído, e isto o filme faz muito bem, já que todas as ideias são bem encaixadas. Se “Power Rangers” não oferece grandes novidades às narrativas de super-heróis, o longa ao menos consegue apresentar uma identidade própria, renovar a franquia e trazer uma história bem costurada.

P.S.: O filme possuí uma cena no meio dos créditos.

Crítica: A Bela e a Fera

NOVA VERSÃO DO CONTO DE FADAS É FIEL AO SEU LONGA ORIGINAL E UMA DAS MELHORES ADAPTAÇÕES DA DISNEY

Quando se compara o novo “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast) com outros remakes em live-action de contos de fadas da Disney (no caso, “Malévola” e “Cinderela”) é notável uma significativa melhora de qualidade. Na verdade, é como se as produções anteriores fossem experimentações por parte do estúdio, que agora mais seguro e tendo aprendido com  acertos e deslizes, parece estar pronto para oferecer ao público uma de suas melhores adaptações.

A Disney sabe que qualquer coisa realizada com “A Bela e a Fera” deve possuir uma qualidade alta, pois os fãs são exigentes e a animação é aclamada entre a crítica (tendo recebido até mesmo a rara indicação ao Oscar de Melhor Filme). Além disso, um filme como este precisa chamar a atenção do público, motivo que provavelmente levou o estúdio a buscar uma atriz com tantos seguidores como Emma Watson para o papel principal.

Na nova versão, os roteiristas Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos seguem quase à risca alguns diálogos e a estruturação do roteiro do filme de 1991, mas como não podia deixar de ser, sabem adicionar elementos novos à história para aprofundar as motivações dos personagens e suas interações. Deste modo, o público acaba conhecendo (ainda que rapidamente) o passado de Bela, do Príncipe/Fera, e a relação dos dois com suas falecidas mães.

Os objetos falantes (Lumière, Horloge, e os demais), possuem tempo para expor suas angústias e seus pesares em relação à Fera, enquanto Maurice, o pai de Bela, deixa de ser apenas um coadjuvante engraçado para ganhar densidade dramática em seu embate com o vilão Gaston. Uma grande dose de “magia” envolve diversos acontecimentos da história, mas nada que se revele inverossímil no contexto da trama – exagerado, talvez, mas não inverossímil.

O romance entre os dois protagonistas acaba sendo melhor desenvolvido, e se na animação Bela se apaixonava pelas ações gentis da Fera e seu jeito “engraçado”, no live-action, é notável que ambos possuem certas semelhanças, pois se consideram “desajustados” perante ao mundo em que vivem. É um detalhe talvez pequeno para alguns, mas que torna o relacionamento dos dois ainda mais crível e apaixonante.

Há um clima de nostálgico forte que percorre todo a produção (ainda mais do que nos outros live-actions da Disney), acentuado pela conservação das músicas originais da animação e pelo modo como as cenas são coordenadas. O diretor Bill Condon filma muitas sequências de modo quase idêntico ao do desenho animado, o que não é algo exatamente ruim, mas faz com que o público se lembre que na animação era bem melhor.

As cenas musicais, por sua vez, são um show a parte. Condon parece fazer questão de tornar cada pequena cena de música em um grande evento (cujo a sequência de “Be Our Guest” é o ápice) cheio de efeitos e movimentações de câmera mirabolantes. Tais cenas talvez sejam um pouco exageradas demais, mas se a Disney está investindo, qual o problema, não é? Há música novas, aliás, mas nenhuma é empolgante.

A maior parte dos figurinos também faz jus aos vistos na animação e algumas ideias são reaproveitadas, como o fato de Bela usar azul em sua aldeia e somente começar a utilizar outras cores de vestimenta no castelo da Fera. Mas na questão da produção de arte, o que realmente chama a atenção são os cenários. Enquanto a aldeia de Bela surge com ruas estreitas e construções apertadas, o castelo da Fera apresenta salas e cômodos gigantes (ainda que boa parte deles sejam construídos em CGI), capazes de abrigar dezenas de pessoas. O castelo é de fato o local onde Bela pode ser livre em relação aos seus pensamentos e fazer amigos, enquanto a aldeia é sua verdadeira prisão, lugar onde ela sofre grande repreensão por ser esquisita – e o filme não tem medo de expor isto, ao mostrar os aldeões se revoltando contra a garota quando ela tenta ensinar uma menininha a ler.

