Crítica: Power Rangers

power rangersNOVO LONGA CONSEGUE RENOVAR A FRANQUIA DOS HERÓIS DA SABAN

Com mais de 20 anos de existência, a franquia Power Rangers (inspirada nos Super Sentais japoneses) tem se mantido viva na televisão com várias temporadas que têm como base uma trama de premissa simples, mas de fácil apego pelas crianças. Entretanto, mesmo o tempo chega para os Rangers, sendo notável que os seriados não têm o mesmo apelo que tinham na década de 90. Buscando transportar a história dos heróis coloridos para o cinema (algo já realizado durante o auge da série de tv nos anos 90) e atrair a atenção do público de filmes de heróis atuais, a Saban e a Lionsgate se uniram para dar vida a um novo “Power Rangers”.

Há uma reinvenção da história dos heróis coloridos para agradar uma nova geração, ao mesmo tempo em que mantém elementos e personagens da primeira temporada da série – para deixar aqueles mais nostálgicos em euforia. A trama se passa na Alameda dos Anjos, onde cinco jovens (Jason, Kimberly, Billy, Zack e Trini), sem querer encontram cinco moedas que lhes conferem habilidades sobre-humanas. Logo eles são convocados por Zordon (Bryan Cranston), um ser alienígena que lhes conta que os jovens devem se tornar os novos Power Rangers a fim de derrotarem a ameaça da feiticeira Rita Repulsa (Elizabeth Banks).

A narrativa é construída de forma muito mais séria que nas séries de televisão, mas segue uma estrutura básica dos filmes de origem de super-herói. Isto não significa que o filme não tenha seus méritos e não se destaque entre as demais produções. “Power Rangers” ganha força quando se distância dos filmes da Marvel e da DC e aposta em uma trama adolescente. Há diversas temáticas relacionadas a juventude abordadas pelo filme, desde o já batido bullying, até questões como problemas familiares, sexualidade e slut-shaming (sim, estou falando do filme dos Power Rangers). Mesmo que nem todas essas questões sejam aprofundadas e que alguns clichês sejam aplicados, é bom ver um filme com o alcance deste aqui abordando tais assuntos.

Os personagens também são bem desenvolvidos, em especial Jason, Kimberly e Billy, que possuem maior tempo de cena e praticamente ancoram toda a trama. Zack e Trini possuem a sua vez, mas de forma tardia e em alguns momentos o roteiro parece forçar uma leve mudança de personalidade destes dois para que eles consigam interagir com os demais.

Há uma ótima química entre o elenco principal, com Dacre Montgomery (Jason) e Naomi Scott (Kimberly), sabendo conduzir seus arcos narrativo com firmeza. Já Ludi Lin (Zack) extrapola na atuação em alguns momentos, enquanto Becky G. (Trini) não é de todo mal, mas deixa sua personagem muito unidimensional. RJ Cyler (Billy), é quem mais se destaca dos cincos, sabendo transpor para a tela um Billy carismático, engraçado, mas que não deixa de apresentar problemas pessoais. A Rita Repulsa de Elizabeth Banks é um pouco disforme: hora parece uma vilã exagerada e sem graça, hora revela seu lado mais sério em seus melhores momentos.

O filme consegue dar conta de trazer à tela bons efeitos especiais na maior parte da projeção, ainda que deslizes ocorram – o monstro Goldar criado por Rita é um exemplo a parte de má aplicação de efeitos e péssimo design. Os trajes e os zords são um pouco exagerados em seus detalhes, e não é incomum que em alguns momentos a tela pareça muito poluída, mas não se trata de algo que estrague a projeção como um todo (apenas um detalhe que pode ser corrigido em filmes futuros, já que este planeja ser o primeiro de uma nova série). Para aqueles acostumados com a série de tv cheias de lutas de artes marciais, “Power Rangers” pode ser um pouco frustrante, já que a maior parte da ação ocorre com os Rangers dentro de seus zords. O diretor Dean Israelite também abusa dos cortes nas cenas de ação, mas se há erros pequenos aqui, a direção de Israelite sabe proporcionar no restante do longa um ritmo ágil bastante agradável e envolver o espectador com a história.

O roteiro faz um bom trabalho expondo diversos elementos do mundo dos Power Rangers, ainda que para isso recorra a alguns diálogos expositivos. O interessante é notar que há um “universo” próprio sendo construído, e isto o filme faz muito bem, já que todas as ideias são bem encaixadas. Se “Power Rangers” não oferece grandes novidades às narrativas de super-heróis, o longa ao menos consegue apresentar uma identidade própria, renovar a franquia e trazer uma história bem costurada.

