Crítica: Detroit em Rebelião

Tem sido característica cada vez mais proeminente nos trabalhos recentes de Kathryn Bigelow a exposição dos problemas que cercam figuras e organizações governamentais dos Estados Unidos. Depois de ter mostrado o modo como a CIA utilizava de torturas em interrogatórios contra prisioneiros políticos em seu “A Hora Mais Escura”, não é de se estranhar que o novo projeto da diretora busque evidenciar uma questão bastante recorrente no país: o abuso de poder por policiais brancos contra negros.

Para oferecer um quadro desse problema, o filme “Detroit em Rebelião” (Detroit) se foca em um acontecimento trágico do fim dos anos 60, durante o ápice das rebeliões em bairros pobres de Detroit: o incidente no Motel Algiers. A história foca em quatro personagens: o vigia noturno Dismukes (John Boyega); o policial racista Krauss (Will Poulter); e os amigos Frank (Algee Smith) e Fred (Jacob Latimore). Os quatro acabam se envolvendo no incidente do motel, quando a polícia é avisada que um possível atirador estava escondido em um dos quartos do local.

Embora focado em um determinado acontecimento, o filme demora a chegar ao seu evento principal, já que há uma busca do roteiro em mostrar como a discriminação racial cresceu nos Estados Unidos e a origem das rebeliões nos primeiros minutos do longa. E mesmo quando a produção encontra seu desfecho ela fica mais ágil, pois busca exibir todas as consequências e etapas do processo judicial causado pelo incidente do Motel Algiers. É algo louvável? Sim, porém, cansativo demais e torna a obra um pouco massante.

A exposição demasiada, aliás, é algo que prejudica o filme até mesmo em momentos menores, como se ele tentasse “mastigar” a história e seus detalhes para o espectador, para que este compreenda tudo o que ocorre sem precisar queimar seus neurônios. Acontece que esses detalhes que ele explica acabam sendo óbvios demais. Um exemplo: em determinada sequência, dois personagens explicam como os policiais abordam os negros de forma violenta. Não há nenhuma outra serventia para esta cena no roteiro se não explicar para o próprio espectador como essa violência funciona, algo totalmente desnecessário, já que este é elemento chave da narrativa, sendo esperado que o espectador já tenha compreendido sua gravidade e funcionamento até aquele momento.

Ainda assim, Bigelow sabe como conduzir um longa e o filma de modo quase documental, com uma câmera em constante movimento, como se o espectador/observador estivesse de fato presente no meio de todos aqueles eventos. Ao mesmo tempo, a diretora sabe em quais sequências precisa deixar a câmera parada e focada para amplificar a dramaticidade da trama e as emoções de seus personagens.

Muito dessa tensão dramática se dá também graças à atuação de seus protagonistas, e se Smith e Latimore demonstram possuir uma ótima química para fazer com que sua amizade cresça na tela, é Boyega e Poulter quem roubam a cena, o primeiro por conseguir transpassar o pesar de seu personagem pelo olhar, e o segundo pela vivacidade com que interpreta o odiável policial.

Há, porém, uma questão em relação a crueza com a qual o filme retrata a violência contra negros, algo feito sem nenhuma censura, tanto na agressão física, quanto nos xingamentos deferidos contra os personagens. Essa crueza em partes se justifica pelo objetivo do filme em denunciar a violência, mas há também uma pequena falta de tato em alguns momentos – algo extremamente necessário em um filme que trata de uma questão tão polêmica.

“Detroit em Rebelião” é um filme importante, e mesmo com seus problemas, ele se compensa pelo modo como envolve o espectador em seus momentos mais importantes. Tudo graças a Bigelow, que já se firmou como uma das mais talentosas e importante diretoras da atualidade. É esperado que ela continue sua ótima trajetória e ofereça mais filmes que denunciem problemas sociais e políticos à grande audiência.

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Crítica: Lino – Uma Aventura de Sete Vidas

ANIMAÇÃO NACIONAL SE BENEFICIA DE ÓTIMA TÉCNICA, MAS NÃO SURPREENDE COM SUA HISTÓRIA

Um desavisado pode achar que “Lino” é mais um blockbuster animado norte-americano. De fato, em termos técnicos, esta produção nacional não deixa a desejar em relação aos concorrentes estrangeiros, sendo um exemplar de como a animação brasileira cresceu até aqui. Entretanto, o novo filme do StartAnima (um dos mais importantes estúdios de animação do país, responsável pelo já clássico ‘O Grilo Feliz’) também revela uma série de pequenas falhas que comprometem sua narrativa.