O elenco é bem coordenado, e no meio de tantos atores magníficos, é incrível que um dos que mais se destaque é Luke Evans, que abraça os exageros de seu vilão e o torna ainda mais engraçado e charmoso com seu jeito teatral de agir. Josh Gad o acompanha com seu Le Fou, e consegue oferecer um crescimento extraordinário para um personagem secundário. No castelo, são os objetos falantes que novamente roubam a cena, e o trabalho de voz de atores como Ewan McGregor e Emma Thompson merecem destaque, em especial nas sequências que eles precisam cantar (e aqui confesso que muitas vezes achei que estivesse ouvindo as vozes dos atores do original, tamanha a semelhança). Watson e Stevens, por sua vez, entregam protagonista fiéis às suas facetas mais dramáticas e possuem boa química.

Sem as exageradas narrações expositivas de outras produções, “A Bela e a Fera” é um filme que se apropria bastante de elementos da animação que o originou, e se isso por um lado é bom, por outro faz com que seja questionável sua relevância em meio a tantas obras de contos de fadas – mesmo que aqui e ali ele revele fatos antes não vistos da história. Porém, é inegável que este é um filme prazeroso e capaz de agradar até os fãs mais exigentes.

Crítica: Um Homem chamado Ove

Há quem diga que quanto mais velhos ficamos, menos gostamos das pessoas. De certa forma, o protagonista do longa “Um Homem Chamado Ove” (En man som heter Ove) pode ser encaixado como um exemplo deste tipo de pensamento. Entretanto, se há algo que o filme dirigido por Hannes Holm tenta provar é que, por mais rabugenta uma pessoa possa ficar na velhice, ela nunca deixa de perder sua essência interior, seja ela boa ou ruim.

Baseado em um romance de mesmo nome, a trama acompanha Ove (Rolf Lassgard), um velho rabugento que sofre todos os dias pela morte da esposa (como uma versão em carne e osso de Carl Fredricksen, de Up – Altas Aventuras). Após perder o emprego, Ove percebe que tudo aquilo pelo o que viveu se foi e acredita que está na hora de ele “ir” também. Ele decide se suicidar, porém, uma série de eventos o impede de realizar tal feito.

Como é de se esperar, diversos personagens surgem na vida do protagonista, que acaba aos poucos mudando o seu jeito de perceber o mundo e as pessoas – e no fim descobrimos que ele não é tão mau assim. No geral, o roteiro consegue amarrar a subtrama de cada uma dessas personagens com a de Ove, de modo que a relação do protagonista com o vizinho Rune e com a nova vizinha Parvaneh são parte do cerne da história. Acontece que há um excesso de personagens, e algumas dessas subtramas propostas pelo filme ficam mal resolvidas ou não demonstram sua real importância dentro da narrativa do longa.

A trama se fragmenta entre presente e passado, com as lembranças de Ove sendo expostas na tela e detalhadas por uma narração do próprio personagem. Tal artifício da narração é positivo nos momentos iniciais, para que o espectador compreenda com maior agilidade a relação de Ove com o pai e com a esposa, mas acaba por cair na redundância depois da metade da projeção, conforme Ove parece apenas reafirmar aquilo que já compreendemos perfeitamente pelas imagens em sua cabeça.

A história de Ove é melodramática, um fato reforçado por sua constante trilha sonora, mas o longa tem seu mérito por conseguir prender a atenção de seu espectador em junto à narrativa. É algo que ocorre não só pela boa dinâmica da montagem, mas também graças à ótima atuação de Lassgard. Pode-se dizer que a construção de Lassgard em um Ove pesaroso e ranzinza, mas que não deixa de se afeiçoar pelos demais, é o principal motivo do espectador para continuar a acompanhar a trajetória do velho viúvo. Nem mesmo o tímido e pouco expressivo Filip Berg, que faz um Ove mais jovem, conseguem diminuir o personagem quando se tem Lassgard agindo na concepção da persona idosa.

“Um Homem Chamado Ove” tem sua dose de pieguice, e sua indicação ao Oscar de Longa Estrangeiro parece indicar um certo apreço da academia por longas com cargas sentimentais altas. Porém, a trama bem alinhada com um humor sarcástico é capaz de superar o piegas e torna o filme uma obra apreciável.