P.S.: O filme possuí uma cena no meio dos créditos.

Crítica: Divertida Mente

divertida mente

UM DOS MAIS CORAJOSOS ACERTOS DA PIXAR

A primeira vez que ouvi falar de “Divertida Mente” (Inside Out)  em 2011 o filme nem ao menos tinha nome, era apenas chamado de “o filme da Pixar que se passa dentro da cabeça”. Na época, fiquei curioso em saber como seria tal filme e também pelo fato de que o diretor Pete Docter estava tocando o projeto, sendo que ele já havia dirigido “Up – Altas Aventuras”, uma das minhas animações favoritas.

O tempo passou, o filme foi ganhando suas primeiras informações, detalhes dos personagens, teaser, trailers e eu acompanhei tudo com grande expectativa. Felizmente, a Pixar não decepcionou e conseguiu fazer um trabalho que será eternamente lembrado, junto com muitas outras animações do estúdio.

A trama de “Divertida mente” se passa dentro da cabeça de uma menina de 11 anos chamadas Riley. As emoções Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva comandam o dia a dia da menina, sempre evitando problemas e possibilitando que sua personalidade continue intacta. Isto até o dia que Riley e seus pais mudam de cidade, criando situações cada vez mais complicadas para a garota. Como se não bastasse isto, Tristeza acaba alterando a memória da menina. Alegria, na tentativa de consertar o erro, acaba caindo junto de Tristeza em um labirinto de memória à longo prazo.

A Pixar sempre foi muito boa em pegar ideias criativas e criar pequenos universos com elas. Em “Divertida Mente” o estúdio faz isto sabendo inserir cada detalhe que envolve a mente de uma pessoa (não precisa ser necessariamente uma criança) e inserí-lo na história. Durante sua jornada pelas memórias de Riley, Alegria e Tristeza vão parar no centro dos pensamentos abstratos, encontram o estúdio dos sonhos (que se assemelha a um estúdio de cinema) e entram no subcosciente da garota. Tudo isto em um processo de desenvolvimento que faz com que as duas personagens evoluam (principalmente Alegria) e entendam a importância que elas tem em manter a ordem dos sentimentos e pensamentos de Riley.

Todo esse mundo de dentro da cabeça é construído com personagens muitas vezes sem forma definida, o que é totalmente plausível uma vez que eles vivem dentro da cabeça. Os cenários coloridos ressaltando o fato de que vemos o interior da mente de uma pessoa, ou seja, um cenário muito abrangente e complexo, em que a dicotomia passa longe.

Um fato é que a Pixar sempre conseguiu trazer personagens complexos para as animações familiares, mas aqui o estúdio se supera. Não há vilões ou heróis, todas as emoções tem seus defeitos e suas qualidades, chegando a ser interessante perceber que mesmo que esses personagens sejam ligados a um só sentimento, eles apresentam uma alta complexidade de caráter.

Pete Docter conduz o filme com seu estilo característico, onde comédia e ação fazem parte, mas momentos silenciosos e reflexivos. A trilha sonora de Michael Giacchino reforça esse tom intimista que o filme possui e precisa ter – afinal, estamos falando da mente humana.

Pode ser estranho falar isto do estúdio que trouxe “Toy Story”, Wall-E” e “Up-Altas Aventuras”, mas “Divertida Mente” é provavelmente o trabalho mais corajoso da Pixar. Não somente por se passar dentro da mente humana, mas também por expor como essa mente é complexa e como sentimentos vistos como medo, tristeza, nojo e raiva, que são considerados “ruins”, são importantes para a formação da personalidade de qualquer pessoa.

“Divertida Mente” consegue emocionar facilmente até mesmo aqueles com coração mais duro, mas também possui ótimos momentos cômicos, que tiram gargalhadas da platéia. É mais uma obra de arte de grande criatividade da Pixar e um dos melhores filmes de 2015 até agora.

Crítica: Quando Fala o Coração

Quando fala o coração

No começo do século XX, Sigmund Freud publicou os estudos que viriam fundamentar as teorias da chamada psicanálise. Com a popularidade desse meio de pesquisa da mente, que tinha como base seus estudos sobre os sonhos, o mundo da arte acabou sendo influenciado – em especial a corrente artística conhecida como Surrealismo. De olho tanto na psicanálise quanto no surrealismo, Hitchcock dirigiu “Quando Fala o Coração” (Spellbound), sem deixar que o filme perdesse a cara de produção hollywoodiana clássica.

