Crítica: Attack on Titan

A regra é clara: se algo faz sucesso, significa que pode virar uma adaptação cinematográfica. E isso vale principalmente para mangás e animes, cujo os longa-metragens costumam ser muito populares no Japão, ainda que nem todos cheguem ao nosso país. Shingekin no Kyogin (ou Ataque de Titãs) foi um desses casos, um mangá que recebeu uma adaptação em anime no ano de 2013 e que fez enorme sucesso tanto no oriente, quanto no ocidente. O anime/mangá originou um longa em live-action em 2015, que agora chega ao Brasil pela Sato Company sob o nome de Attack on Titan.

Como é de se esperar, um filme de uma hora e meia (ainda que esta seja apenas a primeira parte de uma obra dividida em dois filmes) não conseguiria adaptar todos os 24 capítulos do mangá, por isso, grandes liberdades criativas foram tomadas. O conceito, porém, continua o mesmo: em algum ponto no tempo, gigantescos humanoides chamados titãs surgiram e começaram a se alimentar de humanos. Os humanos, para se protegerem, construíram 3 muros em torno de um reino, que durante séculos os têm protegido das ameaças letais.

Neste contexto vive Eren (Haruma Miura), um rapaz que sonha em desbravar o mundo além dos muros humanos. Certo dia, porém, um titã maior que todos os outros surge e abre uma passagem no primeiro dos três muros, liberando espaço para que outras criaturas dessa espécie acabe invadindo o território dos humanos. Durante tal ocasião, Eren perde a namorada, Mikasa (Kiko Mizuhara), e decide entrar numa divisão especial das forças armadas de seu reino, cujo o objetivo é consertar o muro quebrado e eliminar o máximo de titãs possível.

Com muita coisa para explicar em pouco tempo, o roteiro apela para momentos expositivos quase que a toda hora, de modo que no mínimo a cada cinco minutos há um personagem pronto para expor detalhes de algum elemento do universo da obra. Além dessa técnica demonstrar a incapacidade dos roteiristas Tomohiro Machiyama e Yûsuke Watanabe em conseguir condensar o material original, ela peca pelo exagero e ultrapassa a linha do aceitável, de modo que o longa não apenas fica a todo momento explicando coisas sobre titãs ou equipamentos para matá-los, mas passa a aplicar tal técnica até mesmo a relação e sentimentos dos personagens, que não conseguem exprimir suas crenças por outros meios que não através de frases expositivas.

Poucas são as sequências em que o longa explora algum tipo de poética e quando surgem, parecem estar totalmente desencaixadas do conjunto como um todo. A direção também não ajuda neste ponto, pois faz com que as cenas pulem de um acontecimento ao outro de forma tão rápida, que o filme não consegue construir um clima para um momento que deveria ser dramático, ou trabalhar bem qualquer fragmento cômico.

Incomoda ainda que este exagero seja acentuado pelas atuações dos atores. É comum em filme japoneses as atuações mais enfáticas, como no teatro, de modo que eles parecem de fato terem saído de um anime. Acontece que isto, alinhado a um roteiro pobre em sua construção, faz com que o elenco se torne um bando de caricaturas pobres e sem alma.

Nesse monte, o pior provavelmente é o próprio Eren, cujo as justificativas são tão rasas que mesmo após um personagem questioná-lo em relação ao motivo do porque odeia tanto os titãs, suas ações ainda soam forçadas, o que piora na atuação artificial de Miura. Os únicos atores que conseguem salvar seus personagens (e possuem algum espaço para isso) são Kanato Hongô, que cria um Armin frágil, mas atencioso com os demais, e Hiroki Hasegawa, que oferece certo grau de mistério ao seu Shikishima, ainda que consequentemente caía na canastrice.

As cenas de ação não fazem feio e os efeitos são razoáveis, mesmo que o design dos titãs seja pouco inspirador  – com exceção de um, que é realmente horroroso, e isso é algo bom, já que a ideia é que essas criaturas nos causem medo. Entretanto, a execução atrapalhada e sem alma de Attack on Titan o torna uma obra esquecível e sem charme.

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Review: B: The Beginning

B: The Beginning é uma série um tanto quanto instável. Se por um lado apresenta uma boa premissa e consegue desenvolver um suspense mais ou menos interessante, por outro, o novo anime original da Netflix peca por utilizar soluções fáceis em alguns pontos de sua narrativa, que obscurecem os momentos realmente inteligentes de obra.

Produzido pelo estúdio Production I.G. (que trabalhou em um anime do Batman e em filmes de Pokémon), a obra é dirigida por Yoshiki Yamakawa e Kazuto Nakazawa (este último, ajudou a dirigir a sequência animada do primeiro Kill Bill) e envolve uma trama policial, junto de elementos de ficção científica e fantasia. Trata-se de uma mistura um tanto quanto estranha, e um dos motivos do porquê a obra em alguns momentos parece saltar de um sub-gênero a outra de forma apressada e pouco razoável.