“Lino” segue o protagonista homônimo (Selton Mello), um rapaz azarado que trabalha como animador de festas infantis vestindo uma fantasia de gato rosa, uma profissão que ele detesta. Na busca por mudar de vida, ele busca um feiticeiro pouco confiável que o acaba transformando no gato de sua fantasia. A situação do moço piora quando ele é acusado de um crime que não cometeu e começa a ser perseguido pela polícia.

A animação apresenta ótima fluidez e, mesmo não possuindo detalhes como texturas e pelugens mega realistas, é digna de aplausos pelo capricho com a qual é concebida. O design dos personagens também é bem trabalhado e eles se expressam com naturalidade, o que torna fácil a criação de afeição pelos espectadores.

O destaque, aliás, é o próprio Lino, que é o mais caricato do longa todo e se beneficia do ótimo trabalho de voz de Selton Mello, o qual com certeza é o melhor elemento do filme. O ator parece estar bastante confortável no papel e sua longa experiência com dublagem transparece na performance vocal. Dira Paes também se mostra desenvolta como a policial Janine, sendo uma pena que a personagem acabe apagada pela falta de desenvolvimento.

O roteiro consegue amarrar de forma eficiente os personagens do passado e do presente na vida de Lino, mas se atrapalha na condução da trama. Ao invés de evoluir o arco de seus personagens – e principalmente de seu personagem principal – com organicidade, a produção acaba focada em sequências de ação e piadinhas. Por exemplo: não há interação entre Lino e o feiticeiro Don Leon que o acompanha em sua jornada que explique qualquer sinal de amizade entre os dois (o protagonista passa a maior parte da projeção criticando o companheiro); ou mesmo um elemento que leve Janine a se afeiçoar pelas qualidades do Lino adulto (os dois já se conheciam quando jovens, o que não justifica a repentina adoração da garota pelo protagonista).

O filme ainda parece tentar mimetizar a relação de Sully e Boo em “Monstros S.A.”, ao colocar Lino para cuidar de uma bebezinha chamada Pestinha que constantemente o chama de “gatinho”. Trata-se de um elemento que não funciona, seja pelo modo como Lino age junto a garotinha, não suportando-a de início e então de forma súbita se apaixonando por ela; seja pelo fato da personagem não possuir nenhuma função narrativa. Sim, o filme poderia se desenvolver sozinho sem a Pestinha e ainda assim apresentar o mesmo desfecho.

Em detrimento de uma boa elaboração narrativa, o roteiro parece focar-se numa fórmula dada. Funciona assim: Lino é colocado em meio a um problema; Lino começa a ser perseguido por algum grupo de pessoas; Ligo escapa de seus perseguidores de forma “incrível”. Aqui há uma preferência pela busca de soluções fáceis para a resolução desses conlitos do protagonista, o que se reflete mesmo nos minutos finais do longa, quando ele já abandona essa fórmula.

As várias piadas do filme pouco divertem, com muitas delas sendo trocadilhos sem graça alguma ou se pautando em algum elemento totalmente fora da diegese da história – a brincadeira com o nome do Cirque du Soleil é um exemplo que une essas duas propriedades. Claro, há bons momentos, como a sequência da batalha de dança, mas nada que seja o suficiente para trazer gargalhadas ao público.

Que é ótimo ver o cinema de animação nacional se desenvolvendo e alcançado um grande público (“Lino” terá distribuição pela Fox International Productions, o que deve garantir que ele figure em muitas salas pelo país), isto não resta dúvida. Porém, é necessário também saber analisar uma produção como “Lino” e apontar onde ela pode melhorar.

Crítica: Manifesto

“Manifesto” é um filme de origem singular. Concebido inicialmente pelo diretor Julian Rosefeldt como uma instalação em vídeo que mostrava Cate Blanchett interpretando 13 personagens e recitando diferentes manifestos, ele foi em seguida editado para se tornar um longa-metragem de uma hora e meia. Não há história, mas há narrativa, uma ordenação no roteiro que Rosefeldt apresenta de maneira engenhosa e natural, fazendo com que hora o texto de dois manifestos se complementem, hora eles se contradigam, ascendendo uma discussão mental na cabeça do espectador – e um dos meus momentos favoritos é justamente quando o diretor aborda o Dogma 95.

Rosefeldt e Blanchett apresentam manifestos que discutem questões políticas e sociais, mas há uma predominância pelo debate em relação à arte e como ela deve ser configurada. Digo que tanto diretor e atriz apresentam os manifestos porque, apesar de Rosefeldt ter concebido a ideia, são ele e Blanchett quem a executam. Ele fazendo as escolhas técnicas para a elaboração do filme, ela oferecendo a atuação precisa e ardente necessária para uma produção como essa.