Criando uma trama de mistério onde as pistas são os sonhos, o roteiro segue a psicanalista Costance Petersen (Ingrid Bergman), que tenta desvendar a morte do chefe do hospital no qual trabalha investigando a mente de um homem (Gregory Peck), única testemunha do acontecimento e que sofre de amnésia.

Se as emoções tem forte influência sobre o psicológico, então a personagem Constance é o maior exemplo disso. A partir do momento que se apaixona pelo desconhecido interpretado por Peck, ela fica obcecada em provar que ele não é culpado do crime a qual todos o condenam (o título brasileiro, de certo modo, serve como uma metáfora para esse modo de agir da personagem). Embora sejam compreensíveis suas ações, inclusive pela temática tratada, é estranho pensar como uma médica tão respeitada como ela se deixa levar por emoções que ela sabe que deve controlar. Há algo de demasiadamente romântico no modo como a personagem é conduzida, embora Ingrid Bergman a interprete com grande vigor, tentando em todos os instantes transformá-la em uma mulher de caráter forte e com preocupações estritamente profissionais – mas é difícil escapar de algumas sequências amorosas sem fazer com que Constance pareça estar ali apenas pela sua paixão pelo personagem masculino.

Como o inconsciente e o subjetivo são muito importantes no filme, o diretor utiliza de estratégias fílmicas que evidenciam o poder da câmera em mimetizar o psicológico. Em vários momentos há, por exemplo, o uso da câmera subjetiva, que exaltam o nível de tensão do longa e tiram o espectador do papel de voyeur, recorrente nos filmes de Hitchcock, para inseri-lo na pele dos personagens – como se o espectador fosse  seu cúmplice. Destaque especial para a climática cena do final, que em determinado ponto é narrada de modo subjetivo. Há também a bela sequência do sonho do personagem de Peck, onde a direção de arte utiliza de referências visuais vindas diretamente das obras de Salvador Dalí.

O uso do forte contraste evidencia que este é um filme noir, assim como grande parte das produções da época. Alguns podem pensar que isso torna esta obra apenas mais um filme comercial de Hollywood, mas a verdade é que esta escolha estética serve para auxiliar o filme, aumenta o clima de mistério no psicológico do espectador a partir da concepção visual – algo que não poderia ser descartado justamente em um filme que busca desvendar os mistérios da psique.

Se Hitchcock se propõe a mostrar como a complexidade do inconsciente humano pode revelar diversos segredos escondidos, utilizando as teorias de Freud ele consegue e o faz muito bem. “Quando Fala o Coração” se torna um thriller psicológico poderoso e envolvente, capaz de dialogar tanto com a ciência quanto com a arte.

Crítica: A Dama Oculta

a dama oculta

Ainda que seja conhecido como “Mestre do Suspense”, Alfred Hitchcock sempre dialogou com outros gêneros. “A Dama Oculta” (The Lady Vanishes) é um famoso caso onde o diretor consegue criar um filme com tons de comédia e de romance juvenil, sem deixar de perder o ritmo intrigante e envolvente, característico de sua filmografia.

Numa viagem pela Europa, a jovem inglesa Iris (Margaret Lockwood) conhece a simpática Sra. Froy (Dame May Whitty). Quando Iris se acidenta pouco antes de embarcar no trem de volta à Inglaterra, é Froy quem a ajuda. Durante a viagem Iris adormecer, e quando acorda percebe que Froy desapareceu. Enquanto todos os passageiros negam conhecer Froy ou ao menos tê-la visto, fazendo com que Iris se passe por louca, a garota recebe a ajuda do galante estudante de música Gilbert (Michael Redgrave).

Embora o romance quase improvável entre Gilbert e Iris (que está noiva de um rico inglês, o que não lhe agrada como um todo) possa parecer “clichê” para o público atual, ele não se torna enfadonho – na verdade é uma relação bem verossímil e divertida. Isto graças ao fato dele não ser o foco da narrativa, embora sempre se mantenha em perfeita sincronia com ela, assim como as tiradas cômicas.

Seja pelos diversos trocadilhos inteligentes ou pelas próprias personagens, como a dupla de ingleses azarados viciados em críquete (interpretados por Basil Radford e Naunton Wayne); o fato é que o filme consegue fazer rir em meio ao clima de tensão e medo. Como a viagem de trem é uma analogia ao tempo finito que aquelas personagens possuem para encontrar a mulher desaparecida, o longa vai se tornando mais agonizante e instigante conforme a história progride.