A trama se desenvolve em um futuro não tão distante no reino fictício de Cremona, e segue duas histórias paralelas que se cruzam: a primeira é a de Keith, um detetive que se une a um conjunto da força policial do reino para tentar encontra um assassino serial killer (que mata outros serial killers) chamado Killer B; a segunda história é a do próprio Killer B, um rapaz chamado Koku, cujas as intenções obscuras  configurariam um spoiler leve caso eu as revelasse aqui.

Por se tratar de uma obra de suspense, o anime tenta o máximo possível segurar as respostas para as diversas perguntas que apresenta no decorrer de sua trama. É um artifício comum nessas produções, mas que aqui acaba sendo mal aplicado e torna toda a história arrastada, principalmente em seus primeiros seis episódios. Isto faz com que não somente o anime se torne massante, mas ele abra mão de um maior envolvimento do espectador com os personagens e o universo da obra, de modo que cenas que deveriam ser dramáticas, importantes e causar alguma comoção – como a do final do episódio 6 – se tornem apenas sequências de melodrama barato.

O que B: The Beginning faz é o inverso, por exemplo, de Puella Magi Madoka Magica. Se em Madoka, o clima se suspense só vai aumentando no desenrolar dos episódios, com novas situações criticas sendo construídas, sem revelar os maiores segredos da trama antes do fim, em B: The Beginning o suspense é em grande parte monótono, anda em círculos e é um tanto quanto previsível – é fácil descobrir quem é um dos principais vilões da narrativa – de modo que quando um dos personagens diz que “todos estão agindo de forma tão previsível que chega a ser engraçado” a fala se torna quase metalinguística.

Se não bastasse tudo isso, o roteiro ainda apela duas vezes pela mesma ladainha do “cara que precisa resgatar a personagem feminina”. Aliás, as personagens femininas são um grande problema no anime, pois, por vezes, é utilizada demasiada violência contra elas, um elemento quase fetichista e que nunca se repete quando a violência é aplicada a um personagem masculino. Coloque aí ainda o fato da personagem Lily, que deveria ser uma das protagonistas da série, ser um tanto quanto imatura, e mesmo que os outros personagens digam a todo o momento que ela é muito inteligente, ela só consegue solucionar um determinado “mistério” da trama a partir de um raciocínio ridículo sobre preferências alimentícias.

Ainda que tenha problemas no desenvolvimento de seu suspense, o anime não deixa de trazer algumas surpresas. Há na verdade uma reviravolta interessante no penúltimo episódio da trama, sendo uma pena que isto ocorra justamente já no fim da série. Além disso, o anime consegue desenvolver de forma eficiência a narrativa referente a Keith, apresentando de forma clara e eficiente suas motivações, bem como as motivações de seus inimigos. Já a narrativa de Koku é mais problemática, genérica e só se torna realmente interessante quando se une à história de Keith.

Apesar de possuir sequências de ação, esse não é o foco principal da obra, o que explica o fato de algumas lutas ocorrerem quase que fora da visão do espectador, com apenas linhas e sons sendo mostrados na tela. A animação, porém, é razoavelmente boa e não decai ao longo da temporada, um problema cada vez mais comum em grandes animes.

Trazendo um elenco secundário de personagens inexpressivos, e que vez ou outra agem de forma estranha apenas por capricho do roteiro, a narrativa B: The Beginning apela para plot-twists em quase todos os seus capítulos, e ainda assim caí em clichês de narrativas policiais e animes de ação.

Review: Ducktales – Os Caçadores de Aventuras

Lançada no final da década de 80, o seriado de animação DuckTales – Os Caçadores de Aventuras foi responsável por fazer com que diversas crianças mundo afora se apaixonassem por personagens como o Tio Patinhos e seu trio de sobrinhos. Agora a Disney busca emular o mesmo sucesso com um reboot dessa série clássica.

O novo DuckTales chega com às telas da televisão com um novo design para os personagens já conhecidos, bem como uma história que promete não só entreter os fãs de longa data do primeiro seriado, bem como agradar o público mais novo, que está tendo contato agora com as aventuras do Tio Patinhas. Durante um sessão especial para a imprensa, a Disney exibiu os dois primeiros episódios da série que deram um gostinho de como a animação vai se desenvolver.

É um início bem simples para série. Boa parte da metade do primeiro episódio busca apresentar os personagens aos jovens espectadores. Tio Patinhas é visto como um ricaço mal-humorado, mas que no passado foi um grande aventureiro. Ele não vê o sobrinho, Donald, há dez anos, devido a um conflito que os dois tiveram no passado (esta última parte fica subentendida por alguns diálogos).

Donald, por sua vez, vive em um barco velho com seus três sobrinhos: Zezinho, Luizinho e Huguinho. Quando precisa fazer uma entrevista de emprego, ele é obrigado a deixar o trio com Patinhas (e só nesse momento os três descobrem que o famoso Patinhas é seu tio-avô). A partir daí se abre a oportunidade para que o trio envolva Patinhas e Donald em várias aventuras.