“Manifesto” é uma obra que não seria a mesma sem sua atriz principal. Blanchett tem uma força em seu olha e sua voz que é transposta para tela, um feito que somente uma atriz com sua técnica e experiência poderia realizar. É incrível até mesmo notar como ela muda seu olhar, tom de voz e postura ao interpretar os 13 personagens, sem parecer artificial e oferecendo identidade a cada uma de suas facetas no filme.

Tão pontual quanto a atuação de sua protagonista é a direção de Rosefeldt, que coreografa com precisão as movimentações da câmera e os cortes das cenas. Há diversos momentos nos quais é possível notar esse controle do diretor em relação a execução do filme, como na sequência em que uma mulher está oferecendo uma festividade a um grupo de convidados refinados, que chama a atenção desde a sua abertura até seu encerramento pelo modo como o diretor insere a câmera hora dentro, hora fora do ambiente da festa.

O diretor ainda cria cenários que não são míseros planos de fundo, mas sim metáforas dos manifestos expostos. Um exemplo: durante um enterro, uma mulher recita o manifesto dadaísta. A simbologia é óbvia, com o manifesto dadaísmo significando a quebra da arte, a morte da arte, o esquecimento do passado e a ignorância do futuro, ali representados pelo evento fúnebre, evento que revela a morte (da arte), enterra todas as experiências passadas e ao mesmo tempo faz com que se perca as esperanças do futuro. É um pequeno momento de ode ao tempo presente e à arte contemporânea.

Trazendo à tona a questão do que é a arte, Rosefeldt não busca oferecer ao seu espectador uma resposta. Na realidade, a grande intenção de seu filme é trazer algumas indicações e proporcionar que o espectador tire suas próprias conclusões em relação a esta pergunta que tem gerado debates há séculos. Este é o grande objetivo de “Manifesto”: fazer seu espectador pensar e refletir; e é justamente isto que torna o longa tão relevante.

Crítica: O Castelo de Vidro

A vida da escritora Jeannette Walls pode ser definida como “cheia de seus altos e baixos”. Vinda de uma família disfuncional e pobre, ela conseguiu ir de jornalista reconhecida por colunas de fofocas a autora de um best-seller biográfico. “O Castelo de Vidro” conta a longa trajetória da autora tendo como ponto de partida os próprios escritos da moça em seu livro. Entretanto, o que torna este filme tão cativante não é a interessante história de vida da protagonista e sim o modo como as relações dela são construídas junto a seus familiares – e em especial com o pai.

O longa segue as memórias de Walls (Brie Larson) que passou a infância pobre com seus 3 irmãos e seus pais vivendo em diferentes lugares dos Estados Unidos. A mãe de Walls, Rose Mary (Naomi Watts) era uma artista que por vezes dava mais atenção aos quadros que pintava do que aos filhos, enquanto o patriarca Rex (Woody Harrelson) vivia tendo problemas com álcool, arrumava confusão com as autoridades e por vezes tratava os filhos com grosserias. Prestes a casar, Jeannette se vê obrigada a novamente encarar Rex e Rose, ainda que isto não seja de todo seu agrado.

Ainda que o roteiro de Andrew Lanham e Destin Daniel Cretton (este último é também diretor da obra) peque por momentos de sentimentalismo barato e diálogos rasos que se acham poéticos, a construção do relacionamento de Jeannette e Rex é satisfatória e ocorre de forma natural. Se quando jovem a moça aceitava com facilidade as atitudes pouco éticas do pai, é natural ver que em seu crescimento ela comece a contestar essas ações para seu próprio bem e dos irmãos.

Há, entretanto, um problema no modo como esses atos de Rex são representados durante o longa. Cada atitude repreensível do personagem contra Jeannette ou um membro da família é seguida por um momento de quase redenção do pai, como se esses atos terríveis tivessem justificativa. Embora isto torne Rex mais humano – e é justamente isso que faz com que os personagens da obra sejam tão cativante, eles são humanos que erram e acertam – fica a sensação de que a obra está passando a mão da cabeça do patriarca, o que não é a melhor forma de expor o sofrimento passado pela família de Jeannette.

Tal sofrimento também se mostra amenizado pelas escolhas da direção de arte no momento de expor a miséria em que vive a família Walls. Neste caso, a direção confunde vestimentas e cenários rústicos com símbolos de pobreza extrema, deixando de lado qualquer outra representação visual mais chocante.