Lançado em 1938, o medo invocado surge como uma espécie de presságio para o problema que viria assolar a Europa – e o mundo – nos anos seguintes: a Segunda Guerra Mundial. De fato, a partir de certo ponto, narrativa se foca em tratar de questões que afligiam aquela região naquela época. É parte do retrato temporal feito por Hitchcock, mas que pode ser apreciado ainda hoje, pois o longa consegue ser envolvente a ponto de não ter se tornado um filme “da época” – e com isso quero dizer: um filme que só seria atraente naquela época. A maior prova disto é que “A Dama Oculta” ainda serve de inspiração para produções atuais, a exemplo de “Plano de Vôo” de 2005 estrelado por Jodie Foster, e inclusive já teve um remake lançado no ano passado para televisão.

É interessante perceber também como o roteiro consegue dar a atenção necessária para cada personagem, ainda que coadjuvante. Os dois ingleses ou o casal de amantes parecem alheios à narrativa principal, mas são elementos chaves para comprovar a sanidade da heroína. Do mesmo modo, pequenos detalhes e situações, que podem passar despercebidos inicialmente, farão com que a trama se desenvolva pouco a pouco.

Graças ao seu bem trabalhado roteiro e a mão de Hitchcock, capaz de conduzir de forma assertiva o suspense em meio à variedade de personagens e subgêneros aqui expostos, “A Dama Oculta” se molda como um dos clássicos mais influentes da carreira do diretor, e um dos seus melhores filmes – por mais que não tenha o prestígio de produções como “Psicose” ou “Pássaros”.

Crítica: As Tartarugas Ninja

Tartarugas ninjas

NOVA AVENTURA DAS TARTARUGAS NÃO EMPOLGA E PERDE A CHANCE DE INICIAR UMA NOVA E INTERESSANTE FRANQUIA

Seja nos quadrinhos ou na TV, as Tartarugas Ninja já tiveram sua história recontada diversas vezes, sempre conservando seus elementos e personagens mais marcantes e ainda trazendo conteúdo novo suficiente para se manter atraente. No cinema a coisa não é muito diferente. Como o último longa dos heróis data de sete anos atrás, parece ter chegado a hora de Hollywood tentar adaptar novamente os conhecidos personagens, agora com foco na geração atual. Acontece que o novo “As Tartarugas Ninja” (Teenage Mutant Ninja Turtles) está longe de ser um filme capaz de reacender o interesse do público no grupo de répteis que lutam ninjutsu.

A cena de abertura é até bastante agradável: uma animação narrada pelo Mestre Splinter que serve de prelúdio para o filme e que mimetiza o estilo das histórias em quadrinhos. Passado esse início a jovem repórter April O’Neil (Megan Fox) é apresentada. Ela está investigando por vontade própria as ações do Clã do Pé, uma gangue criminosa que anda causando estragos em Nova York. Só que como April logo descobre, o Clã do Pé tem seus próprios problemas: um grupo de tartarugas adolescentes, mutantes e ninjas, formado por Leonardo, Rafael, Donatello e Michelangelo.

Por esconder demais as tartarugas no começo, o roteiro toma a opção de forcar em April, que além de se transformar em protagonista, é a principal referência humana que a narrativa dá ao público. Com isso é criada uma trama que une a origem das tartarugas a April, realçando a importância da jornalista. Só que os roteiristas não conseguem desenvolver a personagem. Por mais que sejam conhecidas suas motivações, não se vê um crescimento da garota, que acaba por virar vítima dos flertes dos personagens masculinos.  A escolha de Megan Fox para interpretá-la também não ajuda a personagem. Fox não é expressiva o suficiente e não tem carisma para conseguir guiar o filme.

Se a história não acerta com aquela que é a personagem de maior presença na tela, o restante do elenco então fica ainda menos expressivo. As tartarugas que deveriam ser o grande chamariz da produção, além de estranhas, são totalmente sem graça. Ao contrário de seus equivalentes em outras mídias, é difícil perceber alguma diferença entre elas, como se todas tivessem a mesma personalidade. Se salva somente Michelangelo, que por causa das diversas piadas que faz, acaba por se apresentar como o mais atrapalhado e piadista dos quatro irmãos.

Vilões e coadjuvantes parecem totalmente esquecidos. O Destruidor, líder do Clã do Pé e arqui-inimigo das tartarugas, além de ser transformado em uma espécie de robô-samurai (muito semelhante ao Samurai de Prata do filme ‘Wolverine: Imortal’) não possui qualquer tipo de construção em nível de caráter – assim como todos os personagens nesse filme.