A nova animação promove algumas mudanças em relação ao programa original. Agora os capítulos são muito mais sequenciais, com uma pequena história que vai evoluindo aos poucos, em contra ponto às tramas episódicas do desenho da década de 80. Outro detalhe é a participação de Donald no elenco regular da série, já que o personagem aparecia apenas em alguns poucos episódios da DuckTales original – e vale ressaltar que ele está bem menos mal-humorado no novo desenho.

Os personagens mais jovens também estão mudados, principalmente Patrícia, a única protagonista feminina. Enquanto na série antiga ela era uma criança imatura e doce, na nova série, ela é uma pré-adolescente mais ativa e que até mesmo sabe lutar. Já os irmãos Zezinho, Huguinho e Luizinho, apesar de mais velhos, continuam com o mesmo jeito travesso de sempre, e acabam funcionando quase como um personagem único de tão similares que são em relação às suas personalidades. A única exceção é Zezinho, que se mostra por vezes como o mais inteligente e contestador do grupo, buscando sempre provar que é tão capaz de enfrentar uma aventura quanto os adultos.

Claro, o problema dos três irmãos que parecem ser um só pode acabar mudando conforme a trama evolui. Quem sabe o público venha a conhecer mais da personalidade única de Huguinho e Luizinho, mas pelo que foi apresentado nos primeiros episódios, esses dois eram bem parecidos e acabavam apagados pelo terceiro irmão.

A série tem boas piadas, ainda que apele em alguns momentos para um humor já batido (como quando Donald quase pega fogo ao tentar proteger Zezinho). Já a questão da aventura é pouco mais fraca, pois mesmo com alguns embates com inimigos interessantes, as soluções encontradas para os problemas da trama são bem simplórias e até mesmo tira aquela sensação de perigo que poderia envolver os personagens.

A nova DuckTales – Os Caçadores de Aventuras apresenta alguns ganchos interessantes entre os episódios, mas a história parece se desenrolar com certa agilidade. Desse modo, fica a pergunta se os roteiristas conseguirão fazer com que o programa continue atrativo ao longo da primeira temporada e não passe aquela impressão de que estão apenas enrolando o espectador com tramas desnecessárias. Ao menos pelo que foi mostrado nessa prévia, a série tem calibre para isso.

Crítica: Detroit em Rebelião

Tem sido característica cada vez mais proeminente nos trabalhos recentes de Kathryn Bigelow a exposição dos problemas que cercam figuras e organizações governamentais dos Estados Unidos. Depois de ter mostrado o modo como a CIA utilizava de torturas em interrogatórios contra prisioneiros políticos em seu “A Hora Mais Escura”, não é de se estranhar que o novo projeto da diretora busque evidenciar uma questão bastante recorrente no país: o abuso de poder por policiais brancos contra negros.

Para oferecer um quadro desse problema, o filme “Detroit em Rebelião” (Detroit) se foca em um acontecimento trágico do fim dos anos 60, durante o ápice das rebeliões em bairros pobres de Detroit: o incidente no Motel Algiers. A história foca em quatro personagens: o vigia noturno Dismukes (John Boyega); o policial racista Krauss (Will Poulter); e os amigos Frank (Algee Smith) e Fred (Jacob Latimore). Os quatro acabam se envolvendo no incidente do motel, quando a polícia é avisada que um possível atirador estava escondido em um dos quartos do local.

Embora focado em um determinado acontecimento, o filme demora a chegar ao seu evento principal, já que há uma busca do roteiro em mostrar como a discriminação racial cresceu nos Estados Unidos e a origem das rebeliões nos primeiros minutos do longa. E mesmo quando a produção encontra seu desfecho ela fica mais ágil, pois busca exibir todas as consequências e etapas do processo judicial causado pelo incidente do Motel Algiers. É algo louvável? Sim, porém, cansativo demais e torna a obra um pouco massante.

A exposição demasiada, aliás, é algo que prejudica o filme até mesmo em momentos menores, como se ele tentasse “mastigar” a história e seus detalhes para o espectador, para que este compreenda tudo o que ocorre sem precisar queimar seus neurônios. Acontece que esses detalhes que ele explica acabam sendo óbvios demais. Um exemplo: em determinada sequência, dois personagens explicam como os policiais abordam os negros de forma violenta. Não há nenhuma outra serventia para esta cena no roteiro se não explicar para o próprio espectador como essa violência funciona, algo totalmente desnecessário, já que este é elemento chave da narrativa, sendo esperado que o espectador já tenha compreendido sua gravidade e funcionamento até aquele momento.

Ainda assim, Bigelow sabe como conduzir um longa e o filma de modo quase documental, com uma câmera em constante movimento, como se o espectador/observador estivesse de fato presente no meio de todos aqueles eventos. Ao mesmo tempo, a diretora sabe em quais sequências precisa deixar a câmera parada e focada para amplificar a dramaticidade da trama e as emoções de seus personagens.

Muito dessa tensão dramática se dá também graças à atuação de seus protagonistas, e se Smith e Latimore demonstram possuir uma ótima química para fazer com que sua amizade cresça na tela, é Boyega e Poulter quem roubam a cena, o primeiro por conseguir transpassar o pesar de seu personagem pelo olhar, e o segundo pela vivacidade com que interpreta o odiável policial.