Se algum impacto é sentido na tela, ele vem muito mais da atuação de seu elenco do que de um esforço de direção. Brie Larson se mostra esplendida em conduzir o longa, conseguindo mudar com naturalidade a postura de sua personagem conforme a obra vai e vem no tempo. Harrelson encarna com veracidade seu problemático Rex, conseguindo até mesmo lhe inferir certo sotaque. Watts por sua vez é mais fechada – em parte porque sua personagem não tem tanto tempo de tela – porém, ela consegue exprimir dor e desespero quando necessário.

O grande mérito de “O Castelo de Vidro” é apresentar personagens reais, complexos e cheios de problemas, em um mundo em que ninguém é totalmente mau ou bom. Com isto, o filme expõe, ainda que aos tropeços, que todos os pais podem ser afetuosos e cruéis ao mesmo tempo, e que de alguma forma, o modo como eles nos educam refletirá em nosso destino. Trata-se de algo que Jeannette Walls aparentemente aprendeu da pior forma possível.

Crítica: Esta é a Sua Morte – O Show

A princípio, “Esta é a Sua Morte – O Show” parece ser mais um filme trash barato, afinal, trata-se de um longa de baixo orçamento, estrelado por um elenco pouco conhecido e cuja a premissa envolve uma dezena de mortes. E de fato o filme tem seu lado trash no modo como espetaculariza a morte. Entretanto, esta é também um obra de maior reflexão e cujo os pontos altos compensam seus deslizes.

A trama gira em torno de Adam Rogers (Josh Duhamel) um apresentador de reality shows que acaba tendo a carreira marcada após um assassinato e um suicídio ocorrerem ao vivo em um de seus programas. Abalado, ele tenta deixar a vida na televisão de lado, mas acaba recebendo uma proposta para apresentar um novo programa em que as pessoas são convidadas a se matarem em frente às câmeras. Relutante, ele acaba aceitando apresentar o reality uma vez que acredita poder com isso passar uma mensagem sobre a importância da vida.

O modo como Rogers facilmente muda de opinião em relação ao programa é um tanto quanto repentino – e mesmo o motivo utilizado para justificar essa mudança é fraco. Mas é interessante ver como a moral do personagem acaba decaindo. Inicialmente preocupado com a vida e em ajudar a irmã enfermeira, Rogers logo se torna obcecado em tentar tornar o programa de mortes um sucesso.

Os personagens mais interessantes, porém, são os de Mason (Giancarlo Esposito), um antigo faxineiro da rede de televisão na qual trabalha Rogers, e de Karina (Sarah Wayne Callies), a irmã do protagonista. Assim como Adam Rogers, Mason passa por um espécie de queda moral, mas seu desenvolvimento é muito mais palpável e suas motivações mais sólidas. Já Karina vai além de uma simples muleta para o protagonista e ganha delimitações próprias, se tornando uma personagem cativante e com uma das histórias de vida mais interessantes do longa.

É admirável o modo como o roteiro consegue dar tridimensionalidade para seus personagens, tornando-os mais humanos. Mesmo a gananciosa executiva de televisão Ilana (Famke Janssen) possui seus momentos de vulnerabilidade e em pontos cruciais revela suas fragilidades. Não há bem ou mal, mas apenas pessoas que estão vendo outras pessoas morrerem na sua frente – e que podem ou não aceitar isso com facilidade.

A grande questão do filme é o debate sobre a vida e a morte. Mesmo espetacularizando a morte de forma a quase flertar com o gore, “Esta é a Sua Morte – O Show” traz reflexões sobre a importância da vida e o como o ser humano muitas vezes não se importa com a vida alheia – nós apenas queremos é ver um pouco de sangue e violência barata na televisão. Pode parecer que em certo ponto o filme vai se aprofundar em uma discussão sobre suicídio, mas isso nunca acontece – e esse nem é o foco do longa.

A produção tem a vantagem da boa performance de seu elenco. Esposito consegue dar densidade a um Mason insatisfeito com sua vida, enquanto Janssen se sente à vontade com o sarcasmo de Ilana. Até mesmo o limitado Duhamel consegue transpassar as emoções múltiplas de Rogers para a tela. Callies, por sua vez, surpreende com a forma delicada com que constrói Karina.

“Esta é a Sua Morte – O Show” é um filme que não tem o mesmo cuidado que outras produções em criar uma atmosfera angustiante para sua narrativa, mas essa atmosfera acaba se formando pelo modo como a história é conduzida a partir de boas escolhas de roteiro e direção de atores. Ao final, a mensagem do longa pode soar um pouco rasa, mas se olharmos para todo o contexto em que ela ocorre, ela se mostra bastante importante.