Além das falhas narrativas, o filme acumula diversas falhas técnicas e de continuidade, como um personagem que segura um objeto em um plano, e no plano seguinte o objeto desaparece. Um rápido exemplo: na sequência em que um caminhão está descendo ladeira abaixo em uma montanha de neve, Michelangelo não tem junto a ele nada além de seus nunchakus – e de fato, por motivos que não revelarei para não comprometer qualquer sequência do roteiro, por mais fraco que este seja, sabemos que ele não está portando nada que não seja suas armas. Um plano depois e “Mikey” agora possui uma espécie de carrinho mecânico que ele utiliza para correr pelo terreno nevado. Ele guarda o carrinho em suas costas, e no plano seguinte o carrinho desaparece. Pode parecer um detalhe mínimo, mas falhas como essa vão crescendo pelo filme, como um efeito bola de neve.

A direção de Jonathan Liebesman demostra amadorismo em não saber conduzir o filme. O diretor abusa de uma câmera histérica, que se move em quase todos os planos, como se o filme todo fosse uma grande cena de ação. Por isso a produção não consegue trazer qualquer apelo emocional, mesmo quando tenta, já que para isso é necessário um pouco mais de tempo de repouso para o espectador absorver o que vê em cena e se afeiçoar à narrativa. A trilha sonora muito repetitiva também não ajuda.

Ainda que tenha as quatro tartarugas ninjas, o Clã do Pé, piadas com Pizza, a famosa frase “Cowabonga” (dita em apenas uma cena) e efeitos especiais de primeira, “As Tartarugas Ninja” é um filme no qual faltam elementos: falta uma história envolvente, personagens cativantes, direção competente e um elenco carismático.

Crítica: The Rover – A Caçada

the rover

SEGUNDO FILME DE DAVID MICHÔD É MARCADO POR BOAS ATUAÇÕES E ROTEIRO BEM ELABORADO

Um dos grandes méritos de “The Rover – A Caçada” (The Rover), segundo longa do diretor David Michôd, está em unificar de forma notável o subjetivo do seu protagonista, com aquilo que é mostrado em cena para o espectador. Dessa forma, o filme é quase todo como uma viagem conduzida pela percepção do personagem de Guy Pearce, como se o psicológico dele se manifestasse na imagem, sem que necessariamente o diretor busque transformar sua produção em um thriller psicológico – é tudo se manifestando nas entrelinhas, de forma que cabe ao público perceber isso.

Baseado em uma ideia do próprio Michôd, a história se passa na Austrália, 10 anos depois de um colapso econômico. Pessoas vivem em situações precárias e fazem de tudo por dinheiro. Um homem (Pearce) tem seu carro (o único bem que possui) roubado por uma gangue de bandidos. Furioso, ele parte em uma busca para recuperar o automóvel, esbarrando no meio do caminho com Rey (Robert Pattinson), um garoto com alguns problemas e irmão mais novo de um dos integrantes da gangue.

As ambientações nos desertos australianos, alinhada ao figurino das personagens, refletem o misto de vazio e desordem no qual vive não só aquela população, mas a mente do protagonista. Não por acaso, ele também passou por momentos difíceis em sua vida dez anos antes, sendo o colapso do país funcionando como uma metáfora para seus problemas.

Como o protagonista parece estar alheio a tudo que não envolva seu carro – quase como um espelho da sociedade individualista contemporânea – o longa ganha um tom de monotonia, que é quebrado várias vezes por disparos de armas de fogo que fazem os personagens sangrarem sem repreensão. É uma violência chocante de início, mas ao mesmo tempo é natural naquele universo narrativo.

Esse clima do filme ainda se reflete no modo como alguns personagens agem, sem grandes explicações para suas ações na primeira parte do longa. Por causa disso, o começo do filme parece até surreal e o espectador pode se perguntar “mas por que eles estão fazendo isso?”. As respostas podem vir ou não algum tempo depois, uma vez que o roteiro deixa para o público completar algumas lacunas com sua própria interpretação. Porém, vale ressaltar que algumas justificações e motivações podem ser um pouco superficiais, deixando a desejar (em especial aquela exposta ao final).

O roteiro ainda chama atenção pelos seus diálogos bem trabalhados e cheios de emoção, que ganham ainda mais força quando entonados pela boa atuação de Pearce (presente na maior parte das conversações). De fato, Pearce é capaz de criar um homem duro e rígido com o mundo, mas que ainda assim é machucado pelo passado, dando oportunidade para que Michôd faça com quem algumas sequências se foquem quase totalmente no rosto do ator, que se expressa de forma natural, trazendo grande veracidade para o longa.