Há, porém, uma questão em relação a crueza com a qual o filme retrata a violência contra negros, algo feito sem nenhuma censura, tanto na agressão física, quanto nos xingamentos deferidos contra os personagens. Essa crueza em partes se justifica pelo objetivo do filme em denunciar a violência, mas há também uma pequena falta de tato em alguns momentos – algo extremamente necessário em um filme que trata de uma questão tão polêmica.

“Detroit em Rebelião” é um filme importante, e mesmo com seus problemas, ele se compensa pelo modo como envolve o espectador em seus momentos mais importantes. Tudo graças a Bigelow, que já se firmou como uma das mais talentosas e importante diretoras da atualidade. É esperado que ela continue sua ótima trajetória e ofereça mais filmes que denunciem problemas sociais e políticos à grande audiência.

Crítica: Lino – Uma Aventura de Sete Vidas

ANIMAÇÃO NACIONAL SE BENEFICIA DE ÓTIMA TÉCNICA, MAS NÃO SURPREENDE COM SUA HISTÓRIA

Um desavisado pode achar que “Lino” é mais um blockbuster animado norte-americano. De fato, em termos técnicos, esta produção nacional não deixa a desejar em relação aos concorrentes estrangeiros, sendo um exemplar de como a animação brasileira cresceu até aqui. Entretanto, o novo filme do StartAnima (um dos mais importantes estúdios de animação do país, responsável pelo já clássico ‘O Grilo Feliz’) também revela uma série de pequenas falhas que comprometem sua narrativa.

“Lino” segue o protagonista homônimo (Selton Mello), um rapaz azarado que trabalha como animador de festas infantis vestindo uma fantasia de gato rosa, uma profissão que ele detesta. Na busca por mudar de vida, ele busca um feiticeiro pouco confiável que o acaba transformando no gato de sua fantasia. A situação do moço piora quando ele é acusado de um crime que não cometeu e começa a ser perseguido pela polícia.

A animação apresenta ótima fluidez e, mesmo não possuindo detalhes como texturas e pelugens mega realistas, é digna de aplausos pelo capricho com a qual é concebida. O design dos personagens também é bem trabalhado e eles se expressam com naturalidade, o que torna fácil a criação de afeição pelos espectadores.

O destaque, aliás, é o próprio Lino, que é o mais caricato do longa todo e se beneficia do ótimo trabalho de voz de Selton Mello, o qual com certeza é o melhor elemento do filme. O ator parece estar bastante confortável no papel e sua longa experiência com dublagem transparece na performance vocal. Dira Paes também se mostra desenvolta como a policial Janine, sendo uma pena que a personagem acabe apagada pela falta de desenvolvimento.

O roteiro consegue amarrar de forma eficiente os personagens do passado e do presente na vida de Lino, mas se atrapalha na condução da trama. Ao invés de evoluir o arco de seus personagens – e principalmente de seu personagem principal – com organicidade, a produção acaba focada em sequências de ação e piadinhas. Por exemplo: não há interação entre Lino e o feiticeiro Don Leon que o acompanha em sua jornada que explique qualquer sinal de amizade entre os dois (o protagonista passa a maior parte da projeção criticando o companheiro); ou mesmo um elemento que leve Janine a se afeiçoar pelas qualidades do Lino adulto (os dois já se conheciam quando jovens, o que não justifica a repentina adoração da garota pelo protagonista).

O filme ainda parece tentar mimetizar a relação de Sully e Boo em “Monstros S.A.”, ao colocar Lino para cuidar de uma bebezinha chamada Pestinha que constantemente o chama de “gatinho”. Trata-se de um elemento que não funciona, seja pelo modo como Lino age junto a garotinha, não suportando-a de início e então de forma súbita se apaixonando por ela; seja pelo fato da personagem não possuir nenhuma função narrativa. Sim, o filme poderia se desenvolver sozinho sem a Pestinha e ainda assim apresentar o mesmo desfecho.

Em detrimento de uma boa elaboração narrativa, o roteiro parece focar-se numa fórmula dada. Funciona assim: Lino é colocado em meio a um problema; Lino começa a ser perseguido por algum grupo de pessoas; Ligo escapa de seus perseguidores de forma “incrível”. Aqui há uma preferência pela busca de soluções fáceis para a resolução desses conlitos do protagonista, o que se reflete mesmo nos minutos finais do longa, quando ele já abandona essa fórmula.

As várias piadas do filme pouco divertem, com muitas delas sendo trocadilhos sem graça alguma ou se pautando em algum elemento totalmente fora da diegese da história – a brincadeira com o nome do Cirque du Soleil é um exemplo que une essas duas propriedades. Claro, há bons momentos, como a sequência da batalha de dança, mas nada que seja o suficiente para trazer gargalhadas ao público.

Que é ótimo ver o cinema de animação nacional se desenvolvendo e alcançado um grande público (“Lino” terá distribuição pela Fox International Productions, o que deve garantir que ele figure em muitas salas pelo país), isto não resta dúvida. Porém, é necessário também saber analisar uma produção como “Lino” e apontar onde ela pode melhorar.