Crítica: A Tartaruga Vermelha

a-tartaruga-da-urssANIMAÇÃO POÉTICA TRAZ UMA FORTE MENSAGEM DE AMOR

Um fato interessante sobre a arte em geral é a sua capacidade de transmitir mensagens e evocar sentimentos com o uso de códigos de entendimento universal. Deste modo, uma música pode nos deixar alegre, mesmo que não compreendamos o significa de sua letra, e um quadro pode nos fazer chorar ilustrando imagens fora de nossa realidade. Na linguagem do cinema, temos a união de música e imagem em movimento para a propagação de narrativas, e o diretor Michael Dudok de Wit parece compreender que esses dois elementos bastam para a construção de uma obra que pode ser apreciada em qualquer lugar do mundo. Sem buscar expor sua narrativa em diálogos, de Wit constrói seu primeiro longa-metragem, “A Tartaruga Vermelha” (La tortue rouge) quase como um filme da época do cinema mudo, no qual as imagens e os sons são a ponte para que o espectador adentre esta história.

Produzida pelo famoso estúdio Studio Ghibli em conjunto com o Wild Bunch e o Why Not Productions, a animação “A Tartaruga Vermelha” retrata a vida de um homem (o qual nunca sabemos seu nome) que após se perder no mar, chega a uma pequena ilha deserta. Em suas tentativas de fugir do local, ele acaba sendo frustrado por um enorme tartaruga vermelha. Com raiva, o homem mata o animal, que após a sua morte, se transforma em uma mulher de cabelos vermelhos.

O aspecto visual do longa é construído com uma simplicidade no traço e elegância em seus detalhes. A ilha e seus personagens são tão bem constituídos, que é fácil reconhecer cada particularidade de sua composição, mesmo quando a narrativa se passa em períodos noturnos, no qual a cor dos cenários e personagens é substituída por tons de cinza. Aspectos sonoros como sons de passos e do mar oferecem verossimilhança a uma história fantástica que é como uma alegoria das relações humanas.

A bela trilha sonora de Laurent Perez Del Mar surge em momentos pontuais da narrativa, oferecendo características poéticas a este filme que não tem medo de fugir totalmente do que conhecemos como real e adentra em um mundo onírico (a sequência do sonho do homem é uma das mais bela do filme). A música conta parte da história e se em determinado momento ela toca, sabemos, com auxílio das imagens, o que os personagens ali presentes pensam – e por isso o filme não precisa se debruçar por um longo tempo em tentar explicar como se desenvolve a relação entre o homem e a mulher de cabelos vermelhos. Se tudo por um momento parece rápido, é devido ao fato de que música e imagem já nos deram todos os elementos que precisávamos para compreender uma determinada situação e os desejos que envolvem os personagens.

O drama fantástico da narrativa de “A Tartaruga Vermelha” é altamente envolvente devido aos seus personagens realistas. Por mais que o homem e a mulher estejam inseridos num universo mágico, e passem por eventos extraordinários, é difícil não enxergá-los como pessoas reais, principalmente o homem, pois acompanhamos um crescimento magnífico da personagem, no qual o seu individualismo é vencido pelo desejo de amar e ser amado. Com uma imensa delicadeza, “A Tartaruga Vermelha” é uma obra-prima da animação, capaz de tocar até mesmo os corações mais duros com sua trama cheia de amor e afeto.

Crítica: Minha Vida de Abobrinha

abobrinhaANIMAÇÃO TRABALHA DE FORMA DELICADA A QUESTÃO DA DOR DO ABANDONO

Uma das grandes surpresas do último ano foi ver uma animação entre os nove pré-selecionados para o Oscar de Melhor Longa Estrangeiro, um feito grandioso para um longa desse gênero. A produção em questão é “Minha Vida de Abobrinha” (Ma Vie de Courgette), primeiro longa-metragem de Claude Barras, o qual foi selecionado pela Suíça para concorrer à vaga na premiação da acadêmia. Embora não tenha conseguido a indicação de longa estrangeiro, o filme foi lembrado na categoria principal de animação. Feito em stop-motion, “Minha Vida de Abobrinha” segue a vida do pequeno Icare, apelidado de Abobrinha, após a morte de sua mãe. Sem saber o paradeiro de seu pai, Abobrinha acaba indo parar em um orfanato, onde encontra várias outras crianças, constrói fortes laços de amizade e até mesmo se apaixona.