Pattinson não fica muito atrás, sendo obrigado a agir em diversos momentos difíceis. O jovem ator é capaz de mimetizar cacoetes naturalmente para o estranho Rey, e só se perde um pouco na hora de fazer o sotaque australiano, que fica um pouco esquisito, mas nada que o desmereça sua atuação, muito mais ligada à expressão corporal do que à fala.

Explorando o melhor do trabalho de seus atores, e tendo o roteiro e a direção primorosos de Michôd, “The Rover” se torna um filme agradavelmente alinhado e planejado, utilizando bem seus principais artifícios para entregar ao público uma obra reflexiva e atual.

Crítica: O Mercado de Notícias

o mercado de noticias

Em 1626 foi encenada pela primeira vez a peça “O Mercado de Notícias”, do dramaturgo inglês Ben Jonson, que criticava com bom humor a atividade jornalística ainda no início de sua formação. Quando o diretor Jorge Furtado, em pleno século XXI, resolve produzir um documentário sobre o tema “jornalismo”, ele dá de cara com a obra de Jonson e daí surge o filme de nome homônimo à peça.

Furtado utiliza a peça como combustível para uma calorosa discussão sobre o papel do jornalista, fazendo em pouco mais de uma hora e meia um rápido (porém bem fundamentado) panorama da imprensa brasileira atual. Para isso ele entrevista personalidades importantes do meio jornalístico, como Bob Fernandes, Mino Carta, Cristiana Lôbo, entre outros tão notáveis quantos estes aqui citados.

Os debates com os jornalistas passam diversas questões, entre elas a censura, a busca pela informação, a escolha e veracidade da mesma; ilustrando algumas delas com casos polêmicos, como o do quadro falso do pintor Picasso exposto em um prédio do INSS. Analisando diversos pontos dessas situações, o documentário consegue demonstrar como a falta de pesquisa ou testemunhos duvidosos podem colocar em cheque a função do jornalista.

Só que criticar o jornalismo não é a intenção de Furtado, e se o faz, logo demonstra, através dos depoimentos de seus entrevistados bem informados, como uma notícia pode ser bem construída quando se há uma verdadeira investigação por trás. O jornalista é assim colocado em uma posição fundamental na sociedade atual, já que é aquele que informa e constrói opiniões.

Junto às entrevistas surge a peça de teatro, interpretada especialmente para o filme. Ela expõe de maneira narrativa grande parte dos assuntos tratados, adicionando reflexões de pouco mais de três séculos atrás, mas que ainda se enquadram no contexto atual graças ao mau gerenciamento de alguns meios de notícias.

É notável que as sequências da peça acabam por se perder dos debates exposto conforme o filme avança, se tornando um tanto quanto enfadonhas e desnecessárias, em especial no final. Mas vale dizer que a peça, ao quebrar levemente a discussão ali tratada, da um momento de descanso ao espectador, que deve estar atento a todos os detalhes citados no documentário, afinal, é um debate que nunca para. Com a peça o espectador tem uma rápida trégua em meio sua reflexão e pode se divertir com a comicidade do drama apresentado.

Graças ao bom trabalho na montagem, o filme não se perde, fazendo com que o espectador possa acompanha-lo com grande facilidade. Suas reflexões possuem ótimos argumentos, fazendo com que “O Mercado de Notícias” seja um documentário fundamental para qualquer profissional do jornalismo ou aspirante, e mesmo que aqueles que estejam mais inteirados nesse meio possam achar algumas opiniões um tanto quanto redundantes, sempre é possível adicionar algo ao seu repertório acompanhando os diversos pontos de vista expostos neste longa.

Crítica: Aviões 2 – Heroís do Fogo ao Resgate

aviões 2

Há muitas animações que só ganham continuações pela possibilidade que os estúdios têm, como empresas, de faturar em cima de produtos licenciados e brinquedos. É o que acontece com a franquia “Carros” da Pixar (que tem um terceiro filme encomendado), e seu spin-off “Aviões”, produzido pela Disney, que já tinha seu segundo longa garantido antes mesmo do primeiro estrear.