Crítica: Gatos

Ao longo de sua existência, os documentários têm dado voz a pessoas comuns e apresentado culturas de diferentes locais ao redor do globo para um público amplo. O modo como um longa documental pode realizar esse feito é vasto, mas talvez a ideia utilizada pela produção turca “Gatos” (Kedi) seja uma das mais curiosas e criativas aplicadas no gênero: expor a vida dos habitantes de uma cidade a partir do ponto de vista dos felinos que nela moram.

A cidade em questão é Istambul, que segundo o próprio filme, tem sido habitada pelos bichanos ao longo de centenas de anos, tendo eles visto o fim e o começo de diversas eras. Os felinos que vivem nos dias atuais costumam ficar soltos pelas ruas do local, mas criam laços de amizade e afeto com alguns cidadãos, que por sua vez revelam a história de cada um para as telas da câmera.

As pequenas narrativas dos gatos se misturam às crenças que os turcos possuem em relação a felinos. É um povo que os enxerga como seres inteligente que muitas vezes trazem sorte e afastam energia negativas. Em alguns casos, os gatos se tornam tão importantes para essas pessoas que as ajudam a superar problemas pessoais, como depressão e solidão.

Em geral, cada entrevistado vê no gato que o acompanha alguma característica positiva que eles próprios possuem, ou desejam possuir, como se os bichanos fossem reflexos dessas pessoas. Em meio a isso, o longa também expõem a relação dos gatos com a história e desenvolvimento de Istambul, ainda que de forma minimizada.

Interessante notar a mão da diretora Ceyda Torun na construção da personalidade de cada gato a partir da montagem, acentuando características de forma a torná-los quase caricatos – o que não é ruim, pois faz com que o público consiga se envolver ainda mais com os animais na tela. Com uma edição pontual, a gata “Psycho”, por exemplo”, parece muito mais brava e temperamental do que poderia ser, mas isto a torna humana e uma das personagens mais carismáticas do longa.

Por se tratar de um filme sobre gatos, a construção do longa é leve e cheia de humor, o que é bom, ao mesmo tempo que um problema: como não há uma verdadeira evolução de tom – de modo que quando o filme fica mais sério, ele logo retornar à sua leveza anterior – a produção começa a ficar cansativa e repetitiva em seu final, ainda que não totalmente enfadonha.

Na tentativa de unir todas as histórias e gerar uma conclusão, o longa se encerra com passagens que trazem mensagens vazias ou óbvias. Claro, o filme precisava de uma conclusão, mas optar pela obviedade talvez não fosse a melhor saída. Ainda assim, “Gatos” é um filme interessante e muito bem elaborado, um tipo tão atraente de produção que deve chamar a atenção até daqueles que não estão acostumados com documentários.

Crítica: Una

Nunca antes parece ter havido tanto debate em relação a casos de assédio sexual contra mulheres. E isto não acontece apenas no Brasil, que tem dado relevância para tal discussão após as acusações de assédio contra José Mayer, pois em outros países cada vez mais mulheres tem denunciado situações de abuso. Deste modo, o filme “Una” chega aos cinemas em momento bastante propício por abordar tal tema e possibilitar que o debate continue. O problema se encontra na fórmula aplicada pelo filme para desenvolver o assunto.

O longa se foca em Una (Rooney Mara), que foi abusada sexualmente por um vizinho ainda criança. O caso foi investigado pela polícia e o vizinho acabou cumprindo uma pena baixa. Adulta, ela descobre o novo local de trabalho de Ray (Ben Mendelsohn), seu abusador, e resolve visitá-lo para tirar algumas satisfações sobre o ocorrido.

A tensão que envolve a narrativa é escancarada logo no primeiro encontro entre Una e Ray. A direção de Benedict Andrews reforçam essa tensão ao utilizar de trilha sonora que causa estranheza ao espectador, pois mistura uma composição instrumental com música eletrônica. Acontece que este aspecto estranho não é encontrado nos diálogos, nas atuações e nem no modo como Andrews filma. É como se o diretor não soubesse alinhar bem essas diversas características com o caráter estranho que propõe. Apenas a montagem converge em harmonia com a estranheza da trilha.

O roteiro deixa a desejar na exposição do abuso e da pedofilia, pois há demasiada romantização. Não que seja impossível que Una, em sua juventude, realmente tivesse se apaixonado por Ray, mas o roteiro faz parecer que a relação dos dois é  natural e que a garota tem total consciência do que faz (como se garotas de 13 anos tivessem tanta maturidade quanto homens de 40).