Muitas animações tem tido exito em trabalhar o ponto de vista infantil sem tornarem a criança um personagem inocente demais ou realizarem uma adultificação nos pequenos – com “Lilo & Stitch”, “Ponyo – Uma amizade que veio do mar” e “O Menino e o Mundo” sendo bons exemplos neste caso. Em “Minha Vida de Abobrinha” não é diferente, com o filme sabendo equilibrar a inocência dos pequenos (como quando eles se questionam de que forma homens e mulheres namoram), com a sagacidade as crianças em compreender questões que vão além de sua idade. Entretanto, o que a animação faz é ir além de temas do cotidiano e trabalhar problemas como o abandono e da dor através do olhar de uma criança. É uma temática desenvolvida com sutileza fantástica, na qual crianças aparentemente alegres, rapidamente são tomadas por sentimentos conflituosos a partir de pequenas ações e atitudes simples – a cena em que elas brincam na neve é o melhor exemplo disto.

A tamanha complexidade das crianças é ainda exposta pelo modo como o roteiro busca trabalhar seus personagens. Inicialmente sendo vistos como estereótipos pouco inovadores, esses personagens se mostram como seres complexos e encantadores conforme o próprio Abobrinha se deixa afeiçoar por eles. Aquele que é o valentão do orfanato, por exemplo, se revela uma criança com uma história perturbadora e que possuí um único desejo não atendido, se tornando até mesmo o melhor amigo de Abobrinha, quase um irmão. Como é de se esperar, o filme busca discutir o que é família e sua importância, mas escapa de resoluções fáceis, deixando que o espectador encontre suas próprias respostas.

A direção opta por cenários e personagens coloridos e vívidos, de modo que realçam o universo de energia infantil no qual a narrativa se insere. Ao mesmo tempo, os grandes olhos e os longos braços das personagens que costumam permanecer caídos de forma melancólica, revelam a tristeza que envolve a vida daquelas crianças. É interessante notar também uma preocupação com os detalhes na construção dos bonecos de stop-motion, desde a coloração de suas faces, até elementos como cicatrizes e sardas.

Apesar de sua curta duração (o filme tem apenas 66 minutos), a qual deixa uma sensação de que muito mais poderia ter sido explorado na história, “Minha Vida de Abobrinha” é um filme tocante e que se desenvolve de forma eficiente, possibilitando um estranho e satisfatório encontro entre os sentimentos de felicidade e de dor que permeiam a vida de crianças e adultos.

Crítica: Quatro Vidas de um Cachorro

quatro-vidas-de-um-catioroAntes mesmo de estrear, “Quatro Vidas de um Cachorro” (A Dog’s Purpose) tem sido um dos principais assuntos em sites de notícia e entretenimento. O motivo não poderia ser pior: uma denúncia de maus-tratos a um dos cachorros do filme, acompanhada de um vídeo que parece confirmar o fato. Grande parte do público parece estar disposto a boicotar a produção, de forma que o ideal seria tentar garantir o sucesso do filme a partir de um boca-a-boca positivo – o que provavelmente não acontecerá, levando em consideração a qualidade da produção.

Dirigido por Lasse Hallström, diretor que tem uma paixão por melodramas e que já explorou a “dramática” relação homem e seu amigo cão em “Sempre ao Seu Lado”, “Quatro Vidas de um Cachorro” segue (como o nome já diz) as quatro encarnações de um mesmo cachorro (na verdade são cinco, mas isto é mero detalhe). Na primeira, como o cão Bailey, que possuí uma forte relação com seu dono Ethan (Bryce Gheisar, K.J. Apa e depois Dennis Quaid); a segunda como uma cadela da força de polícia; a terceira como um corgi que acompanha a evolução da vida da doce Maya (Kirby Howell-Baptiste); e por fim, a quarta vida, na qual ele reencontra seu primeiro dono.

A narrativa busca oferecer complexidade à persona do cão protagonista, mas falha miseravelmente nisto. Primeiro porque o cachorro é apresentado como um personagem unidimensional, que busca apenas brincar e que possui tamanha inocência que não consegue perceber quando um humano fica bravo com ele. Em segundo, todos os desejos e angústias experimentados pelo cachorro tem como foco somente no dono do mesmo, com ele expressando vontade própria apenas em dois momentos do filme. Deste modo, aquele que deveria ser o protagonista da trama não tem outra função se não dar suporte ao seu dono – numa tentativa de reforçar a ideia do “melhor amigo do homem” – e quando eu digo dono, é bom deixar claro que eu estou falando de um personagem específico: Ethan (um nome que ecoa em minha mente e me causa repulsa só de lembra-lo sendo repetido inúmeras vezes durante o longa).