Não é de se estranhar que o novo “Aviões 2: Heróis do Fogo ao Resgate” (Planes: Fire & Rescue) careça sobretudo de uma história envolvente e empolgante – algo que seu antecessor já deixava a desejar. A continuação apresenta o avião Dusty algum tempo depois de ter se tornado um grande corredor e vencedor do rally “Asas pelo Mundo”. Depois uma falha mecânica, que o leva a causar um incêndio em sua cidade natal, Dusty decide se tornar o novo bombeiro do local. Dusty vai então para uma reserva florestal treinar com outros aviões bombeiros e aprender o valor trazido por se dedicar em colocar a vida dos demais acima da sua.

Isso leva a história para mais uma jornada de superação de Dusty, rodeado por um monte de novos personagens, a maioria sem carisma ou alguma característica que os diferencie (situação similar ao primeiro “Aviões”). Além disso, novamente surge o personagem que se torna o “mestre” do protagonista, guiando-o pelas dificuldades. Este posto é o de Blade Ranger, que inicialmente possui uma aversão a Dusty, mas que não deixa de ajudá-lo, e que assim como Skipper do longa anterior, possui um passado obscuro.

O roteiro é apenas uma reorganização de todos os elementos do predecessor para o ambiente da vida dos bombeiros. Ambiente que, aliás, a narrativa pouco tenta se aprofundar, apesar da mensagem inicial de que o filme seja dedicado aos bombeiros. Um pouco melhor o filme se saí ao demonstrar a importância da preservação de locais naturais e os perigos que tais lugares passam quando batem de encontro com os turistas, sem que para isso vire um filme educativo.

As crianças podem ficar fascinadas pelo mundo colorido e bem acabado dos aviões, não se importando com a profundidade da história, já que o nível técnico segue os padrões das animações atuais. O mesmo não deve acontecer com os adultos. Para os mais velhos pelo menos há algumas piadas (não muito originais, é verdade) que só eles devem entender, assim como as referências às músicas de Valesca Popozuda e ao Compadre Washington, presentes na dublagem brasileira. Também se tem Tatá Werneck dublando, que mesmo não sendo dubladora profissional, traz um pouco mais de carisma à personagem Dipper – a personagem mais engraçada do filme, com seu estilo obsessivo e romântico.

Se aventurar a assistir “Aviões 2” é já ter em mente que irá se ver um produto feito às pressas, sem uma narrativa bem acabada ou envolvente, além de piadas manjadas. Para os adultos que vão acompanhar crianças, é bom não esperar nada do filme, que afinal é quase uma grande jogada publicitária em forma de narrativa cinematográfica.

Crítica: Jersey Boys: Em Busca de Um Sonho

jersey boys

NOVO TRABALHO DE EASTWOOD É CHARMOSO APESAR DAS FALHAS.

Conhecido por dirigir grandes dramas, Clint Eastwood busca em seu novo trabalho ter contato com um gênero antes pouco explorado por ele: o do musical. É fato que o diretor já trabalhou com música no cinema, mas em “Jersey Boys: Em Busca da Música”, baseado em uma peça da Broadway, ele tem a oportunidade de trabalhar melhor com o tema e criar belas performances com a ajuda dos atores.

A trama gira em torno da história real do quarteto “The Four Seasons”, composto por Frankie Valli (John Lloyd Young), Tommy DeVito (Vincent Piazza), Nick Massi (Michael Lomenda) e Bob Gaudio (Erich Bergen), desde sua formação até seu rompimento. Mostrando os diversos problemas sofridos pelo grupo, como conflitos familiares e até o envolvimento dos membros com a máfia, o roteiro acaba se mostrando inconstante, tanto na história, quanto no momento de balancear o tempo dos personagens em tela.

Enquanto o espectador tem a chance de conhecer e se afeiçoar por Tommy, Bob e Frankie, o quarto integrante do grupo, Nick, fica quase que totalmente apagado – e seria melhor assim, pois, quando o longa tenta dar alguma importância para o personagem, já é tarde demais, de modo que Nick parece uma pessoa totalmente forçada e sem convicção, e nem mesmo a piada feita pelo personagem ao final pode salvá-lo.

Isso se deve muito ao fato de Nick não ter um grande envolvimento com Frankie Valli, o verdadeiro protagonista da narrativa e o mais famoso dos integrantes do “The Four Seasons”. Mas se todas as atenções estão voltadas para Valli, o personagem acaba por ser enfraquecido pela atuação de Lloyd Young. O ator se sai bem no início da projeção, com um Frankie mais inocente e juvenil, mas não consegue trazer a seriedade necessária para o personagem no decorrer da projeção – ainda que se destaque nos números musicais. Por outro lado, Vincent Piazza, que interpreta Tommy DeVito, rouba a cena com seu jeito de mafioso italiano, que parece ser inspirado em personagens de filmes como “O Poderoso Chefão” e “Os Bons Companheiros”. Destaque também para Christopher Walken, que aparece pouco, mas de forma memorável.