Além disto, Una é construída de forma que a faz parecer uma louca. Ela é posta como um psicótica que, por ainda manter aquela paixão juvenil por seu abusador, agora retorna na busca por destruir tudo aquilo que ele “construiu”. Nem mesmo Rooney Mara, que tenta dar mais densidade à personagem, deixa de cair nessa armadilha do roteiro e transformar Una em uma jovem com sérios problemas para discernir paixão de loucura.

Una é colocada flertando com outros homens durante o longa, numa tentativa de apaziguar essa visão imatura da personagem. Não funciona, principalmente quando o filme continua reforçando que aquela mulher ainda tem remanescências da garota pura de 13 anos a partir de detalhes com a cor de sua roupa em uma festa – branca, a cor da total pureza. Engraçado ainda como, apesar de Una ser colocada como pueril, o filme não deixa de enquadra-la em posições que ressaltam sua sexualidade e sua fragilidade perante um homem.

Acaba sendo fácil não se afeiçoar a Una e assumir as dores de Ray – muito bem interpretado por Mendelsohn – principalmente quando o roteiro da grande voz para o personagem masculino. Todas as acusações de Una são rapidamente rebatidas por Ray e o filme faz parecer que há uma justificativa pela atitude do homem, que merece a todo custo a perdão. Não que seja impossível que pessoas que tiveram atitudes como a de Ray não se arrependessem de seus atos, pois humanos são complexos e erram. Acontece que o modo como “Una” demonstra isto transforma Ray numa vítima – e se ele é a vítima, é fácil culpar a personagem feminina pela sua desgraçada.

“Una” é um filme atual, não há dúvida, mas tratar o abuso do modo como esta obra o trata é reforçar ideias de que a mulher possui culpa pelas atitudes do homem. E em um mundo onde todo relato de abuso é questionado, isto é algo muito perigoso.

Crítica: Martírio

Por quase 30 anos, Vincent Carelli tem documentado a vida da população indígena do Brasil e exposto os problemas por ela enfrentados. E mesmo após todo esse tempo, é notável que a vida desta parte do povo brasileiro pouco mudou e as questões que envolvem suas lutas pela ocupação das terras são cada vez mais preocupantes – basta procurar notícias que envolvam indígenas na internet para ter noção do que essa população tem passado. Em “Martírio”, Carelli volta sua atenção para as tribos de índios Guarani Kaiowá, habitantes do centro-oeste em constante conflito com fazendeiros da região.

Ao trazer uma abordagem que envolve uma exposição da história dos índios no Brasil mesclada com momentos da documentação obtida pro Carelli durante sua vivência com a tribo, o longa consegue expor diferentes situações e problemas relacionados à demarcação de terras indígenas. Fatos históricos surgem em contraponto com o modo de vida dos índios, possibilitando-nos conhecer um pouco melhor o desenvolvimento de certos preconceitos que são inferidos à população indígena – como a ideia errônea de que os índios são parte aculturada e não civilizada do povo brasileiro.

Por meio das visitas às tribos e entrevistas gravadas, Carelli oferece ao espectador o encontro a diferentes personagens que narram cada um os adversidades passadas por suas famílias e suas tribos. Interessante notar como o diretor consegue costurar as narrativas desses personagens com acontecimentos conhecidos dos livros históricos, como a Guerra do Paraguai, expandido nossa visão em relação à vida e história dos índios. De fato, um dos grandes trunfos do longa é expor toda a complexidade que envolve um problema muitas vezes menosprezado por parte da população do nosso país.

O documentário não apenas volta seu olhar para os indígenas, mas também realiza entrevista e expõe depoimentos dos fazendeiros e políticos que enfrentam os índios. Aqui há um esforço da direção em ressaltar as características antagônicas dessas pessoas. Trata-se de uma atitude desnecessária, uma vez que as falas cheias de preconceito e ignorância já expõem o caráter repreensível dessas pessoas, sem a necessidade de transforma-las em vilãs – ainda mais quando se tem um problema tão complexo quanto este vivenciado pelos indígenas.

A cultura do povo Guarani Kaiowá também é bastante referenciada, e ainda que este não seja o ponto principal do longa, o documentário mostra como é necessário conhecer o estilo de vida e as crenças do outro – e com isto o filme parece querer evitar que ocorra a disseminação de pré-julgamentos. Há momentos em “Martírio” que são difíceis de ver, mas não porque o filme erre, e sim pelo fato do filme expor situações tristes ou de grande tensão. São situações capazes de deixar o espectador alarmado, mas que também propiciam o desenvolvimento da afeição com a causa indígena.