Principal objeto de afeição do cachorro, Ethan é provavelmente o maior problema da obra, a começar pela história de vida do personagem. Ethan é apenas um garoto que deseja um cachorro e quando consegue um (ainda que a contragosto do pai), eles se tornam verdadeiros melhores amigos e ele o leva para todos os lugares. Depois, Ethan se apaixona pela típica garota loira que é o sonho dos desejos de qualquer homem (e que aliás, adora cachorros também), a qual rapidamente também se apaixona por Ethan. É tudo muito fácil, tudo muito simples na vida de Ethan, desde de o modo como ele alcança seus objetivos, até a composição de sua família – que parece uma típica família de comercial de margarina.

Por pior que seja, talvez o filme deve-se continuar apostando nessa simplicidade para a composição da vida de Ethan, pois tudo fica péssimo quando o roteiro busca colocar algum tipo de empecilho na vida do rapaz. Desde o confronto com um colega de escola, às desavenças com o pai alcoólatra e a briga que o leva ao fim do namoro, todos os inconvenientes na vida do rapaz soam como forçados e irritantes de tão previsíveis – e aqui devo destacar o fato de que o filme nunca deixa claro o porquê o pai de Ethan entrou em tamanha depressão para se tornar um alcoólatra. Se não bastasse isto, todos os três atores  que interpretam Ethan surgem com atuações forçadas e sem química nenhuma com o elenco que os cerca (Dennis Quaid é o que se sai melhor, mas apenas devido ao fato de sua atuação no longa ser a mais curta).

Há uma melhora considerável na dinâmica do filme quando o cachorro reencarna em suas novas vidas e começa a interagir com o policial Carlos (John Ortiz) e logo em seguida com Maya e sua família. Entretanto, esses dois personagens acabam sendo colocados em um plano secundário, e suas vidas passam rapidamente pela tela, deixando apenas um gostinho de “quero mais” para quem assiste.

Buscando tirar alguma lágrima do seu público, a direção de Hallström cria sequências dramáticas cheias de closes nos rostos dos cachorros tristes, as quais são embaladas pela trilha sonora triste de Rachel Portman. A trilha, aliás, é um elemento que a direção faz questão de usar a todo o momento no longa, de forma que a música parece dizer ao espectador “chore aqui”, “ria ali”, “fique apavorado agora” – e este excesso de trilha faz com que a produção ganhe cara de telefilme. Não há silêncio, nem momentos de calmaria no longa para que o espectador descanse um pouco e reflita sobre a trama – embora reflexão é pedir um pouco demais de um longa com personagens tão rasos.

Há uma aposta em piadas bobas de como cães são melhores que gatos ou outros animais, mas no geral o filme é eficiente em arrancar risadas do público com as inocentes confusões arranjadas por Bailey e suas encarnações – sendo uma pena que a comédia não seja o foco da narrativa. Sem conseguir estruturar eficientemente seus personagens, os sorrisos são um dos poucos pontos positivos de “Quatro Vidas de um Cachorro” – embora seja um fato que, se o filme não tivesse se envolvido nos problemas que se envolveu, seria uma obra que provavelmente cativaria um bom público apenas pela fofura de seus cachorros, mesmo com roteiro e direção pouco atraentes.

Crítica: Paraíso

paraisoEm determinado ponto do início de “Paraíso” (Paradise), a protagonista Olga revela ter tamanho medo da morte, que poderia trair seus companheiros para evitar ter um destino trágico. O diretor Andrey Konchalovskiy utiliza essa consciência da finitude da vida e de seus momentos para guiar as ações de Olga, além de trabalhar tal percepção a partir de diferentes pontos em sua obra.

“Paraíso” se passa durante a 2ª Guerra Mundial e Olga (Yuliya Vysotskaya) é uma condessa russa que, após ajudar a Resistência Francesa, acaba sendo presa pelos nazistas. O longa trabalha a relação de Olga com dois homens distintos: o francês Jules (Philippe Duquesne), que está cuidando do caso de Olga; e Helmut (Christian Clauss), um oficial nazista que acredita que suas ações são corretas e trarão um mundo melhor para os alemães.