Crítica: Manifesto

“Manifesto” é um filme de origem singular. Concebido inicialmente pelo diretor Julian Rosefeldt como uma instalação em vídeo que mostrava Cate Blanchett interpretando 13 personagens e recitando diferentes manifestos, ele foi em seguida editado para se tornar um longa-metragem de uma hora e meia. Não há história, mas há narrativa, uma ordenação no roteiro que Rosefeldt apresenta de maneira engenhosa e natural, fazendo com que hora o texto de dois manifestos se complementem, hora eles se contradigam, ascendendo uma discussão mental na cabeça do espectador – e um dos meus momentos favoritos é justamente quando o diretor aborda o Dogma 95.

Rosefeldt e Blanchett apresentam manifestos que discutem questões políticas e sociais, mas há uma predominância pelo debate em relação à arte e como ela deve ser configurada. Digo que tanto diretor e atriz apresentam os manifestos porque, apesar de Rosefeldt ter concebido a ideia, são ele e Blanchett quem a executam. Ele fazendo as escolhas técnicas para a elaboração do filme, ela oferecendo a atuação precisa e ardente necessária para uma produção como essa.

“Manifesto” é uma obra que não seria a mesma sem sua atriz principal. Blanchett tem uma força em seu olha e sua voz que é transposta para tela, um feito que somente uma atriz com sua técnica e experiência poderia realizar. É incrível até mesmo notar como ela muda seu olhar, tom de voz e postura ao interpretar os 13 personagens, sem parecer artificial e oferecendo identidade a cada uma de suas facetas no filme.

Tão pontual quanto a atuação de sua protagonista é a direção de Rosefeldt, que coreografa com precisão as movimentações da câmera e os cortes das cenas. Há diversos momentos nos quais é possível notar esse controle do diretor em relação a execução do filme, como na sequência em que uma mulher está oferecendo uma festividade a um grupo de convidados refinados, que chama a atenção desde a sua abertura até seu encerramento pelo modo como o diretor insere a câmera hora dentro, hora fora do ambiente da festa.

O diretor ainda cria cenários que não são míseros planos de fundo, mas sim metáforas dos manifestos expostos. Um exemplo: durante um enterro, uma mulher recita o manifesto dadaísta. A simbologia é óbvia, com o manifesto dadaísmo significando a quebra da arte, a morte da arte, o esquecimento do passado e a ignorância do futuro, ali representados pelo evento fúnebre, evento que revela a morte (da arte), enterra todas as experiências passadas e ao mesmo tempo faz com que se perca as esperanças do futuro. É um pequeno momento de ode ao tempo presente e à arte contemporânea.

Trazendo à tona a questão do que é a arte, Rosefeldt não busca oferecer ao seu espectador uma resposta. Na realidade, a grande intenção de seu filme é trazer algumas indicações e proporcionar que o espectador tire suas próprias conclusões em relação a esta pergunta que tem gerado debates há séculos. Este é o grande objetivo de “Manifesto”: fazer seu espectador pensar e refletir; e é justamente isto que torna o longa tão relevante.

Análise: Marvel vs. Capcom: Infinite

Análise publicada originalmente no site Pulo Duplo.

Após uma passagem pela E3 2017 bastante criticada por seus fãs, muitas dúvidas acabaram instauradas em torno do novo Marvel vs. Capcom: Infinite. O jogo parecia mal acabado e não tinha o mesmo apelo de antes. Seria ele uma mancha na história da franquia? A verdade é que o resultado final do título não é o desastre esperado por alguns, embora Infinite careça do encanto mostrado por seus predecessores.

O novo game mantém a essência da franquia: é um jogo de luta dinâmico e pautado em combos incríveis, tão belos que nos fazem encher os olhos de alegria. Só que no meio de tudo isso há uma série de deslizes, de faltas, e deixa uma sensação de que por pouco ele não levou um nocaute.

Esses pequenos problemas estão na própria forma de como o jogo desenvolve seus objetivos. Na busca por se tornar um jogo de luta mais acessível a novos jogadores (uma medida que vem se tornando cada vez mais comum em games do gênero), Infinite insere novas mecânicas que facilitam a execução de combos, como os auto combos e os easy combos.

Só que o que deveria facilitar a vida do jogador, pode se tornar uma verdadeira dor de cabeça. Não é incomum desencadear um combo em momento errado devido a esse sistema tão “fácil”. Por vezes, o jogador até mesmo acaba por perder um pouco da sua barra HC (necessária para aplicar os combos mais complicados), o que é bastante frustrante.

Em compensação, a nova ideia de colocar as Pedras do Infinito como itens aplicáveis à luta é bastante proveitosa. Elas não só possibilitam que um bom jogador possa tirar vantagens de seus combos para aplicar ataques bem calculados (as pedras da alma, realidade e poder são ótimas para isso), como também permitem que se desvie de investidas incômodas ou atraia um inimigo para um golpe mortal.