Oferecer voz aos índios Guarani Kaiowa é o principal mérito de “Martírio”, um filme capaz de se mostrar atual ainda por muitos anos e que deve ser visto.

Crítica: Os Smurfs e a Vila Perdida

NOVA ANIMAÇÃO DOS SMURFS É BEM INTENCIONADA, MAS PECA EM SEU DESENVOLVIMENTO NARRATIVO

Após duas aventuras em live-action nos cinemas, os smurfs, os adoráveis homenzinhos azuis criados pelo belga Peyo, ganham um novo longa-metragem totalmente em animação 3D – uma mudança que deve ter sido feita pela Sony Pictures Animation após a má recepção das duas primeiras obras com atores. “Os Smurfs e a Vila Perdida” (Smurfs: The Lost Village) funciona como um reboot para os homens azuis no cinema, tendo seu elenco de vozes renovado e um novo design para seus personagens, o que os torna muito mais condizentes com o universo animado dessa aventura.

O foco da trama da animação é Smurfette, que como única garota da vila dos smurfs e tendo sido criada originalmente pelo vilão Gargamel, tenta descobrir qual característica a torna especial. Como todos os Smurfs possuem um nome que designa seu traço único (o smurf inteligente é o Gênio, o forte é o Robusto, etc.), Smurfette busca decifrar o significado do seu “ette”, o que a leva a encontrar um novo Smurf misterioso e em seguida a ser capturada por Gargamel. Descobrindo pistas da existência de uma vila perdida de smurfs através do caldeirão de Gargamel, Smurfette, junto de outros três smurfs, resolve ir atrás da tal vila para avisar seus residentes da ameaça do malvado feiticeiro.

O filme parece ter consciência de uma das maiores críticas em torno dos smurfs, que trata da ausência de personagens femininas nas histórias dos homens azuis (o que deu origem a um conceito chamado “Princípio Smurfette” na cultura pop), dando assim o protagonismo à principal personagem mulher do grupo e inserindo outras garotas na narrativa. Entretanto, surge a questão do “para que isto?” uma vez que o filme não sabe como trabalhar com Smurfette. A todo o momento, a personagem é salva por homens ou é colocada à sombra dos mesmos quando surge algum perigo, além de ter de aturar as investidas e elogios pouco sutis do smurf Robusto – algo um tanto quanto estranho em questão de representatividade em um longa com roteiro encabeçado por duas mulheres.

Quando Smurfette finalmente toma para si o papel de heroína, é de maneira tardia e com uma atitude pouco criativa. É como se o filme quisesse mostrar algum empoderamento para seu público feminino, mas sem querer deixar o masculino constrangido – e em um mundo com obras empoderadoras como “Zootopia” e “Moana”, apenas para citar casos recentes, esta é uma atitude pouco eficiente.

O roteiro também se perde ao não saber como equilibrar o foco que hora está em Smurfette, hora está na busca pela vila perdida, criando uma confusão no desenvolvimento da história. As piadas são no geral pouco eficientes, com muitas se apoiando em gags visuais sem criatividade (a não ser pelos efeitos 2D que as acompanham), ou em frases feitas como “Eu sou velho, mas não sou cego” que dificilmente vão fazer alguém com mais de 7 anos de idade rir. Os personagens, porém, são um ponto positivo da narrativa que, mesmo se apoiando nos aspectos unidimensionais de cada um, consegue torná-los carismáticos perante o público geral (com destaque especial para Gargamel e o gato Cruel).

Se há um elemento do longa que enche os olhos é seu design de produção, que apresenta personagens bem detalhados em belas paisagens de cores vibrantes condizentes com esse universo lúdico dos smurfs. A animação é bem fluída e ágil, uma característica que tem se mostrado como um diferencial para a Sony Pictures Animation em relação à concorrência, sendo novamente bem empregada para trazer aquela sensação de desenho animado da década de 1980/90. O filme também apresenta uma ótima trilha original composta por Christopher Lennertz capaz de conferir singularidade à narrativa, mas peca ao substituir os belos acordes de Lennertz por músicas pop numa tentativa falha de modernização do universo smurf.

É notável que “Os Smurfs e a Vila Perdida” apresenta boas intenções narrativas, mas o modo como elas são aplicadas é insatisfatório, e sem uma grande história ou elementos cômicos eficientes, o filme não consegue de destacar em meio a tantas animações inovadoras. Os menores irão se divertir, mas qualquer criança maior ou adulto que acompanhe seus filhos infelizmente acabará aborrecido com os problemas da produção.