A história do encontro de Olga e Jules é bem curta, e serve apenas como uma introdução rápida para o filme e os conceitos que o mesmo irá desenvolver – de modo que o destaque que a narrativa busca impor sobre Jules acaba se mostrando desnecessário para o desenvolvimento do que vem a seguir. Já o relacionamento de Olga com o oficial Helmut é um elemento de maior importância dentro do longa, que explora dois pontos de vistas diferentes no ambiente de um campo de concentração no qual Olga é a prisioneira/serviçal e Helmut é seu patrão.

A crueldade do trabalho no campo nazista (muito bem representada no longa) e a ideia da morte fazem com que Olga perca um pouco de seu altruísmo durante a briga por um par de botas com suas companheiras. Esse ambiente hostil surge como um interessante contraponto à luxuosa vida de Helmut, personagem que graças às circunstâncias nas quais se encontra, pode se colocar como um homem solidário aos seus demais companheiros e expressar sentimentos até mesmo pela pobre prisioneira russa.

Jogando com as técnicas do gênero de documentário, “Paraíso” investe em um série de entrevistas nas quais seus personagens relatam os acontecimentos de seu passado e expõem seus pensamentos em relação aos problemas que os afligiram. Trata-se de uma forma eficaz encontrada por Konchalovskiy de oferecer ao espectador a possibilidade de adentrar na mente de Olga, Jules e Helmut. As entrevistas, unidas das ações de cada indivíduo expostas na tela, possibilitam que o roteiro ofereça complexidade e humanidade ao seus protagonistas, os quais em nenhum momento se tornam unidimensionais. Embora seja questionável o fato do filme oferecer uma justificativa para os pensamentos antissemitas de um oficial nazista como Helmut, é interessante notar como o personagem não caí em um clichê que o colocaria como um simples personagem odiável, com o filme oferecendo sequências em que sua disciplina e busca por ordem são colocados como características a se admirar.

O elenco que do filme também se coloca como parte importante para a construção desses personagens. Embora o destaque seja a ótima Vysotskaya, que mesmo exagerando em algumas sequências, consegue trabalhar o olhar de terror e apreensão de sua personagem com naturalidade, o jovem Clauss também é notável ao conseguir equilibrar a forte paixão e emoção de seu personagem com os momentos em que ele se mostra mais contido e estoico.

A ideia da luta por um “mundo melhor”, uma esperança que livrará os personagens dos horrores da guerra e da morte, surge no filme conforme os personagens revelam seus sentimentos, sendo interessante como tal conceito é desenvolvido pelo roteiro. Helmut, por exemplo, deseja ajudar seus companheiros nazistas de forma a alcançarem uma utopia para o povo alemão, entretanto, quando Olga surge em sua frente no campo de concentração, a figura da da russa logo se torna seu desejo pessoal, e a esperança que o oficial alimenta é de um dia conseguir conviver romanticamente com aquela mulher. Da mesma forma, se Olga de início concentra sua fé na busca por sair viva do campo de concentração, isto loga muda quando ela encontra as duas crianças judias que um dia ela ajudou, os quais se tornam objetos de sua proteção. Ela também cultiva uma esperança, a esperança de oferecer uma salvação para as crianças, algo que ela acredita que poderá conseguir com a ajuda de Helmut.

O diretor Konchalovskiy opta por filmar seu longa com uma fotografia em preto e branco e com uma tela quadrada, distoando das telas mais largas dos filmes atuais. Esses elementos, alinhados a uma ótima iluminação, remetem aos filmes em preto e branco, principalmente aqueles das décadas de 30 e 40. Trata-se de um efeito de memória do cinema que aqui se encaixar perfeitamente com a proposta da narrativa, pois o roteiro trabalha com as lembranças de seus protagonistas, o que possibilita que Konchalovskiy faça essa conexão de seu filme com as lembranças da história cinematográfica.

Mesmo apostando em um final com uma espécie de “plot-twist” pouco satisfatório (outro elemento desnecessário ao longa), “Paraíso” é um obra para ser apreciada devido ao seu ótimo roteiro e direção, que possibilitam que o espectador tenha contato com personagens complexos.