As pedras também podem desencadear uma Infinity Storm, fazendo com que se consiga um aumento de determinados status por curtos períodos de tempo. É o melhor momento para colocar todo o treinamento à prova já que exige uma postura ofensiva do jogador, e com isso, pode-se até mesmo virar o jogo em uma luta complicada.

Ao contrário de Ultimate Marvel vs. Capcom 3, as lutas de Infinite são entre duplas e não mais em trios. Isto faz com que os embates sejam mais rápidos e graças às boas aplicações de controle para troca de personagem, é fácil efetuar aqueles golpes combinados já manjados entre os fãs da série.

O game vem com três modos principais: um modo Estória, um de Batalha e um modo Missão –  além do já conhecido Treinamento. Desses três modos, o Missão é o menos atrativo, pois é basicamente um tutorial de como efetuar combos e ataques com os personagens. Nada divertido e provavelmente o jogador não vai querer ficar voltando a este modo muitas vezes – a não ser para conseguir algumas conquistas que exigem a finalização de certo número de missões.

O modo Batalha é com certeza o grande destaque do jogo. É nele que estão as batalhas de Arcade e as lutas Online, além das disputas locais e da possibilidade de se configurar uma briga única com a máquina, escolhendo seus próprios oponentes – e eu realmente admiro quando os games de luta permitem que se faça isso, já que considero esta uma ótima forma de treinamento.

Sobre o Arcade, ele segue o sistema básico com o qual já estamos acostumados: vencer sete lutas seguidas até chegar a um chefe final gigante no oitavo embate, sempre com inimigos aleatórios e com a possibilidade de aumentar ou diminuir a dificuldade das lutas. Interessante que no começo de cada combate, o jogo permite que se troque a Pedra do Infinito que se vai utilizar na luta, de modo que é possível reelaborar suas estratégias com base nos inimigos que se enfrentará na briga seguinte.

As brigas online (um elemento que a Capcom tem se atentado cada vez mais, inclusive em outras séries como Street Fighter) ocorrem com bastante fluidez e sem problemas de conexão que possam causar qualquer frustração. Se há alguma demorar em achar um oponente, o game é rápido o suficiente para mandar uma resposta de que não se encontrou ninguém na busca, evitando que o jogador espere por longos períodos de tempo por um embate que nunca acontecerá.

O modo Estória, por sua vez, é curto e sua narrativa é pouco interessante, ainda que as justificativas para a união dos dois universos sejam aceitáveis. Na trama, Ultron e Sigma se uniram e, com a ajuda das Pedras da Realidade e do Espaço, fizeram os universos da Marvel e da Capcom colidirem. Heróis e vilões dos dois universos então são obrigados a cooperar uns com os outros para evitar que o novo Ultron Sigma escravize toda forma de vida biológica.

Um grande problema desse modo são suas brigas confusas, já que a intenção aqui é apenas a exposição de todos os personagens possíveis para o jogador. Dessa forma, são criadas brigas coesas com a história, e outras que surgem do nada – nas quais inclusive fica difícil saber antes da batalha quem você controlará – como aquelas mais pro fim da história.

As brigas mais complicadas contra “chefes” não são tão divertidas, e nem mesmo muito desafiantes. Os diálogos nas cutscenes são sofríveis, cheios de frases de efeito e piadinhas forçadas, o que faz com que seja bem cansativo acompanhar a narrativa. O fato dos personagens terem a expressividade de uma parede também não ajuda.

Os gráficos melhoraram das versões prévias para a final, mas ainda assim Marvel vs. Capcom: Infinite não parece ter todo o cuidado com os modelos de seus personagens que outros games têm por aí. Talvez a qualidade gráfica pouco chamativa seja para evitar que o grande número de personagens em tela deixe o jogo lento, mas ainda assim me parece que este elemento poderia ter sido melhor trabalhado. Inclusive, acredito que os gráficos estilizados de Ultimate Marvel vs. Capcom 3 são muito mais chamativos que os de Infinite.

Entretanto, tenho que aplaudir o cuidado com os cenários, que são evidentemente contruídos com base nos tons das cores das Pedras do Infinito. Eles oferecem certa unidade ao universo do jogo e reforçam seu aspecto de mundo pós-apocalíptico.

Infinite tem bom número de personagens jogáveis (sem contar os DLCs), mas é notável a falta que alguns heróis da Marvel fazem no título, principalmente os X-Men (o que chega a ser irônico, uma vez que a franquia começou justamente com X-Men vs. Street Fighter). Fica a dúvida se a escolha dos heróis presentes no game foi apenas uma forma da Marvel tentar alavancar a popularidade de seus personagens em outra mídia – e também se a Marvel precisa mesmo trazer seus imbróglios de outras mídias para suas produções nos videogames.

Outro fator notável é o número pífio de personagens de femininas (apenas quatro de trinta). Numa época em que se discute tanto a representatividade nos games, principalmente feminina,  a Capcom podia ter trabalhado melhor essa parte.