Crítica: Power Rangers

power rangersNOVO LONGA CONSEGUE RENOVAR A FRANQUIA DOS HERÓIS DA SABAN

Com mais de 20 anos de existência, a franquia Power Rangers (inspirada nos Super Sentais japoneses) tem se mantido viva na televisão com várias temporadas que têm como base uma trama de premissa simples, mas de fácil apego pelas crianças. Entretanto, mesmo o tempo chega para os Rangers, sendo notável que os seriados não têm o mesmo apelo que tinham na década de 90. Buscando transportar a história dos heróis coloridos para o cinema (algo já realizado durante o auge da série de tv nos anos 90) e atrair a atenção do público de filmes de heróis atuais, a Saban e a Lionsgate se uniram para dar vida a um novo “Power Rangers”.

Há uma reinvenção da história dos heróis coloridos para agradar uma nova geração, ao mesmo tempo em que mantém elementos e personagens da primeira temporada da série – para deixar aqueles mais nostálgicos em euforia. A trama se passa na Alameda dos Anjos, onde cinco jovens (Jason, Kimberly, Billy, Zack e Trini), sem querer encontram cinco moedas que lhes conferem habilidades sobre-humanas. Logo eles são convocados por Zordon (Bryan Cranston), um ser alienígena que lhes conta que os jovens devem se tornar os novos Power Rangers a fim de derrotarem a ameaça da feiticeira Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

A narrativa é construída de forma muito mais séria que nas séries de televisão, mas segue uma estrutura básica dos filmes de origem de super-herói. Isto não significa que o filme não tenha seus méritos e não se destaque entre as demais produções. “Power Rangers” ganha força quando se distância dos filmes da Marvel e da DC e aposta em uma trama adolescente. Há diversas temáticas relacionadas a juventude abordadas pelo filme, desde o já batido bullying, até questões como problemas familiares, sexualidade e slut-shaming (sim, estou falando do filme dos Power Rangers). Mesmo que nem todas essas questões sejam aprofundadas e que alguns clichês sejam aplicados, é bom ver um filme com o alcance deste aqui abordando tais assuntos.

Os personagens também são bem desenvolvidos, em especial Jason, Kimberly e Billy, que possuem maior tempo de cena e praticamente ancoram toda a trama. Zack e Trini possuem a sua vez, mas de forma tardia e em alguns momentos o roteiro parece forçar uma leve mudança de personalidade destes dois para que eles consigam interagir com os demais.

Há uma ótima química entre o elenco principal, com Dacre Montgomery (Jason) e Naomi Scott (Kimberly), sabendo conduzir seus arcos narrativo com firmeza. Já Ludi Lin (Zack) extrapola na atuação em alguns momentos, enquanto Becky G. (Trini) não é de todo mal, mas deixa sua personagem muito unidimensional. RJ Cyler (Billy), é quem mais se destaca dos cincos, sabendo transpor para a tela um Billy carismático, engraçado, mas que não deixa de apresentar problemas pessoais. A Rita Repulsa de Elizabeth Banks é um pouco disforme: hora parece uma vilã exagerada e sem graça, hora revela seu lado mais sério em seus melhores momentos.

O filme consegue dar conta de trazer à tela bons efeitos especiais na maior parte da projeção, ainda que deslizes ocorram – o monstro Goldar criado por Rita é um exemplo a parte de má aplicação de efeitos e péssimo design. Os trajes e os zords são um pouco exagerados em seus detalhes, e não é incomum que em alguns momentos a tela pareça muito poluída, mas não se trata de algo que estrague a projeção como um todo (apenas um detalhe que pode ser corrigido em filmes futuros, já que este planeja ser o primeiro de uma nova série). Para aqueles acostumados com a série de tv cheias de lutas de artes marciais, “Power Rangers” pode ser um pouco frustrante, já que a maior parte da ação ocorre com os Rangers dentro de seus zords. O diretor Dean Israelite também abusa dos cortes nas cenas de ação, mas se há erros pequenos aqui, a direção de Israelite sabe proporcionar no restante do longa um ritmo ágil bastante agradável e envolver o espectador com a história.

O roteiro faz um bom trabalho expondo diversos elementos do mundo dos Power Rangers, ainda que para isso recorra a alguns diálogos expositivos. O interessante é notar que há um “universo” próprio sendo construído, e isto o filme faz muito bem, já que todas as ideias são bem encaixadas. Se “Power Rangers” não oferece grandes novidades às narrativas de super-heróis, o longa ao menos consegue apresentar uma identidade própria, renovar a franquia e trazer uma história bem costurada.

P.S.: O filme possuí uma cena no meio dos créditos.