O interessante trabalho de fotografia Tom Stern e a direção de arte de James J. Murakami, que abusa de tons escuros como o marrom, dão uma maior seriedade e cara de drama ao longa. Mas por um descuido, esses mesmos elementos acabam por sacrificar as constantes piadas do filme, fazendo com que seja difícil para o espectador soltar uma risada em um clima tão sério. O excesso de tons escuros e a iluminação também acabam por trazer uma estranheza à visão em cenas mais claras e coloridas.

Felizmente os números musicais – poucos, mas divertidos – se enquadram perfeitamente no filme como um todo. São nestas horas que se percebe como “Jersey Boys” cresce na tela do cinema e que, ainda com suas falhas, consegue não deixar o espectador aborrecido.

Crítica: Como Treinar o Seu Dragão 2

como treinar o seu dragão 2

SEQUÊNCIA É TÃO EMOCIONANTE QUANTO SEU PREDECESSOR

Quando estreou em 2010, “Como Treinar o Seu Dragão”, animação livremente baseada no livro homônimo de Cressida Cowell, surpreendeu e se tornou uma das melhores bilheterias daquele ano, conquistando também o coração do público. Quatro anos depois, a Dreamworks presenteia a todos os fãs de Soluço e Banguela com “Como Treinar o seu Dragão 2” (How To Train Your Dragon 2).

A aventura se passa alguns anos depois da primeira história, e mostra o protagonista Soluço (voz de Jay Baruchel) com vinte anos, em uma Berk onde dragões e humanos vivem em paz. Soluço está prestes a se tornar o líder de sua tribo, algo que trás orgulho para seu pai Stoico (Gerard Butler), mas que o deixa muito apreensivo. Porém, este não é o único problema na vida do jovem viking: junto de Banguela, ele descobre que Berk está prestes a entrar em guerra com um grupo de caçadores de dragões liderados por Drago (Djimon Hounsou no original, e dublado por Rodrigo Lombardi no Brasil).

Assim como seu predecessor, o longa volta a tratar de assuntos como a amizade e a responsabilidade, mas consegue encaixar aqui novos temas, entre eles, a relação mãe e filho, algo muito importante para a narrativa e para o protagonista da história, e que se desenvolve de forma natural. O lado positivo é que o surgimento da mãe de Soluço (algo já anunciado pelos trailers), não diminui a relevância do pai, que também tem seus momentos de interação com o filho. A narrativa também aproveita para tratar do relacionamento entre casais de forma adulta, sem que isso prejudique o tom família que a circula – afinal, este é um filme que não tem medo de tratar de assuntos que mais sérios, daqueles que não atingem essencialmente o público infantil.

É interessante ressaltar também como o roteiro consegue entrelaçar direitinho todos os conflitos da história, sem deixar nada forçado. Aliás, a quantidade de conflitos é tanta que a animação quase não para. Está sempre acontecendo algo importante em tela, e se não é uma cena de ação essencial para a história, é alguma explicação importante, de modo que quem assiste ao filme ficará grudado na cadeira no cinema. Neste ponto, a montagem ajuda muito, encaixando perfeitamente cada situação, para que nada fique confuso. Mas, ainda assim, o longa consegue dar um descanso ao espectador, em geral, nos rápidos momentos de comédia, estrategicamente inseridos no roteiro para aliviar a tensão.

Logo que se inicia, a animação exibe seu visual deslumbrante. Os cenários são maravilhosos e os personagens tão bem construídos que, em algumas cenas, dão a impressão de serem pessoas reais, assim como os dragões que surgem a todo o momento na história, das mais diversas formas, tamanhos e cor. O filme exibe assim a grande evolução tecnológica entre o primeiro e este segundo, e é impossível não ficar extasiado com as imagens de algumas das belas sequências.

A trilha sonora de John Powell é novamente muito bem trabalhada. Possui melodias que se assemelham às do primeiro filme, mas que ainda tem um toque de novidade, como se a própria música tivesse crescido junto dos personagens – algo necessário, pois muita coisa mudou de uma história para outra.

Exibindo a mesma qualidade do longa anterior, “Como Treinar o seu Dragão 2” já se mostra um dos melhores filmes do ano até aqui, possuindo belíssimas imagens e um roteiro que corajosamente trata de diversas temáticas. Uma aventura agradável para adultos e para crianças.