Marvel vs. Capcom: Infinite é um bom game, até mesmo desestressante, mas não memorável. Mesmo sendo um jogo de luta com uma boa modalidade de Arcade, é difícil acreditar que o jogador vá retornar várias vezes para testar todos os personagens. É mais um título que você joga, se diverte, mas depois que os créditos sobem pela tela, você o desliga e parte para um outro desafio.

Crítica: O Castelo de Vidro

A vida da escritora Jeannette Walls pode ser definida como “cheia de seus altos e baixos”. Vinda de uma família disfuncional e pobre, ela conseguiu ir de jornalista reconhecida por colunas de fofocas a autora de um best-seller biográfico. “O Castelo de Vidro” conta a longa trajetória da autora tendo como ponto de partida os próprios escritos da moça em seu livro. Entretanto, o que torna este filme tão cativante não é a interessante história de vida da protagonista e sim o modo como as relações dela são construídas junto a seus familiares – e em especial com o pai.

O longa segue as memórias de Walls (Brie Larson) que passou a infância pobre com seus 3 irmãos e seus pais vivendo em diferentes lugares dos Estados Unidos. A mãe de Walls, Rose Mary (Naomi Watts) era uma artista que por vezes dava mais atenção aos quadros que pintava do que aos filhos, enquanto o patriarca Rex (Woody Harrelson) vivia tendo problemas com álcool, arrumava confusão com as autoridades e por vezes tratava os filhos com grosserias. Prestes a casar, Jeannette se vê obrigada a novamente encarar Rex e Rose, ainda que isto não seja de todo seu agrado.

Ainda que o roteiro de Andrew Lanham e Destin Daniel Cretton (este último é também diretor da obra) peque por momentos de sentimentalismo barato e diálogos rasos que se acham poéticos, a construção do relacionamento de Jeannette e Rex é satisfatória e ocorre de forma natural. Se quando jovem a moça aceitava com facilidade as atitudes pouco éticas do pai, é natural ver que em seu crescimento ela comece a contestar essas ações para seu próprio bem e dos irmãos.

Há, entretanto, um problema no modo como esses atos de Rex são representados durante o longa. Cada atitude repreensível do personagem contra Jeannette ou um membro da família é seguida por um momento de quase redenção do pai, como se esses atos terríveis tivessem justificativa. Embora isto torne Rex mais humano – e é justamente isso que faz com que os personagens da obra sejam tão cativante, eles são humanos que erram e acertam – fica a sensação de que a obra está passando a mão da cabeça do patriarca, o que não é a melhor forma de expor o sofrimento passado pela família de Jeannette.

Tal sofrimento também se mostra amenizado pelas escolhas da direção de arte no momento de expor a miséria em que vive a família Walls. Neste caso, a direção confunde vestimentas e cenários rústicos com símbolos de pobreza extrema, deixando de lado qualquer outra representação visual mais chocante.

Se algum impacto é sentido na tela, ele vem muito mais da atuação de seu elenco do que de um esforço de direção. Brie Larson se mostra esplendida em conduzir o longa, conseguindo mudar com naturalidade a postura de sua personagem conforme a obra vai e vem no tempo. Harrelson encarna com veracidade seu problemático Rex, conseguindo até mesmo lhe inferir certo sotaque. Watts por sua vez é mais fechada – em parte porque sua personagem não tem tanto tempo de tela – porém, ela consegue exprimir dor e desespero quando necessário.

O grande mérito de “O Castelo de Vidro” é apresentar personagens reais, complexos e cheios de problemas, em um mundo em que ninguém é totalmente mau ou bom. Com isto, o filme expõe, ainda que aos tropeços, que todos os pais podem ser afetuosos e cruéis ao mesmo tempo, e que de alguma forma, o modo como eles nos educam refletirá em nosso destino. Trata-se de algo que Jeannette Walls aparentemente aprendeu da pior forma possível.

Crítica: Esta é a Sua Morte – O Show

A princípio, “Esta é a Sua Morte – O Show” parece ser mais um filme trash barato, afinal, trata-se de um longa de baixo orçamento, estrelado por um elenco pouco conhecido e cuja a premissa envolve uma dezena de mortes. E de fato o filme tem seu lado trash no modo como espetaculariza a morte. Entretanto, esta é também um obra de maior reflexão e cujo os pontos altos compensam seus deslizes.

A trama gira em torno de Adam Rogers (Josh Duhamel) um apresentador de reality shows que acaba tendo a carreira marcada após um assassinato e um suicídio ocorrerem ao vivo em um de seus programas. Abalado, ele tenta deixar a vida na televisão de lado, mas acaba recebendo uma proposta para apresentar um novo programa em que as pessoas são convidadas a se matarem em frente às câmeras. Relutante, ele acaba aceitando apresentar o reality uma vez que acredita poder com isso passar uma mensagem sobre a importância da vida.

O modo como Rogers facilmente muda de opinião em relação ao programa é um tanto quanto repentino – e mesmo o motivo utilizado para justificar essa mudança é fraco. Mas é interessante ver como a moral do personagem acaba decaindo. Inicialmente preocupado com a vida e em ajudar a irmã enfermeira, Rogers logo se torna obcecado em tentar tornar o programa de mortes um sucesso.

Os personagens mais interessantes, porém, são os de Mason (Giancarlo Esposito), um antigo faxineiro da rede de televisão na qual trabalha Rogers, e de Karina (Sarah Wayne Callies), a irmã do protagonista. Assim como Adam Rogers, Mason passa por um espécie de queda moral, mas seu desenvolvimento é muito mais palpável e suas motivações mais sólidas. Já Karina vai além de uma simples muleta para o protagonista e ganha delimitações próprias, se tornando uma personagem cativante e com uma das histórias de vida mais interessantes do longa.

É admirável o modo como o roteiro consegue dar tridimensionalidade para seus personagens, tornando-os mais humanos. Mesmo a gananciosa executiva de televisão Ilana (Famke Janssen) possui seus momentos de vulnerabilidade e em pontos cruciais revela suas fragilidades. Não há bem ou mal, mas apenas pessoas que estão vendo outras pessoas morrerem na sua frente – e que podem ou não aceitar isso com facilidade.

A grande questão do filme é o debate sobre a vida e a morte. Mesmo espetacularizando a morte de forma a quase flertar com o gore, “Esta é a Sua Morte – O Show” traz reflexões sobre a importância da vida e o como o ser humano muitas vezes não se importa com a vida alheia – nós apenas queremos é ver um pouco de sangue e violência barata na televisão. Pode parecer que em certo ponto o filme vai se aprofundar em uma discussão sobre suicídio, mas isso nunca acontece – e esse nem é o foco do longa.

A produção tem a vantagem da boa performance de seu elenco. Esposito consegue dar densidade a um Mason insatisfeito com sua vida, enquanto Janssen se sente à vontade com o sarcasmo de Ilana. Até mesmo o limitado Duhamel consegue transpassar as emoções múltiplas de Rogers para a tela. Callies, por sua vez, surpreende com a forma delicada com que constrói Karina.

“Esta é a Sua Morte – O Show” é um filme que não tem o mesmo cuidado que outras produções em criar uma atmosfera angustiante para sua narrativa, mas essa atmosfera acaba se formando pelo modo como a história é conduzida a partir de boas escolhas de roteiro e direção de atores. Ao final, a mensagem do longa pode soar um pouco rasa, mas se olharmos para todo o contexto em que ela ocorre, ela se mostra bastante importante.

Crítica: Gatos

Ao longo de sua existência, os documentários têm dado voz a pessoas comuns e apresentado culturas de diferentes locais ao redor do globo para um público amplo. O modo como um longa documental pode realizar esse feito é vasto, mas talvez a ideia utilizada pela produção turca “Gatos” (Kedi) seja uma das mais curiosas e criativas aplicadas no gênero: expor a vida dos habitantes de uma cidade a partir do ponto de vista dos felinos que nela moram.

A cidade em questão é Istambul, que segundo o próprio filme, tem sido habitada pelos bichanos ao longo de centenas de anos, tendo eles visto o fim e o começo de diversas eras. Os felinos que vivem nos dias atuais costumam ficar soltos pelas ruas do local, mas criam laços de amizade e afeto com alguns cidadãos, que por sua vez revelam a história de cada um para as telas da câmera.

As pequenas narrativas dos gatos se misturam às crenças que os turcos possuem em relação a felinos. É um povo que os enxerga como seres inteligente que muitas vezes trazem sorte e afastam energia negativas. Em alguns casos, os gatos se tornam tão importantes para essas pessoas que as ajudam a superar problemas pessoais, como depressão e solidão.

Em geral, cada entrevistado vê no gato que o acompanha alguma característica positiva que eles próprios possuem, ou desejam possuir, como se os bichanos fossem reflexos dessas pessoas. Em meio a isso, o longa também expõem a relação dos gatos com a história e desenvolvimento de Istambul, ainda que de forma minimizada.

Interessante notar a mão da diretora Ceyda Torun na construção da personalidade de cada gato a partir da montagem, acentuando características de forma a torná-los quase caricatos – o que não é ruim, pois faz com que o público consiga se envolver ainda mais com os animais na tela. Com uma edição pontual, a gata “Psycho”, por exemplo”, parece muito mais brava e temperamental do que poderia ser, mas isto a torna humana e uma das personagens mais carismáticas do longa.

Por se tratar de um filme sobre gatos, a construção do longa é leve e cheia de humor, o que é bom, ao mesmo tempo que um problema: como não há uma verdadeira evolução de tom – de modo que quando o filme fica mais sério, ele logo retornar à sua leveza anterior – a produção começa a ficar cansativa e repetitiva em seu final, ainda que não totalmente enfadonha.

Na tentativa de unir todas as histórias e gerar uma conclusão, o longa se encerra com passagens que trazem mensagens vazias ou óbvias. Claro, o filme precisava de uma conclusão, mas optar pela obviedade talvez não fosse a melhor saída. Ainda assim, “Gatos” é um filme interessante e muito bem elaborado, um tipo tão atraente de produção que deve chamar a atenção até daqueles que não estão acostumados com documentários.